domingo, 27 de novembro de 2016

Manifestos da Infância: Magricela, Revanche e os Meninos da Rua.


Dava dó ver o modo como a coitadinha era tratada quando eles se ajuntavam. Uns verdadeiros malvados: é isso sim! Mas, antes que tenham pena de Magricela, é bom que se ressalte que não eram propriamente cruéis, pelo contrário, tinham bondade no coração e não a machucavam. Tratavam-na somente como distração, um passatempo.

A coisa toda começava assim que Magricela via os meninos brincando na rua de paralelepípedos. A vira-lata não perdia tempo e corria para junto deles. Latindo e abanando um fiapo de rabo pendurado no traseirinho ossuda, ela invadia a roda e corria atrás da bola de futebol que os meninos chutavam de um lado para o outro, achando graça na situação. A bola, além de gasta, estava sempre suja de terra.

-Pega a bola, Magricela! - exclamou, um deles, prometendo logo em seguida. - Se você pegar, eu te dou um naco de carne.

Lógico que de tão fraquinha a pobre cadelinha nunca conseguia alcançar a bola. Mesmo se esforçando até faltar o ar, Magricela, se já não bastasse o fracasso de sempre perder para os meninos, continuava com fome. Parece que se contentava apenas em participar das brincadeiras, o que não era verdade. Estimava também a companhia dos meninos e queria ficar o maior tempo possível junto deles.

-Está com fome, Magricela? - outro menino perguntou certa vez que a viu correr atrás da bola.
O sujeitinho desacorçoado fez essa pergunta já sabendo a resposta.

Depois de muito fazerem a pobrezinha de boba, os meninos enfim lhe davam, como recompensa, um pedacinho de carne congelada que mal enchia uma pata. Uma miséria! Magricela mordia o pedacinho com sua boquinha minúscula, levando-o para o meio do mato, e ainda tinha que esperar, paciente, a carne descongelar para comer.

Meu Deus, como ela sofria!

Magricela penava muito!


* * * * *

Certo dia os meninos tiveram uma lição. Ao ver Magricela correndo atrás da bola feito doida, uma gata persa branca, que não era de brincadeira, invadiu a roda e pôs fim na zoação.

-Isso não tem graça nenhuma. - miou para os meninos.

A gata se chamava Revanche. Revanche era uma gata valente. Junto com a coitadinha da Magricela, não saiu do meio da roda.

-Dá o fora daqui, sua abobada! - reclamou, um dos meninos, irritado com a ousadia da gata. - Você está atrapalhando a brincadeira! - exclamou.

Em voz alta, um segundo menino emendou:

-O que será que ela quer?

Os meninos da rua não compreenderam porquê Revanche estava agindo daquela maneira. Nunca havia feito isso antes. Ficaram encarando, sem qualquer reação, a gata branca que não se mexia do lugar.

Magricela, ainda mais surpresa, ora olhava para Revanche como quem tentava entender os motivos para ela interromper a brincadeira, ora para os meninos que a essa altura do impasse já haviam esquecido completamente a roda e a bola.

-Não vai sair? - um terceiro menino perguntou.

Revanche, em resposta, miou baixinho:

-Não... não vou.

Diante da teimosice, os meninos começavam a perder a paciência.

-Vamos chutar a bola nela. - sugeriu, um deles, que completou. - Assim ela deixa de ser intrometida e vai embora.

Os outros concordaram, porém a ameaça não produziu resultado. Revanche permaneceu parada no meio da roda. Foi então que o menino apanhou a bola e recuou uma certa distância para chutá-la.

-Vou contar até três para você deixar a gente em paz. - avisou-a, em tom de ameaça. - Se não sair da roda, vai tomar um bolaço.

-Não tenho medo. - Revanche miou, destemidamente. - Ninguém me arranca daqui.

A valente gata persa continuou onde estava e o menino, assim sendo, não perdeu tempo. Contou até três, porém, antes mesmo que pusesse o pé na bola, Revanche mostrou ser muito mais rápida, saltando encima dele.

-Sai de cima de mim! - gritou, pulando que nem maluco para se livrar da gata.

O menino chutou a bola para cima e rodopiou várias vezes antes de finalmente conseguir se livrar da gata, que saltou no chão e saiu correndo para perto de Magricela. Os outros meninos dispararam no encalço do amigo; não olharam para trás; só exclamaram:

-Essa gata deve estar com o capeta no couro!

Em seguida, sozinha com Magricela, Revanche encarou a pobrezinha com enorme incredulidade.

-Você não pode deixar aqueles meninos bobocas te tratarem assim. - miou, a gata, em tom penoso e de crítica. - Onde está seu orgulho? - perguntou.

Magricela, envergonhada, nada respondeu. Não tinha o que responder. Sentindo-se triste, qualquer coisa que dissesse só aumentaria sua tristeza. Ela abaixou a cabeça, deu-lhe as costas e foi embora.

Era fácil para uma gata criada bem, de boa família, falar em orgulho. Revanche tinha ração fresca, banho morno toda a semana e uma casa quentinha para se proteger do frio. Não conhecia a dureza de viver nas ruas.


