sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

CAPÍTULO 03: VOVÓ YORDANKA (Terceira Parte).


Yordanka, no entanto, não se deixou contaminar pela repentina euforia da neta. Disse:

"Acalme-se, querida.” - pediu, encarando-a com serenidade. - “Se continuar me puxando assim, vai arrancar o meu braço. Sua mamãe não está em casa.” - revelou.

"Vamos, vovó!” - insistiu, a menina, que pareceu não tê-la ouvido.

“Sinto muito, Klara.” - lamentou, Yordanka, firmemente. E repetiu. - “A mamãe não está em casa.”

“Ela não está em casa?”

“Não, querida.”

Ouvir tal resposta foi como se toda a alegria que sentia, feito uma avalanche de pedras, devastasse o peito da menina.

“Por que não?” - perguntou.

Mesmo tão pequena e ingênua, Klara não encontrava fim às suas perguntas. Era incansavelmente curiosa.

“Aonde ela foi?”

“Infelizmente, eu não sei.” - respondeu, Yordanka, tranquilizando-a. - “Mas não precisa ficar triste, prometo que vamos achá-la.”

“Está bem.” - a pequena búlgara concordou.

“Promete para a vovó que não vai ficar triste?”

“Prometo.” - Klara respondeu.

Voltou a segurar a mão da neta e continuaram, então, a caminhada. Mas Klara não demorou a fazer outra pergunta:

“Onde a gente está, vovó?”

“Estamos no parque Lipnik.” - respondeu, Yordanka, que, ligeiramente intrigada com a pergunta, quis saber. - “Não gostou do parque, querida?”

“Gostei, vovó.” - Klara respondeu, acrescentando. - “É muito bonito.”

“Bonito?” - Yordanka fingiu surpresa.

“Sim, vovó, o parque é muito bonito.” - assegurou, a menina.

“Fico feliz em ouvir isso.” - Yordanka sorriu, absolutamente contente ao ver a alegria fazer brilhar os olhos da neta. Revelou ainda. - “A vovó mora no parque.”

“No parque?”

“Sim, querida.” - confirmou, Yordanka, parecendo achar graça na curiosidade da menina.

Sem esconder a surpresa, a menina de Gabrovo imaginou como seria possível viver naquele parque, um lugar onde só os animais selvagens pareciam se sentir em casa. Imaginou-se dando boa noite às árvores antes de dormir e acordando coberta pelas folhas que não paravam de cair das árvores. Sentada em uma pedra, como se fosse a cadeira, diante de outra maior, como se fosse a mesa, imaginou-se almoçando e jantando flores, frutas e galhos secos que colhia do chão. Mas, entre as inúmeras coisas que lhe veio à mente, o que mais a intrigou foi pensar ter como únicos amigos os muitos animais esquisitos que imaginou existir naquela mata.

“Por que a mamãe nunca disse que a vovó morava em um parque?” - perguntou-se, Klara, pensativa, ao mesmo tempo que olhava ao redor.


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quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

CAPÍTULO 03: VOVÓ YORDANKA (Segunda Parte).


“Você é a minha vovó?” - perguntou.

“Sim, querida, sou sua vovó.” - respondeu, Yordanka, que, logo em seguida, perguntou. - “Dormiu bem?”

Lembrar-se das fotos também fez Klara se lembrar de Liza. Invés de responder à avó, a menina perguntou:

“Aonde ela foi?”

“Ela?” - intrigada, Yordanka perguntou de volta. - “De quem está falando?”

“Da minha mamãe.” - respondeu, Klara, em tom triste.

“Não precisa ficar triste, minha querida.” - Yordanka se apressou em consolar a neta. - “Eu não sei onde a mamãe está, mas podemos procurá-la.” - disse, penteando os cabelos da menina com os dedos. - “Vamos procurá-la juntas, o que acha?” - concluiu, prestativa.

“Está bem.” - Klara aceitou.

A velha e a menina puseram-se, então, a caminhar. Saíram da clareira e se embrenharam na vegetação fechada do parque que as rodeava.

“Está com fome?” - quis saber, Yordanka, enquanto caminhavam.

A menina respondeu que sim, acenando com a cabeça. Sentiu a barriga roncar de fome.

“Ótimo!” - exclamou, a velha, que arrancou um sorriso da menina ao dizer com entusiasmo. - “Eu também estou com fome, ou melhor, com muita fome, muita fome mesmo!”

“Aonde a gente vai, vovó?”

“Vamos para um lugar onde a gente pode procurar coisas gostosas para comer.” - respondeu, Yordanka.

Conforme caminhava, além de ouvir o cantar dos pássaros e os ruídos instigantes da mata, Klara também podia ouvir as águas do imponente rio Danúbio seguindo seu curso. Ouvia-o claramente apesar dele correr há uma certa distância de onde a menina estava.

Desde o exato momento em que abriu os olhos, seus sentidos encontravam-se apurados de maneira espantosa. Sentia-se mais espírito do que corpo e mais viva, apesar de morta. Contudo, também se lembrava de sua mãe, e, de repente, enquanto caminhava de mãos dadas com a avó, ao lembrar-se de sua própria casa e de alguns dos raros momentos felizes que viveu lá, parou, dizendo:

“Espera, vovó!”