* * * * *

Os meninos voltaram a se reunir, mas jogar bola definitivamente parecia que não tinha a mesma graça. A rua andava bastante chata sem Magricela. Mal puseram a bola no chão para o começo da brincadeira e um dos meninos reclamou sua falta, perguntando aos amigos:

-Onde será que ela está?

Os meninos se entreolharam, deixando claro não entenderem sobre quem ele se referia.

Um deles perguntou:

-Quem?

-A Magricela. - o menino respondeu. - Até agora ela não apareceu para brincar com a gente; justo ela que sempre aparece e que vive atrás da gente.

-É verdade. - outro menino concordou. - Faz tempo que eu não a vejo. - afirmou. Depois reiterou a pergunta. - Onde será que ela está?

Convencidos de que Magricela não podia ficar fora da brincadeira os meninos então resolveram procurá-la. Havia um terreno abandonado no fim da rua. Foram direto para lá.

-A gente quer brincar com você! - gritou, um deles, assim que atravessou a cerca e entrou no terreno. - Magricela, aparece logo! - emendou.

-A gente te dá um pedaço bem grande de carne! - outro menino prometeu.

Olharam atentamente ao redor, porém nada encontraram naquele lugar, senão mato e umas árvores secas castigadas por uma cerca de arame farpado. A pobre Magricela sempre aparecia para jogar bola com eles que não entendiam porquê, naquele momento, estava sendo diferente.

-Será que ela está chateada com a gente? - perguntou, um menino que segurava a bola.

Ficou sem resposta.

Ansiosos por encontrá-la, continuaram a procura. Foram para o quarteirão do lado, onde havia um pequeno restaurante. Magricela muitas vezes, quando não brincava com os meninos, ficava deitada próximo da porta de entrada, esperando que os clientes lhe atirassem comida. Novamente não encontraram ao menos um sinal da presença dela.

Foi somente quando os meninos retornaram para a rua de paralelepípedos, cansados de tanta procura, é que avistaram a gata Revanche com um olhar triste, a cabeça abaixada e praticamente inerte na calçada.


* * * * *

Assim que se aproximaram da gata persa, um dos meninos perguntou:

-Por que você está triste?

Em resposta, Revanche miou baixinho, um miado incrivelmente triste que em nada lembrou a valentia de antes.

Lamentando-se, disse:

-É tudo minha culpa. Eu não deveria ter falado daquele jeito com ela. Não deveria tê-la tratado mal.

Com crescente estranheza e apreensão, os meninos prontamente a questionaram:

-Do que você está falando?

-O que foi que houve?

-Aconteceu alguma coisa?

-Fala logo o que você sabe!

Revanche levantou a cabeça, sem mostrar qualquer incômodo com o interrogatório, e olhou para os meninos.

-Não aconteceu nada comigo, eu estou bem. - tranquilizou-os. Tomando coragem, revelou. - Estou triste porquê ela foi atropelada.

Ao ouvir a revelação, um dos meninos imediatamente se apressou em perguntar:
-Quem é que foi atropelada?

-A pobre Magricela! - berrou, a gata, que, após um miado de agonia, explicou. - Eu mesma vi quando, ao atravessar a rua, uma bicicleta desalmada acertou a coitadinha em cheio.

A explicação fez-se tão enormemente sem sentido que os meninos da rua perguntaram quase ao mesmo tempo:

-A nossa Magricela foi atropelada?

-Sim, por uma bicicleta. - miou, Revanche, que voltou a lamentar. - Pobrezinha da Magricela, pobrezinha!

Para os meninos, ser atropelado por uma bicicleta não parecia ser algo tão grave assim. O acidente no máximo resultaria em alguns arranhões e esfoladuras, nada que não pudesse ser remediado. Não conseguiam ver sentido para a desmedida tristeza que a gata expressava.

-Onde ela está agora? - um deles perguntou.

Subitamente emudecida, Revanche os encarou com profunda consternação e logo em seguida voltou a abaixar a cabeça. Com isso, eles perceberam a gravidade do acidente e que Magricela havia ido para nunca mais voltar.

Um menino perguntou:

-Tem certeza que ela morreu?

Revanche limitou-se a acenar afirmativamente com a cabeça.

Os meninos da rua, que só viam graça em jogar bola na companhia da pobrezinha, abaixaram também a cabeça. Magricela era a única e melhor amiga que tinham. Com quem mais eles jogariam bola na rua?

-Ela era tão legal com a gente. - afirmou, um deles, aos amigos que no mesmo instante concordaram.


* * * * *

Mesmo entristecidos, a vontade de jogar bola foi tamanha que não demorou um dia sequer e os meninos já estavam reunidos na rua de novo. Ainda sentiam saudades de Magricela, mas também adoravam brincar de jogar bola.

Fizeram a roda que sempre faziam e começaram a chutá-la de um lado para o outro. Chutaram uma vez, duas vezes, três vezes. No quarto chute tiveram uma agradável surpresa: uma cadelinha cor de chocolate, tão magra e frágil quanto foi Magricela, parada num canto da rua, hesitava se aproximar. Um dos meninos, assim que a avistou, chamou a atenção dos amigos, apontando na direção da cadelinha.

-Como a gente vai chamá-la? - perguntou.

-Angélica. - respondeu, o amigo.

-Não. - antes que chutasse a bola, um menino rapidamente discordou. E sugeriu. - O nome dela pode ser Belinha.

-Não vai ser Angélica, nem Belinha. - divergiu, outro menino. - Que tal Magricela? - propôs.

Os amigos o encararam com certo estranhamento. Haviam perdido a amiga Magricela no acidente com a bicicleta. Imaginaram que só podia ter ficado louco em sugerir o nome da finada cadelinha.

Na dúvida, um deles perguntou de volta, só para confirmar se ouvira corretamente:

-Você disse Magricela?

-Sim. - ele confirmou. Sem compreender o porquê do estranhamento com o nome sugerido, justificou-se. - Ela se parece com a outra Magricela e pode ser a nossa nova amiga tranquilamente. O nome é uma homenagem.

Os meninos da rua se entreolharam, pensativos, mas não demoraram em aprovar a ideia de homenagear a amiga atropelada e não mais se ouviu qualquer objeção ao nome.

-Eu concordo. - disse, um deles.

-Eu também. - emendou, o outro.

-Também concordo. - um terceiro complementou. E concluiu. - Magricela certamente é um bom nome.

De fato, ambas as cadelinhas guardavam curiosas semelhanças. Tinham a mesma magreza, embora a magreza da primeira Magricela fosse um pouco mais ossuda, e tinham até a mesma cor, embora a original fosse um pouco mais escurinha. Eram incrivelmente semelhantes no olhar abandonado e no jeito perdido com que caminhavam.

Imediatamente após a escolha do nome, os meninos da rua voltaram a brincar. Já não mais pareciam ser tão malvados na zoação. Eles chamaram Magricela que, jubilosa, entrou no meio da roda e começou a correr atrás da bola.

-Pega a bola, Magricela! - incentivavam, os meninos.

A rua de paralelepípedos foi se enchendo de alegria ao tempo em que as duas, bola e Magricela, corriam de um lado para o outro, e corriam sem descanso.

FIM

domingo, 20 de novembro de 2016

Fragmento: Então S morreu.


No post anterior a este fiz uma crônica comunicando o câncer de S e sua luta resignada pela vida. Pois bem, muito mais breve do que imaginasse, S fez a passagem então.

Morreu conversando com sua esposa C, que, certamente, está devastada. C é um cristal frágil. De certo modo, me atrevo a dizer que sua vida dependia completamente da do marido, emocional e financeiramente.

S havia passado mal na madrugada de sexta para sábado e levado, desmaiado, ao hospital daqui da minha cidade, de onde foi transferido para um hospital universitário, em outro município.

Bom, foi para nunca mais retornar então.

Siga na Luz, S!

Força, C!

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

Crônica: O demônio dentro da gente.


Antes de tudo, vale a explicação de que tratarei o personagem desta crônica simplesmente por S. E faço isso não por desprezo ou desdém, mas por respeito a uma pessoa cuja minha relação nunca se aprofundou. Lamentavelmente por sinal.

S está morrendo. Percebo isso a olho nu porque, diagnosticado com câncer de esôfago, está cada vez mais magro, esquelético, o olhar opaco, como se, por dentro, não quisesse ou se resignasse em perder a vida. Será que é assim com todos que sabem que vão morrer? É assim com a maioria dos pacientes terminais?

S era daqueles fumantes que matavam um maço de cigarros todo dia, portanto, tem a sua parcela de responsabilidade com o que lhe acontece, o que não o transforma no vilão de si próprio, apenas um responsável por seu destino. S, nesse ponto, me incomoda profundamente pois me remete à minha mãe que também é fumante, e não menos assídua digamos assim. Fuma tanto quanto S fumava, e tão teimosa o quanto por não querer parar de fumar.

Acredito que todos temos um demônio dentro da gente. Entenda-se demônio como uma metáfora do mau. O demônio de S é seu câncer. O meu talvez ainda seja minha teimosia em achar que tudo tem jeito.

S está me ensinando com sua própria vida que não é bem assim. Não que seja importante para a plena compreensão dos fatos, mas S é casado com C, que está sofrendo muito com a possibilidade de perder o marido, e pai de dois filhos crescidos. Aliás, quem da sua família não estaria?

Meu pai Rubens, por exemplo, muio mais do que eu, está vivendo a jornada final de S bem de perto. Ontem, por duas vezes, levou-o ao hospital. S tem crises de dores pelo corpo. Ontem, as dores foram no braço. Dias atrás, vi S sentado no sofá da sua casa com o pescoço imobilizado; outro, reclamava de uma forte dor de cabeça.

Certamente, S merecerá uma ou mais crônicas neste blog até que o seu demônio o leve em definitivo. A morte de S, de certa forma, em algum grau além da minha compreensão, anuncia que também encontrarei com a minha.

Força, S!

terça-feira, 15 de novembro de 2016

Conto: TMM - O Cruel Destino de um Homem Bom.


A vida não andava boa para Timóteo Maria Melgaço, um homem bom, de passado sério, que vivia dentro dos conformes. Fiel cumpridor das leis e dos deveres, não fazia um mês que havia perdido a esposa, morta por câncer, andava preocupado com seu emprego devido a uma crise financeira que atingia em cheio a montadora de eletrodomésticos onde trabalhava. Mais da metade dos seus colegas de turno estava sendo dispensada.