“O que foi, querida?” - perguntou, Yordanka, encarando a menina com surpresa.

“Eu sei onde a minha mamãe está, vovó!” - Klara respondeu, eufórica, puxando-a, pelo braço, para retornarem à clareira. - “Vamos voltar, ela está em casa!” - pediu.

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quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

CAPÍTULO 03: VOVÓ YORDANKA (Primeira Parte).


Klara acordou numa clareira, no meio da mata, num dia absolutamente luminoso. Um clima bem diferente daquele que conhecia. Todo o mau havia passado e seus pulmõezinhos estavam livres da peste cinzenta. Estava curada. Deitada de barriga para cima, a primeira coisa que viu encheu-lhe os olhos. Viu um céu exuberante e profundo, de uma tonalidade azul-turquesa que se intensificava nos horizontes, sem qualquer resquício que a lembrasse daquele céu nublado de Gabrovo. Antes, enquanto ainda dormia, um passarinho tentava fazer ninho em seus cabelos.

“Onde eu estou?” - perguntou-se, a pequena búlgara, que se sentou e espantou o passarinho de seus cabelos. - “Estou sozinha.” - pensou, olhando em volta.

Procurou por sua mãe, mas não viu ninguém. Levantou-se repentinamente apavorada, com medo da mata, e só se acalmou quando ouviu:

“Dormiu bem, querida?”

Nunca esteve sozinha. Apesar do clima ensolarado, uma velha, que vestia um casaco verde de lã por cima de um vestido pesado, que em nada combinava com o clima agradável, a observava próxima de uma árvore.

Sem resposta da menina, a velha se aproximou, refazendo a pergunta:

“Dormiu bem, minha querida?” - a voz soou amorosamente.

“Sim.” - Klara respondeu em tom baixo.

O pouco de medo e pavor que a menina sentiu ao se ver sozinha foram se dissipando. Mas, mesmo quando se aproximou e a pequena pôde vê-la melhor, Klara não reconheceu a velha, que, então, se apresentou:

“Desculpe a minha distração.” - disse. - “Esqueci que ainda não fomos apresentadas. Sou sua vovó, Yordanka.”

Ainda assim, Yordanka não representava nada além de uma pessoa desconhecida para Klara. Inexpressiva, a pequena se limitou a encará-la.

“Isso mesmo, sou sua vovó!” - exclamou, sem se preocupar com a estranheza da menina. - “Sou a mamãe de Liza. Você é minha netinha.”

Havia uma razão para não reconhecê-la. Klara conhecia a avó apenas através das fotos que sua mãe lhe mostrara, e Yordanka, por sua vez, também nunca a havia visto pessoalmente. E sabia que não estava enganada.

“Não faz ideia do quanto eu esperei para te conhecer, minha querida.” - disse à menina. Com os braços abertos, perguntou. - “Não vou ganhar um abraço da minha netinha?”

Klara a abraçou, porém, ainda não se lembrava dela até que recordou-se das fotos e, enfim, a reconheceu.



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segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

Conto: O Arquipélago dos Morangos.


“José, as pessoas estão morrendo lá embaixo e você não vai para lá, ouviu bem? Agora, vai para o chuveiro!”

“Mas mãe!”

“Mandei você ir!”

José foi resmungando tomar banho.

Apenas uma bronca dificilmente funcionava com ele. Corajoso, nada parecia amedrontá-lo. Tinha um passatempo pouco comum aos meninos de dez anos, mas não era o único menino. Juntava uma galera de cinco amigos e punham-se a percorrer as manilhas de Vitória, e não eram poucas as que eles exploravam. Ficavam horas na escuridão, sem que vissem coisa alguma à frente dos narizes, procurando um tesouro perdido, um baú cheio de ouro que ninguém havia se dado ao trabalho para encontrar.

Líder dos exploradores, José foi advertido por sua mãe certa vez:

“Meu filho, você perde um tempo precioso fazendo isso.” - disse, Venezuela. - “Busca um tesouro que não existe. Bem que podia procurar outra brincadeira, uma que não fosse perigosa: como jogar bola por exemplo!”

“Mas jogar bola é muito chato e eu não gosto.”

Outra vez, em um daqueles incomuns dias quentes de pleno inverno, Venezuela o flagrou entrando em casa todo sujo e cheirando a merda. Após repreendê-lo, ela o segurou pela orelha e o levou até o banheiro.

“Quantas vezes precisarei repetir para que acredite que não existe tesouro algum?” - perguntou ao filho tampando o nariz. - “Só vai sair debaixo do chuveiro quando estiver bem limpinho, seu pequeno porcalhão!”

Venezuela fechou a porta e voltou aos afazeres ao tempo em que o filho tomou o banho. Não deu tempo para José dizer nada.

José Estrada procurava um baú cheio de ouro escondido no arquipélago por piratas. Tinha certeza que ele existia. - “Eu vou encontrá-lo antes que os piratas voltem!” - vivia dizendo a si próprio.