Desde a sua fundação, trabalhava como encaixotador na montadora instalada em São Bernardo, cidade onde, antes da crise, de segunda a sábado, horário integral, pegava três conduções lotadas para que pudesse trabalhar. Timóteo vivia em um bairro humilde, de gente pobre, e tinha uma vida sem graça, quase xucra, porém honesta. Em seu íntimo, sentia que as duas décadas de absoluto sacrifício pelo sucesso da empresa já não pareciam mais um motivo razoável para que não fosse demitido e o resto não os importava simplesmente. - “Para quem é pobre, quando o bicho pega, a gratidão é a ingratidão de levar uma bicuda no traseiro e ser assim um dos convidados ao amargo gosto da lágrima de quem chora, impotente, o olho da rua.” - filosofava.

Em uma sexta, chegou na montadora para trabalhar e foi abordado por um dos colegas. Tenso, o colega comentou com Timóteo estar convencido de que todos do turno da manhã seriam finalmente despedidos no final do dia. Em tom de gravidade, o colega acusou a chefia de ter dito que outro colega disse, que ouviu de um dos supervisores, que estavam planejando uma injustiça maior do que a de serem somente demitidos: que não receberiam nem o salário daquele mês. O abalo ficou visível no rosto de Timóteo, que, pouco conseguindo disfarçar o que sentiu, andava pelos corredores com a cabeça baixa.

Pai de três filhos: Julienne Melgaço, de dezenove anos, ex-universitária, Felipe Maria Melgaço, um ano mais velho do que a irmã, desocupado, e Zlatan Inácio de Souza, o mais velho entre os três e o único que trabalhava. Seu trabalho era na mesma montadora em que trabalhava o honesto pai, por quem sentia grande orgulho. Era auxiliar de limpeza, faxineiro, e fazia questão de ajudar no sustento da família; quando recebia o salário, dava nos dias cinco dos meses metade dele para pagar as contas de casa e os outros cinquenta por cento eram divididos para si e para a pensão da filha crescida que havia tido com uma namoradinha de adolescência. Sua filha chamava-se Raquel. De vez em quando, Raquel visitava o pai, matando a saudade de Timóteo. - “Como vai, vovô?” - e era recebida calorosamente. Timóteo Maria Melgaço amava todos.

Veio o final da semana e Timóteo ainda estava empregado, bem como os colegas do departamento de encaixotamento.

Na segunda-feira, ao chegar na montadora para trabalhar, foi chamado à diretoria para conversar sobre sua situação na empresa. Certo de que finalmente seria demitido, Timóteo foi ao encontro dos diretores, se despedindo dos colegas que viu pelo caminho, nos corredores, mas, por obra e graça do Bom Senhor Que Não Desampara Ninguém, não foi bem isso o que aconteceu. Ao entrar na sala, deparou-se com apenas um dos diretores: Valdivino, que era seu chefe direto e o encarregado no planejamento de todo o setor de montagem. Valdivino pediu para que Timóteo, cristão de valor, se sentasse; Timóteo que, por sua vez, ouviu o impensável dele, uma proposta que recusou prontamente com uma pancada na mesa e que saiu da sala batendo a porta. - “Quê ideia mais absurda, minha filha não te ama!” - agora, não seria, ele, o demitido, pediria demissão de uma vez por todas e iria atrás de todos os seus direitos, sem a exceção de nenhum deles, e reclamaria Valdivino na Justiça por danos morais. Muito antes daquele dia, Timóteo já enxergava Valdivino como um homem arrogante e nunca chegou a admirá-lo. Tinha por ele uma conveniente tolerância que visava justamente manter o emprego que tanto dependia o sustento da família. A tolerância chegara ao fim.

O enfurecido encaixotador deixou a sala tão logo Valdivino foi correndo atrás dele e o obrigou a retornar para que pudessem conversar, agarrando-o pelo braço e o ameaçando com virulência, enquanto que os outros funcionários do setor assistiam a cena pasmados, fazendo aumentar a coisa toda, a indignação de Timóteo, sua inconformidade. Não obstante, com muita persistência, conseguiu-se o convencimento para o casório. Timóteo retornou à sala e Valdivino, então, refez a proposta, só que desta vez com menos precipitação, brusquidão, grosseria, reafirmando respeitosamente ao subordinado que garantiria o seu emprego com a condição de que Julienne se casasse com ele. Assegurou que a amava como nem um homem no mundo conseguiria amar uma mulher e que daria tudo do melhor para ela, coisa que Timóteo, se trabalhasse vinte e quatro horas por dias, sete dias por semana, a vida toda, nunca poderia dar. Timóteo Maria Melgaço ouviu ainda a promessa de que a filha seria tratada com carinho, dedicação, e que a pretendida teria tudo do bom que quisesse, no momento que desejasse. - “Tudo mesmo?” - o encaixotador acabou por aceitar a proposta porque, além da garantia verbal de que nada faltaria à filha, também precisava do emprego para sustentar os demais da família e manter assim a sua tão batalhada honra de homem provedor. Restaria-lhe apenas o milagre de fazer com que a filha aceitasse o arranjo.