Era óbvio que Venezuela nunca aprovasse tais aventuras. Que mãe cuidadosa aprovaria? José não voltou para o esgoto naquele dia, porém, na tarde do dia que se seguiu, o pequeno explorador de esgoto esperou um descuido da sua mãe, que ela relaxasse a vigilância, pulou a janela do quarto e reuniu os amigos para procurar o tesouro.

A procura teve início quando ele e os amigos entraram em um córrego seco, por onde ingressaram na tubulação de esgoto. Tudo ao redor fedia como pouquíssimas coisas no mundo seriam possíveis de feder, o que não intimidou José de seguir em frente.

“É hoje que a gente acha ele!” - incentivou-os.

Contagiava os amigos com o seu destemor, mesmo assim, logo começaram a reclamar do mal cheiro.

“Eca, que cheiro horrível!”

“É só você tapar o nariz que não sente nada.”

“Que cheiro de cocô! - a voz de outro menino ecoou por boa parte da tubulação.

“Continuo sem sentir cheiro de nada. Quando a gente encontrar o tesouro, qualquer fedor vai ter valido a pena.”

“Tem certeza que não está sentindo cheiro nenhum?”

“Tenho.”

O amigo que vinha logo atrás duvidou imediatamente.

“Como se isso fosse possível, José.” - disse. - “Parece até que a gente caiu dentro de uma fossa!”

“Parecem umas menininhas reclamando desse jeito!” - José não deu a menor importância à reclamação dos amigos. - “Eu não sinto cheiro nenhum.”

Os amigos exclamaram em resposta:

“A gente vai fingir que acredita!”

“Eu estou quase vomitando!”

“E eu então: estou quase desmaiando!”

Ora discutindo, ora reclamando, prosseguiram com a exploração. Não enxergavam absolutamente nada; tateavam o caminho. Parecia que caminhavam pela tubulação por horas e horas. Foi então que, momentos depois, uma luz de esperança pareceu se ascender quando José percebeu alguma coisa raspar no fundo da manilha e parou de caminhar.

“Ouviram?” - perguntou aos amigos.

“Que foi agora?”

“Achou o nosso tesouro?”

“Não sei, acho que não.” - José respondeu.

“Que é então?”

José dobrou os joelhos, enfiou a mão na água podre e apanhou uma bolachinha de metal que estava embaixo de seu pé.

É uma moeda!” - comemorou.

“Achou uma moeda?”

“Isso mesmo, eu encontrei uma moeda!”

Os meninos se rebelaram:

“Só uma moeda!”

“Todo esse sofrimento por nada!”

“Procura direito, José, quem sabe você não encontra mais!”

“Esse é o nosso fantástico tesouro então? Hein, José Estrada, o menino da mamãe que inventa tesouros!”

“Aposto que essa moeda, assim como a gente, está fedendo a bosta também. Por que não dá uma lambidinha nela, José?”

O primeiro dos amigos que haviam se rebelado, logo em seguida, cansado de tanto falatório por nada, propôs:

Ora bolas, pessoal, é simples: a gente continua caminhando e acha mais moedas, a gente acha todas que tiverem.”

José Estrada ficou em silêncio, apenas tateando a moeda que havia encontrado. O segundo menino, por sua vez, concordou com a proposta feita pelo amigo.

É isso aí.” - disse. - “Se a gente encontrou uma moeda, deve haver mais; quem sabe até milhares de moedas só para a gente. A gente vai ficar milionário!”

“Está decidido então, e ponto final.” - o terceiro concluiu. - “A gente segue adiante e procura o resto do tesouro.”

Para o inconformismo dos meninos, José Estrada não saiu do lugar. Eles o interrogaram:

“Que aconteceu?”

“Por que não está andando?”

“Encontrou outra moeda?”

“Não.” - José respondeu.

“Qual o problema então?”

“Vocês não ouviram?” - José perguntou de volta.

“Ouvimos o que?”

“Um trovão.” - José respondeu.

“Está com medo de um trovãozinho agora!”

“Era só que faltava: José tem medo de trovão!”

Além de destemido, José Estrada também era um menino esperto e perspicaz. Sabia que o trovão anunciava chuva cujas águas encheriam a tubulação de esgoto do arquipélago, justamente por onde caminhavam naquele momento. Tinham que sair dali o mais rápido.

Não estou com medo do trovão, seus idiotas, é que, se começar a chover, a gente não pode mais ficar aqui.”

“Por que não?” - ainda sem entender, um dos amigos perguntou.

“Porque a água da chuva vai vir direto para cá, ou seja, a gente vai morrer afogado.” - José explicou em tom de voz apavorado. - “Mais alguma pergunta ou podemos dar o fora daqui?”

José e os amigos deram meia-volta e puseram-se a correr em direção ao córrego seco.

Puxa vida, só agora é que você avisa a gente!” - um deles reclamou para José.

Como havia sido o primeiro a entrar na tubulação, José Estrada era o último a correr.

Se não quiser morrer afogado, fecha a boca e continue correndo.” - respondeu.