Timóteo deixou a sala de Valdivino e voltou ao trabalho com um imenso alívio estampado no rosto, pois estava a salvo do que mais o vinha agoniando se cumprisse o combinado. Os colegas estranharam o alívio ao revê-lo, alguns presenciando a discussão inclusive, mas ninguém que chegasse perto de desconfiar da razão do alívio. - “Que foi que houve?” - perguntavam. No que Timóteo, por sua vez, respondia. - “Foi nada, apenas um mal entendido.”

De noite, ao chegar em casa, foi logo procurando a filha para ter a conversa. Nem Zlatan e nem Felipe estavam em casa. Após sair do trabalho, Zlatan foi visitar a filha, já Felipe jogava bola com uns amigos. Julienne, como fazia todos os dias nesse horário, encontrava-se na cozinha, onde terminava de aprontar o jantar. Avançava sete horas da noite. Amorosa, Julienne cumprimentou o pai assim que o viu entrar na cozinha. Timóteo deu beijo na testa da filha e perguntou como havia passado o dia. Julienne agradeceu e respondeu que tudo transcorrera nos conformes, na perfeição. - “Aconteceu alguma coisa, papai? Parece preocupado.” - Timóteo voltou a beijar-lhe a testa. - “Tudo na paz.” - não teve coragem de falar sobre a proposta de Valdivino. Jantaram, os dois, sozinhos, e tiveram uma hora bastante agradável. Após o jantar, Timóteo foi para o quarto, humilhado. Sentiu que deveria ter contado logo à filha o que se passara. - “Sou um desgraçado!” - se condenou.

Timóteo foi trabalhar no dia seguinte torcendo para que Valdivino tivesse esquecido o acordo, mas Valdivino, assim que os funcionários começaram a pegar no pesado, mandou chamá-lo à sua sala. - “Timóteo, falou com ela?” - o encaixotador de eletrodomésticos, meio sem jeito, respondeu que não. - “Por que?” - Timóteo alegou que não havia tido coragem. Valdivino, frente a isso, ofereceu-o uma segunda chance. - “Amo sua filha, Timóteo. Ainda quer manter o emprego?” - Timóteo Maria Melgaço, invés de responder com um mero sim, o agradeceu com um aperto de mão, deixou a sala e voltou ao trabalho.

De volta em casa, foi para a cozinha decidido a falar com a filha de uma vez por todas. Antes, enquanto retornava, aproveitou para estudar a melhor forma de contar à filha sobre Valdivino e concluiu com a que mais lhe pareceu inteligente: fosse verdadeiro, franco, não escondesse absolutamente nada. Disse primeiramente que trazia uma ótima notícia: a notícia de que ela tinha um admirador secreto, um pretendente que não imaginou existir. Julienne, sem saber o que responder e achando que o pai estava brincando ao fazer piada da sua solteirice, riu pedindo que ele deixasse de gozação. - “Estou sozinha, pai, mas o senhor sabe que é por opção.” - Timóteo, no entanto, não externou qualquer sinal de que brincava. Revelou em tom de voz sério que o tal admirador era o seu chefe, Valdivino, no qual ela havia visto somente em duas oportunidades: em uma festa de aniversário de um colega de Timóteo e em uma confraternização de fim de ano na montadora de eletrodomésticos, levada justamente pelo pai. Julienne achou a conversa um completo absurdo, um bestial despropósito. Não amava Valdivino e nem tampouco se lembrava de alguma vez ter transparecido coisa do tipo. Valdivino era boas décadas mais velho do que ela, aparentava ter a mesma idade do pai. Peremptoriamente, julgou que se esse casamento, por alguma desgraça, acontecesse contra sua vontade, já estava fadado a não frutificar por vício de origem. - “Por favor, minha filha, pense com carinho!” - tão ligeiro percebeu que a filha Julienne se mostraria irredutível na enfática recusa, Timóteo se ajoelhou no chão da cozinha, aos prantos, e implorou que aceitasse Valdivino como homem, garantindo assim seu emprego, por consequência, o sustento da família. - “Mas papai!” - Julienne acabou reconsiderando sua decisão. Nunca havia visto o pai tomado por tamanha angústia e desespero. Não apenas aceitou o casamento como casaria tão logo o pai escolhesse a data.
Julienne Melgaço e Valdivino se casaram passado pouco menos de um mês da proposta. Na cerimônia, estavam todos os poucos Melgaços da cidade de São Bernardo: Timóteo, a própria Julienne e os dois irmãos, Felipe e Zlatan, que, tanto um quanto o outro, viram Julienne se casar sem que soubessem do acordo do genro com o pai. Começaram a desconfiar que algo não se encaixava naquela repentina história de amor ao presenciarem em casa, intrigados, um momento de tristeza da irmã dias depois do casório. Depois, ouviram o pai agradecê-la de maneira fervorosa por um certo favor que ela prestara. - “Obrigado, minha filha, por aceitar Valdivino!” Obrigado mesmo!” - deu-se assim: Timóteo e Julienne conversavam na sala; os irmãos discutiam no quarto sobre coisas sem muita importância; Felipe e Zlatan, no que abriram a porta, curiosos, ficaram em silêncio, somente ouvindo a conversa, no entanto, mesmo assim, continuavam sem compreender que favor era esse que a irmã Julienne havia prestado ao pai. - “Que será que eles estão escondendo de nós?” - Zlatan não admitia tamanho segredo. - “Será que tem a ver com a gente?” - Felipe não ficou atrás.