A chuva atingiu toda a extensão do arquipélago. Veio timidamente, mas logo acinzentou o céu por completo, transformando-se em uma forte tempestade. As águas não apenas encheram as tubulações de esgoto como inundaram bairros inteiros e fizeram correnteza no córrego seco e em todos os outros leitos, e até em algumas das ruas de Vitória. Contudo, os meninos conseguiram sair da tubulação antes que começasse o temporal e ninguém se afogou.

Não vão me agradecer?” - José cobrou os amigos no caminho de volta para suas casas.”

Os meninos bancaram os durões. Disseram:

Mas por que acha que a gente deveria te agradecer, hein?”

“É isso aí, você quase mata a gente!”

“E foi por pouco, muito pouco!”

“E a gente continua fedendo a bosta além de tudo!”

José Estrada não acreditou no que ouviu. Defendeu-se:

“Vocês são uns mal agradecidos! Se eu não escutasse o trovão, todo mundo estaria lá embaixo agora! Todo mundo! De nada, galera!”


*****

No dia seguinte do temporal, pela manhã, Venezuela mostrou-se determinada em pôr um fim nas aventuras irresponsáveis do filho.

“José, preciso falar seriamente com você.” - disse, entrando no quarto do filho que ainda dormia. E parecia mesmo ser muito sério o que tinha para falar pois ela logo se sentou na cama, com o semblante fechado.

“A gente conversa depois, mãe.” - em resposta, José afundou o rosto no travesseiro.

“Depois coisíssima nenhuma!” - Venezuela chacoalhou o filho pelos ombros. - “Vai logo, acorda! - mandou.”

“Mas, mãe, eu estou com sono!” - o menino se recusava a acordar.

“Problema seu, José!” - Venezuela o chacoalhou com mais energia. - “Não vou deixá-lo dormir até que se vire para mim e me escute!”

“Está bem.” - o líder dos exploradores de esgoto finalmente se sentou na cama. - “Que você quer?” - perguntou com falta de respeito.

“Olha como fala comigo, moleque!” - Venezuela o repreendeu no mesmo instante.

José Estrada mal conseguia abrir os olhos, tamanho era o seu sono. Horas antes, no comecinho da noite anterior, ao ver o filho abrir a porta e adentrar a sala, iluminado pelos relâmpagos do temporal, Venezuela já o esperava por quase uma hora, com o coração espremido nas mãos.

Onde você estava?”

“Brincando com os meus amigos.” - José mentiu. - “A gente estava jogando bola.”

“Jogando bola?”

“Sim.”

“Não é verdade!” - furiosa ao perceber a mentira, Venezuela Estrada se levantou do sofá e segurou o filho pelo braço. - “Onde você estava?” - repetiu a pergunta.

“Estava procurando.” - José confessou então.

“Procurando o que?”

“Fui procurar o tesouro.”

Imediatamente após José confessar que havia ido procurar o tesouro novamente, ou seja, que havia desobedecido sua mãe, um relâmpago fez iluminar a paisagem na janela seguido por um trovão que, com um forte estrondo, assustou até mesmo José ao fazer com que a casa estremecesse.

Estou muito decepcionada com você, José. Não acredito que me desobedeceu de novo depois de tudo que falei. É isso mesmo que eu ouvi? Me desobedeceu? Será que não percebe o perigo destas aventuras estúpidas que você inventa, José?”

O pequeno nada respondeu à sua mãe. Limitou-se a olhá-la, vez ou outra, com a cabeça abaixada.
“Estou esperando. Por que não responde as perguntas?”

José continuou em silêncio e com a cabeça abaixada.

“Vai para o banheiro se livrar destas roupas imundas e tomar um banho bem quente.”

José obedeceu Venezuela sem reclamação.

Passado o temporal, os estragos eram visíveis por todo o arquipélago, as ruas estavam cheias de lama e dezenas de árvores podiam ser vistas caídas como gigantes frondosos desmaiados. Contudo, o céu e a claridade da manhã do dia seguinte em nada denunciavam uma tempestade. José resistia em continuar dormindo.

“Mas hoje é sábado, mãe, não tenho aula hoje! Estou com sono!”

“Eu sei que hoje é sábado. Quero falar com você.”

“Que eu fiz dessa vez?”

Venezuela suspirou com demora e respondeu:

“Eu te proíbo de entrar no esgoto novamente, ouviu bem?”

“Por que?”

“Porque eu sou sua mãe e estou lhe dando uma ordem!” - Venezuela fechou o semblante do rosto. Embora estivesse brava, não resistiu ao próprio coração mole e o confortou logo em seguida. - “Tenho muito orgulho de você, meu filho, e respeito seu espírito de aventura, de coragem, nunca duvide disso, é que me faz muito mau ao se colocar em perigo. O esgoto é um lugar sujo, cheio de bicho e de coisa ruim, e você pode ficar doente. Só estou te pedindo isso, compreende o que peço?” - perguntou.

Como se não houvesse ouvido a pergunta, José se inclinou para o lado e enfiou a mão embaixo do travesseiro.

“Olha, eu achei essa moeda.”

“Uma moeda?” - Venezuela pegou a moeda e a analisou por alguns segundos. - “Onde a encontrou?” - quis saber já desconfiando da resposta.

“Encontrei no esgoto.”

“No esgoto?”

“Sim, e tem muito mais lá!”

E por que você presume isso com tanta certeza, José? Como pode saber que tem mais?”

“Mas eu sei que tem.”

No que respondeu, a ingenuidade fez brilhar os olhinhos negros de José.

“Claro que você sabe, como não poderia saber?” - Venezuela reagiu com ironia. E concluiu no mesmo instante. - “O tesouro que você procura existe afinal, não é mesmo? Eu é que teimo em dizer que não. Tudo faz sentido agora.”

José olhou para Venezuela com enorme felicidade ao ouvi-la reconhecer finalmente que o tesouro existia.

“Acredita em mim agora?” - perguntou.

Esperançoso, pegou a moeda de volta, porém, Venezuela fingiu não ter notado a felicidade repentina do filho e nem ouvido sua pergunta.

“Está vencida.” -disse.

“Que é que está vencida?”

“A moeda.”

“Vencida?”

Sim, José.” - Venezuela apontou para a moeda nas mãos do menino. - “A moeda que você encontrou no esgoto é antiga e está até enferrujada nas bordas, ou seja, não vale mais nada.”

Ao saírem do esgoto e voltarem para suas casas antes que se agravasse o temporal, os meninos haviam aceitado José como o guardião da moeda até que se reunissem de novo e decidissem o que fazer com ela.

“Tem certeza que ela não vale nada mesmo, mãe?” - perguntou, decepcionado.

“Tenho, José.” - Venezuela se levantou da cama, permitindo que o filho voltasse a dormir, mas não deixou o quarto antes de lhe dirigir a palavra uma última vez. - “Já ia me esquecendo o porquê de tê-lo acordado: está de castigo.” - disse. - “Não vai se encontrar com seus amigos por uma semana, me entendeu?”

“Está bem, mãe.” - José voltou a dormir.

O contrário do que se podia imaginar, José Estrada não ficou chateado com o castigo que recebeu. - “Eu não posso reclamar, não sei como mamãe não me proibiu antes.” - pensou. Teve plena consciência de que mereceu.


*****

Não havia um dia no qual José não se lembrasse de seu pai, Antônio José Estrada. Secretário de Obras da Prefeitura de Vitória, Tozé quase não parava em casa para desfrutar das companhias do menino e da esposa. Por dias e noites, em períodos que se seguiam, dedicava todo seu tempo ao trabalho e mal via o filho que jurava tanto querer bem. Era um pai ausente, um trabalhador que vivia sempre por nobres intenções, tentando fazer com que suas obras se tornassem verdadeiramente públicas. Foi quando o impensável aconteceu: abandonou a família e o emprego. Pôs três punhados de roupa em uma mala no que chegou em casa, em uma tarde de segunda, deu um beijo seco na testa do filho e encarou, por alguns míseros segundos, uma Venezuela que chorava copiosamente, e, ao atravessar a porta da sala, foi embora sem dar explicação.

“Se ele estivesse aqui, acreditaria que meu tesouro existe.” - José nunca perdeu a esperança de reencontrá-lo. - “Iria até procurar o tesouro comigo sem descanso; a gente não pararia por nada, não mesmo.” - não havia um só porquê de pensar o contrário.

De castigo, José Estrada afundou o rosto no travesseiro e dormiu mais um pouco.

Não reuniu os amigos naquela semana para procurarem o tesouro, cumprindo o castigo com absoluto sucesso, no entanto, a preocupação de Venezuela só se fez crescer. Na semana que se seguiu, em uma quinta-feira ensolarada, o primeiro morango foi avistado boiando nas águas da Baía de Vitória, nas proximidades da Terceira Ponte. José voltava da escola. Assim que abriu a porta da sala, ficou em silêncio ao ouvir Venezuela conversando com uma amiga na cozinha.

Que desgraça, que atrocidade!” - a amiga se mostrava horrorizada. - “Quem será que fez uma coisa dessas?”

Venezuela respondeu:

“Não faço ideia. Um louco, um desequilibrado, um psicopata talvez. Com certeza, só pode ser obra de um doente. Acha que ele mora no arquipélago?” - perguntou à amiga na sequência.

José grudou o corpo atrás de uma parede, ainda mais silencioso. Curioso, queria descobrir sobre o que elas falavam afinal. - “Que será que aconteceu?” - perguntava-se a todo momento. Continuou ouvindo.

Também não faço ideia” - a amiga respondeu. - “É possível que sim.”

Assim como havia chegado aos ouvidos de Venezuela, do pequeno José e da amiga, a notícia se espalhou com rapidez e não havia no arquipélago quem não soubesse do crime. O morango ainda boiando na baía, a multidão parecia se multiplicar sobre a ponte para vê-lo: um comportamento macabro, mas nada incomum às multidões.

“Ainda não sabem o nome da vítima.” - a amiga continuou. - “Um policial comunicou a uma repórter do noticiário das nove que ela tinha, provavelmente, mais de quarenta anos e que sofreu muito antes de morrer. Certamente, a polícia já deve estar investigando o que aconteceu.”