Não passava uma semana sem que Valdivino e Julienne os visitassem.

Felipe e Zlatan continuaram investigando a história, atentos aos momentos em que o pai, a irmã e Valdivino ficavam juntos, assistindo televisão na sala, enquanto que Julienne se esforçava para parecerem um casal. Persistentes, não demorariam a descobrir a verdade pela boca de Julienne, que, colocada contra a parede pelos irmãos, revelou finalmente porquê se casara. - “Valdivino prometeu o emprego do nosso pai se me casasse com ele.” - disse.

Felipe, transtornado e furioso com a audácia do pai, fugiu de casa na mesma hora da descoberta, levando consigo apenas o desgosto que o consumia e a roupa do corpo. Felipe era sensível, sempre tivera uma forte admiração pelo pai honesto e trabalhador. Tornou-se morador de rua a partir de então, cidadão do mundo, mudando tanto de cidade em cidade que nunca mais voltou para casa. Zlatan, frio, ponderado e calculista, temperamento oposto ao do irmão emotivo, ainda no dia da descoberta, enquanto Felipe fugia de casa, pediu para Julienne que não contasse ao pai que o acordo do casamento já não era mais um segredo. Zlatan Inácio de Souza, com o argumento de que a família já estava sofrendo muito, a convenceu de que deixassem tudo como estava. - “Tem razão.” - Julienne Melgaço concordou.

Por dias, Zlatan agiu com o pai como se não soubesse do acordo. Seja no trabalho ou em casa, de frente para a televisão, tratou-o com cordialidade, muito mais atencioso do que costumava ser, até que, ao vislumbrar a oportunidade que julgou ser a melhor, o filho mais velho se vingaria da audácia do pai. Antes disso, havia cogitado matá-lo preparando-o uma caneca bem cheia de café com leite que envenenara com soda e uma colher de vidro moído, mas, ainda assim, seria pouco. No último segundo de oferecê-lo, Zlatan deixou a caneca cair encima da cama, recuando de matá-lo por aquela vez.

A vingança definitiva veio absoluta depois de um dia exaustivo de trabalho, quando tramou uma emboscada em uma pracinha mal iluminada, um pouco longe da empresa, mas que Timóteo a conhecia. Zlatan disse, por telefone, que precisava falar pessoalmente com ele o mais rápido possível, que havia reencontrado Felipe e que a vida dos dois corriam perigo. - “Ele está aqui comigo, pai. Ele está muito ferido, precisa vê-lo.” - Timóteo saiu da empresa e foi correndo até eles. Transcorrido bem menos de uma hora, Timóteo Maria Melgaço já se encontrava, esbaforido, diante do filho mais velho. Foi logo perguntando onde estava Felipe que não o via, entretanto, Zlatan, irreconhecível, nada respondeu. Sacou um revólver que escondia nas costas com uma das mãos e enterrou cinco balas na barriga de um Timóteo que ainda teve tempo de encará-lo nos olhos, com um semblante esvaziado, antes de respirar pela última vez. Tal frieza não fosse suficiente, a ira de Zlatan fez-se tamanha que prosseguiu acrescentando crueldade onde sobrava o ódio. Catou um facão que havia jogado atrás de um dos bancos da pracinha, decapitou o corpo tombado do pai e levou a cabeça para casa, dentro de um saco plástico de supermercado.

Deu-lhe um destino diabólico no dia seguinte, no que acordou com o olhar avermelhado, fúnebre. Zlatan ajeitou a cabeça em uma caixa de madeira, cuja metade forrou com uma mistura generosa de cal e mato, e a levou para o trabalho, onde, assim que chegou na montadora, cumprimentou os colegas de turno e se dirigiu até a sala do genro. Não o viu recostado folgadamente em sua cadeira de couro como geralmente ficava, nem em parte alguma da sala; não havia ninguém ali além de Zlatan e o presente na caixa de madeira. Colocou a caixa encima da mesa, saiu da sala e voltou para junto dos colegas, onde, tranquilo, pôs-se a trabalhar como se nada importante houvesse acontecido.

Valdivino nunca pôde mensurar o susto que tomou quando adentrou a sala e abriu a caixa. A cabeça ainda pingava sangue.


FIM.

segunda-feira, 14 de novembro de 2016

Conto: A Coincidência U.


Com o Sol forte raiando sobre a laje, Uelinton destapou a frente do barraco, saindo para trabalhar, e viu uma galinha morta, a cabeça depenada, na beirada de um córrego que passava rente às tábuas. Ao lado da galinha, havia um pires de milho: trabalho brabo de macumba. Para o próprio desgosto, Uelinton acreditava em quase tudo que não tinha explicação racional, argumentada.

-Valha-me, Deus, que coisa ruim não pega em mim! - benzeu-se e foi trabalhar.