“Disse que sofreu muito?” - Venezuela não disfarçou a pena que sentiu do morango.

“Sim, disseram que a cabeça estava muito machucada. Por que está me perguntando isso?”

“Porque eu estou preocupada.”

“Preocupada com o que, exatamente?”

Conforme a conversa avançou, José grudou ainda mais a orelha na parede, se esforçando para ouvir absolutamente tudo que a mãe e sua amiga diziam. Foi então que Venezuela notou que não estavam mais sozinhas ao ver no chão, próxima da porta, a sombra do filho.

“Como foi o dia na escola?” - Venezuela o perguntou.

O menino permaneceu em silêncio.

Venezuela insistiu:

“Eu lhe fiz uma pergunta, José. Como foi o dia na escola?”

“Foi bom.” - José respondeu finalmente. - “Aprendi muita coisa nova. Estou ficando cada vez mais inteligente.”

“E tem lição de casa?”

“Aham, tenho uns problemas de matemática e tenho que escrever uma redação sobre a qualidade da água que a gente bebe.”

Nesse meio tempo, a amiga observava José como quem via muita graça no modo despojado como o pequeno se comportava.

“Como vai José?” - perguntou.

“Bem.”

“Vai bem mesmo?”

“Aham, e você?”

“Eu vou bem, obrigada por perguntar.” - a amiga agradeceu.

José se despediu das duas em seguida e foi direto para seu quarto, onde colocou a mochila encima da cama e livrou-se do uniforme sujo e suado para que Venezuela pudesse lavá-lo. Usaria no dia seguinte.

Novamente sozinhas, Venezuela perguntou à amiga:

“Onde a gente estava na conversa?”

“Você não me respondeu.” - a amiga voltou a se sentar em uma cadeira. - “Falou que estava preocupada mas não disse o porquê.”

Estou preocupada com tudo.” - Venezuela respondeu. E justificou a preocupação. - “A gente não sabe se o assassino que jogou aquela cabeça na baía, enquanto estiver a solta, vai continuar matando. Tenho um forte pressentimento que sim. Ele pode ser também um estuprador, um sequestrador, um maníaco ou sabe-se lá mais o que.” - em seguida, perguntou à amiga. - “Acha que não tenho razão de ficar preocupada?”

No que a indagou, Venezuela Estrada fez um longo silêncio.

Bom, pensando bem, tem razão de se preocupar.” - a amiga concordou. - “Não havia pensado pelo seu ponto de vista.”

Findada a conversa, a amiga se despediu de Venezuela e foi embora.



*****

De repente, ouviu-se uma voz chamar pela janela:
“José, você está aí?”

José reconheceu a voz no mesmo instante em que a ouviu. Era um de seus amigos exploradores de esgoto. Se levantou da cama, na qual havia se deitado para descansar um pouquinho, e foi até a janela, de onde viu que o amigo estava acompanhado dos demais exploradores de manilhas.

“Estou sim.” - José respondeu então. - “Que vocês querem?” - emendou.

Antes que o amigo tivesse tempo de responder, um outro perguntou de volta em tom de cobrança:

Por que você não procurou mais a gente?”

“Eu não pude, minha mãe me colocou de castigo.”

“Por que?” - outro menino quis saber.

“Porque a gente foi procurar o tesouro aquele dia e ela não gostou de eu ter ido. Brigou comigo.” - José encarou os amigos, entediado, deixando claro que não queria falar sobre o assunto. - “Que vocês querem afinal?” - repetiu a pergunta.

Sem cerimônia, os amigos disseram:

“A gente vai atrás do tesouro.”

“É isso aí, você não vem com a gente?”

“Anda logo que a gente está com pressa!”

Nesse meio tempo, na parte dos fundos da casa, Venezuela pendurava no varal o uniforme de escola de José e algumas outras peças de roupa para que pudessem secar.

Está bem, eu vou com vocês.”

Colocou uma perna para fora da janela, depois a outra e pulou no quintal o mais silencioso que pôde. Logo, não demorou para que aparentasse estar eufórico com o reinício da aventura: desceram as ladeiras do Morro do Cruzamento e já caminhavam pelo centro da cidade, em plena Avenida Vitória. Foi quando José Estrada surpreendeu os amigos ao revelar que, na verdade, não queria mais procurar o tesouro, mas, sim, encontrar o assassino do morango.

Por que?” - um dos amigos perguntou.

“Porque o nosso tesouro agora é outro.” - José respondeu. - “O assassino é o nosso novo baú cheio de ouro, um tesouro muito mais valioso.”

Os amigos se entreolharam, chocados, sem entenderem o que José queria dizer.

“Ficou maluco da cabeça?”

Não, não fiquei.” - José respondeu, inabalável. Seguro e convicto do seu novo objetivo, explicou o plano. - “Todo mundo está com medo do assassino e a polícia deve estar procurando ele dia e noite. Se a gente pegar ele antes, a gente vai ficar famoso no mundo inteiro e milionário de tanta recompensa que vai receber.”

Os amigos se entreolharam novamente. Interrogaram-no:

“E como é que a gente vai conseguir pegar o tal assassino?”