Era um moço avoado que se retirou do sertão em busca de sustento, que sempre viveu de bicos, que não veio retirado da seca sozinho, que não vivia de bicos sozinho para ter do que comer. Retirou-se do sertão com o gêmeo chamado Uilson, que, por sua vez, não levava uma vida muito diferente da do irmão. Os dois começando na vida, meninos ainda verdes de tudo, eram gozação da jagunçada. Uma década e meia depois, homens crescidos, aprenderam a se defender.

-Ei, seus jagunços boiolas que não montam direito nem em cachorro, venham nos pegar filhos de rapariga! - zoavam e depois corriam.

Apesar de tudo, mereciam ser considerados sujeitos de alguma sorte. Após adaptarem-se com a vida no Rio, Uelinton e Uilson viviam juntos em um barraco que, de tão no limite da favela, no alto do morro, como que lentamente, o improviso parecia ser expulso para fora da comunidade e dentro da cidade, mesmo que pendurado no morro feito brinco de tábua, suspenso no ar sobre uma estrada federal. Roupas, alimentação, transporte: dividiam as poucas despesas que podiam arcar, mas, ainda assim, tinham que dar duro com o que faltava. Um irmão se fazia gostável pelo outro, não se desgrudavam, afinal, eram a única família que tinham fora do sertão.

Na favela, sempre que passava um caminhão na estrada, aquelas carretas carregadas com tudo de mais pesado, o barraco ameaçava despencar do morro, mas só ameaçava pois nunca se moveu um milímetro; e olha que não eram poucas as vezes que as carretas passavam carregadas com tudo! Deus o segurava pela fé. - Por pior que esteja, botei reparou que uma coisa é certa com a gente, maninho: no final, Cristo sempre ajuda. - Uilson constatou certa vez ao irmão, que, próximo a eleição na cidade, foi abordado por um conhecido da favela que se candidatara a vereador. - Se me der o seu voto e o de seu irmão, arranjo um emprego para você na câmara e um outro na prefeitura para ele. - prometeu, o candidato, que não se elegeu e que nunca soube se não havia tido nome suficientemente lembrado para ser eleito ou se os irmãos, bem como o restante da favela, não foram fiel como haviam apalavrado ser. A verdade é que Uelinton, como havia se comprometido, votara no vereador, já Uilson não tinha o temperamento dos que se contentavam com a caridade corrupta de terceiros e sequer foi votar. - Prefiro ralar. - justificou. Enquanto o irmão sonhava com a estabilidade de um emprego público, dos com salário todo fim de mês pingando na mão, Uilson passava o dia todo catando latinhas para vender no ferro-velho.

Uma semana antes da semana do Natal, Uelinton e Uilson conheceram duas irmãs que também eram gêmeas: chamavam-se Paula e Patrícia respectivamente. Paula e Patrícia, chegadas na favela havia completado um mês, moravam com o pai surdo-mudo, querido por todos.

-Como vai, Seu Clodinho? - a vizinhança o cumprimentava.

-Uio êm, obiao! - Seu Clodinho agradecia.

A vida tem dessas coisas, alguém poderia dizer. O fato é que Uelinton começou então a namorar com Paula e Uilson apaixonou-se por Patrícia; e não se desgrudavam um só instante. Paula e Patrícia pediam a benção ao pai, deixando-o sozinho, e iam a noite para o barraco de Uelinton e Uilson para vê-los. Nos primeiros dias do namoro, se encontravam geralmente no meio da manhã e no fim da tarde; e não eram raras as vezes que os quatro ficavam juntos, em conchinhas de dois, no mesmo colchão. E foi assim por um tempo proveitoso quando tiveram as primeiras brigas: intriguinhas de bobo! Em todas elas, Uelinton, Uilson, Paula e Patrícia discutiram por motivos mais do que despropositados em comparação com a determinação de ficarem juntos: Uelinton começou a demonstrar ciúmes de Paula ao perceber que ela era excessivamente simpática com Uilson, que, por sua vez, externou ciúmes de Patrícia, que se mostrava cada vez mais carinhosa com Uelinton, esse, se achando o “Racional do Mundo”, o “Mestre dos Improvisos”. Mas nunca foi além desse tanto: que brigassem e passassem alguns dias sem se falar, logo depois, voltavam a namorar.

Certa ocasião, Uelinton presenteou Paula com um cachorrinho que resgatou, desorientado no acostamento de outra estrada que passava no outro lado da favela, e Patrícia, quase que simultaneamente, também fora presenteada por Uilson: ganhou um gatinho varado de fome que Uilson havia recebido das mãos de uma vizinha de barraco que trabalhava como doméstica; gatinho, esse, que a vizinha havia sido presenteado pela patroa, por sua vez, também presenteada pelo filho mais velho, criado por uma tia fazendeira do Mato Grosso. Não era apenas um, a vizinha ganhara da patroa uma ninhada de cinco gatinhos, na qual, para a tristeza de todos, um veio a morrer minutos depois que nasceu. - Teve até cortejo, com um funeral de gato, com direito a padre e tudo. - Uilson contou à namorada.