“É muito mais fácil ele cortar as nossas cabeças e jogar no mar também, assim como fez com aquele morango.”

“Essa sua ideia não tem o menor sentido, José, não tem mesmo!”

“A gente vai procurar o tesouro com ou sem você. E ponto final!”

José Estrada não se deixou abalar com a reação negativa dos amigos diante da sua ideia. Provocou-os:

“Está bem então, não precisam vir comigo se não querem.” - disse. - “Eu sei o porquê que não estão a fim de procurar o assassino: não querem por que estão com medo.”

As palavras de José soaram como ofensa aos ouvidos dos meninos. Reagiram com valentia:

“Que papo é esse de medo?”

“A gente não está como medo, não!”

“É isso aí, eu também não estou com medo!”

“Já que faz tanta questão, a gente vai procurá-lo com você, seu idiota!”

Começaram a procurar pelo assassino então. Não tinham ideia de como o encontrariam, o que não os fizeram desistir. Caminharam e caminharam; viram-se diante de prédios, casas e estabelecimentos comerciais; caminharam tanto que chegaram em uma praia isolada, na qual uma espessa neblina e um céu branco davam-lhe um aspecto agoniante, depressivo.

No que puseram os pés na areia, avistaram um pescador sair de dentro de um barco a remo. - “Já sei, ele pode ajudar a gente a capturar o assassino!” - José exclamou aos amigos que concordaram com a ideia. Foram até o homem.

Aonde estão indo, garotos?” - o pescador perguntou assim que os viu. - “Que fazem aqui?”

“A gente está em uma missão muito importante.” - José respondeu. - “Estamos procurando o assassino do morango encontrado na baía. Ele é um homem muito perigoso. Tome cuidado, senhor pirata!”

O homem, ao ouvir ser chamado de pirata, se conteve para não rir.

Acha mesmo que eu sou um pirata?” - perguntou.

“Claro que sim.” - disse, José, apontando para o barco. - “Você tem até um navio fantasma. É um pouco pequeno e diferente daqueles dos filmes que passam na TV mas é um navio fantasma. Eu sei que é.” - no que disse, olhou para os amigos que encaravam o homem com certa desconfiança. Não tinham a mesma certeza de que o pescador era, de fato, um pirata.

“E enquanto a vocês, garotos? Também acham que eu sou um pirata?”

Com medo, os meninos responderam:

“Sim, eu acho que sim.”

“Um pirata disfarçado de pessoa comum.”

“Talvez, a gente nunca viu um pirata antes.”

“Não está procurando o nosso tesouro, está?”

Definitivamente, aqueles meninos fantasiavam com tudo. Ao ouvirem um dos amigos perguntar se o homem estava interessado no tesouro que procuravam, se entreolharam com a preocupação de que o pescador quisesse roubar o tesouro.

Não, eu não estou.” - o homem respondeu então, tranquilizando-os. - “Sou um pirata muito rico que já encontrou muito mais tesouro do que precisava para poder viajar pelos mares do mundo, mas posso ajudá-los a encontrar o tesouro de vocês se quiserem. Que tipo de tesouro estão procurando?” - perguntou.

“Moedas de ouro. Um baú cheio delas.”

“Com barras de ouro também.”

“E relógios de pulso de ouro.”

“E medalhas de ouro que são melhores do que dinheiro.”

“E pedras de diamante.”

Contrariado com o rumo do falatório, José protestou:

Espera um pouco, senhor pirata, que não é bem por aí.” - disse. E o lembrou do que havia dito. - “A gente não está procurando nenhum ouro, não. Na verdade, a gente vai pegar o assassino do morango e receber muitas recompensas por causa disso. A gente vai ficar famoso e muito rico.”

Surpreendidos, os meninos olharam para José como que esperando que ele se desculpasse e voltasse atrás no que havia dito, o que não aconteceu. José estava decidido em encontrar o assassino do morango. O pescador, ao perceber o impasse formado, pôs fim na discussão e interveio, dizendo:

Não é preciso brigar, garotos. É simples: encontraremos o tesouro tão rápido que vai sobrar bastante tempo para pegar o assassino do morango. Mas, antes, vamos até a minha ilha que eu peço para os meus companheiros piratas ajudarem a gente. Eles são muito bons de encontrar tesouros e capturar inimigos.”

Um dos meninos perguntou:

“Conhece, de verdade, outros piratas, senhor pirata?”

“Claro que sim.” - o pescador assegurou. - “Como não os conheceria? Nós, piratas, vivemos em sociedade, estamos sempre viajando juntos.”

“E onde eles estão agora?” - José perguntou.

O homem pensou por alguns instantes antes de dizer:

“Como disse, estão na ilha. Querem conhecê-los?”

“Queremos!” - os meninos exclamaram ao mesmo tempo.


*****

Os meninos saltaram para dentro de um barco no qual quase não couberam sentados devido ao pouco espaço e puseram-se a remar em direção a ilha, ao encontro dos piratas. Remavam sem descanso, ansiosos por chegarem logo, e remavam sozinhos pois o pescador parecia muito mais ocupado em observar se eram seguidos por alguém. Quanto mais se distanciava da praia mais seu comportamento se revelou estranho em comparação com o de antes, quando conhecera os meninos.

Falta muito para a gente chegar, senhor pirata?” - com os braços doloridos de tanto remar, José perguntou.

Os meninos o encararam com atenção.

“Não, garoto.” - o pescador respondeu. - “Continue mexendo os braços. Quanto mais rápido você remar, mais cedo a gente chega na ilha e mais cedo vai conhecer os meus amigos piratas.”

Continuou remando então tal como os demais meninos.

Pouco menos de uma hora depois, tempo intermeado por curtos intervalos de pausa para que pudessem descansar, o homem avistou a ilha.

Bom trabalho, garotos, aquela é a ilha!” - parabenizou-os. - “Não desistam que é só mais algumas remadas e a gente chega!”

Desembarcaram em uma pequena faixa de areia.

José e os amigos, um metro à frente de onde estavam, avistaram dois morangos, ainda frescos, caídos na prainha.

“O assassino está na ilha, senhor pirata!” - um dos meninos exclamou, apreensivo. - “Que é que a gente faz agora?” - perguntou.

“Vamos até a cabana, garotos!” - no intuito de fazer com que os meninos se tranquilizassem, o homem se apressou em mobilizá-los. - “Lá, estaremos bem seguros e defendidos de qualquer um desses assassinos malvados!”

José e os meninos o seguiram de pronto. Se embrenharam em uma pequena selva só de coqueiros e continuaram andando, até que se depararam com a cabana.

Enfim, chegamos!” - o homem abriu a porta e os meninos entraram em um lugar precário, com todos os indícios de abandono.

“Mas onde estão os piratas que você disse que ficaram na ilha, senhor pirata?” - José perguntou, intrigado. - “Não estou vendo ninguém aqui.”

O homem respondeu com normalidade:

“Os piratas? Ah, sim, provavelmente, devem estar protegendo o tesouro ou me esperando voltar em alguma outra parte da ilha. Prometo que vamos descobrir aonde eles foram; isso não será um problema para nós.” - sem motivo nenhum, começou a ficar impaciente e rude com os meninos, pouco disponível à fantasia que ele próprio alimentara de ser um pirata. - “Fiquem aqui que eu já volto!” - mandou. - “Não façam nada que possam se arrepender depois!”

“Aonde você vai?” - José perguntou.

“Não é da sua conta, garoto.” - o homem abriu a porta e saiu da cabana, deixando-os sozinhos.

“Que a gente faz agora?” - um dos meninos perguntou para José.

José encarou o amigo e logo respondeu:

É óbvio o que a gente vai fazer: a gente vai esperar ele voltar.” - disse.

Os amigos o encaravam com a expressão de quem discordava frontalmente. Não estavam certos de que estariam seguros sozinhos, afinal, havia um assassino na ilha.

“Vocês são uns lerdos que ainda não entenderam!” - José explicou então. - “Está na cara que ele foi procurar os outros piratas para que possam ajudar a gente a capturar o assassino.”

Os meninos aceitaram a explicação. José, por sua vez, por mais que não transparecesse, começou a desconfiar de que algo não corria bem. Inquieto e curioso, procurou alguma coisa ao redor com que pudesse se distrair, passar o tempo, mas não havia nada por perto além de uma mesa velha e duas cadeiras colocadas ao longo de um atraente corredor escuro.

Aonde você vai, José?” - perguntou, um dos amigos, ao vê-lo de frente para o corredor, ameaçando entrar.

“Eu quero saber o que é que tem lá no fundo.” - disse, José. - “Vocês não estão com medo, estão?”

“Lógico que não, seu idiota!” - outro menino exclamou com a imediata concordância de todos. - “Pode ir se quiser, mas vai sozinho porque a gente vai esperar o pirata voltar, como ele mandou que a gente fizesse aliás.”

“Mas não demora, está bem?” - outro menino emendou.

“Pode deixar.” - José respondeu. - “Volto logo.”

Ao entrar no corredor, foi exatamente assim que José Estrada agiu: pôs-se a explorá-lo como se estivesse em uma das suas aventuras no esgoto. Passo por passo, não muito longe de onde havia deixado os amigos, deparou-se com uma porta encostada no final do corredor e, de pronto, a empurrou para que abrisse e pudesse ver o que tinha do outro lado.

Por um miserável instante, não conseguiu acreditar no que seus olhinhos enxergaram. Reencontrara seu pai e ele estava vivo, porém, não parecia estar nada bem. Sem forças, amarrado em uma cadeira, Tozé viu-se devastado ao rever o filho naquele lugar e presenciando aquelas condições em que ele atravessava.

“Papai?”

Fuja daqui, filho!”

“Por que, papai?”

“Fuja, José!”

Apavorado e sem entender o porquê, José voltou então correndo para perto dos amigos, só que já era tarde demais. O homem que havia fantasiado ser um pirata, com um machadinho nas mãos, admirava os novos morangos caídos aos seus pés.

Por que não diz um oi aos seus amiguinhos, garoto?”


FIM

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