Uilson também gostava de ler. Um de seus passatempos favoritos nas poucas vezes que tinha tempo, além de estar junto com Patrícia, era visitar uma biblioteca comunitária que os próprios moradores da favela haviam montado em um barraco mais ajeitado e, por lá, ficar foleando livros, descobrindo as histórias que lhe despertassem uma genuína e interessada vontade de ler, daquelas vontades que a gente não aguenta enquanto não alcança o último ponto final. Preferia quase sempre histórias de detetive e biografias.

Já Uelinton guardava em sua memória um grande sonho: queria ser um profissional do futebol. Na infância, não muito diferente de qualquer outro dos jogadores bons de bola pobres do sertão, passava dias e tardes no chuta-chuta com os amigos e já se via, presunçoso, estourando em um clube do sudeste, exatamente como um daqueles famosões de carro importado que aparentam nunca terem problemas na vida. Jovem, tentou várias vezes realizar seu sonho: com a ajuda de um padrinho, participou de peneiras em praticamente todos os grandes clubes, porém, sem muito talento, destinou-se a uma vida frustrada e não foi aprovado em nenhum; cogitou até se inscrever em outros clubes de menor importância de outros estados que não os do sudeste, mas, sem padrinho e dinheiro para o transporte, viu-se impedido de continuar tentando e desistiu do sonho por fim. Se jogasse futebol, agora trintão, seria somente por divertimento, e só.

Nada na vida é tão bom ou ruim que não possa melhorar ou piorar.

Com a chegada da primavera do ano que se seguiu, Uelinton rompeu o namoro com Paula, seguido por Uilson, que rompeu o relacionamento que tinha com Patrícia. Cansaram-se, os quatro, do convívio de um com o outro, e, na semana seguinte aos términos, Uelinton e Uilson decidiram dar um fim à dureza e à dificuldade que levavam, tomando a corajosa decisão de prosperarem na vida. De centavo a centavo, haviam conseguido acumular umas economias. Compraram uma combi velha que usariam para vender brigadeiro na favela, daqueles tão bons que só se acham nas melhores padarias. Uilson foi até a biblioteca, onde procurou um livro que tivesse receitas de doce e encontrou um, de poucas páginas, com várias receitas com chocolate, brigadeiros inclusive. Conseguiram receita de brigadeiro com canela, com menta, com morango, com laranja e até salgado. - Que criança vai gostar de um brigadeiro de feijão recheado com peito de frango? - descartaram a receita logo de cara. Uilson pegou o livro e, no mesmo dia, meteram a mão no chocolate. Foi um sucesso como poucos: de real a real, levantaram um casão na favela em pouco tempo.

Uelinton e Uilson se reconciliaram com Paula e Patrícia.


FIM.

sexta-feira, 11 de novembro de 2016

Conto: Isaurinha e Seu Fernando.


Com a certeza de que Seu Fernando levantaria faminto, Isaurinha já havia se levantado para ferver o café. E assou bolo de milho, pão salgado e fez uma jarra de suco com doze laranjas que pedira para Seu Fernando comprar pessoalmente, no dia anterior, no mercadinho do bairro. Do amor que expressavam um pelo outro não se via igual.

Após tomarem o café, Isaurinha e Seu Fernando teriam um dia cheio. Tanto a velha quanto ele, aposentados, ainda davam duro trabalhando dentro e fora de casa. Isaurinha, para complementar a renda, minuciosa com as mãos, fazia bonecas de porcelana, que, junto com o esposo, vendia aos finais de semana, em uma feirinha de artesanato. E enquanto as fazia, Seu Fernando cuidava dos serviços da casa: varria o chão, lavava e passava a roupa, montava no fogão para cozer o almoço, a janta, recolhia o lixo da cozinha e dos dois banheiros do sobrado alugado, e, como se ainda lhe sobrasse o tempo de uma vida inteira, roçava a grama do jardim, religiosamente, uma vez por semana. Reunia disposição para todas essas tarefas porque se sentia envaidecido como homem e não queria cansar Isaurinha. Era um casamento de décadas, daqueles amores que só cresciam.

Sábado. Isaurinha e Seu Fernando vendiam as bonecas, na praça, na feirinha de artesanato. Grupos de meninas se reuniram em frente a barraca tão encantadas com a mercadoria que sequer piscavam ou fechavam a boca. Puxavam as saias de suas mães, as calças jeans de seus pais que haviam acabado de sair do trabalho e pediam para que eles as comprassem não apenas uma mas todas que apontavam com seus dedinhos miúdos. E quando finalmente compravam uma ou duas explodiam de alegria.

-Você quer uma dessas bonequinhas, minha filha?

-Sim, papai.

-Ótimo então! Qual você quer? Pode escolher.

-Quero todas, papai.

Mesmo sob reclamação, um dos pais não comprou todas que a filha quis, mas comprou logo as cinco mais trabalhadas que Isaurinha havia atravessado a sexta-feira fazendo. Além das que vendeu, levara outras quarenta e cinco de diversos preços.

Seu Fernando não era menos carinhoso no momento da venda. Atendia os clientes com dedicação e entregava as bonecas que a velha amada costurara como se fossem filhas, filhas que nunca tiveram, e ainda pedia à meninada, com voz doce, que cuidassem delas de forma igual.

-Aqui está a sua filhinha. - dizia. - Cuide dela com muito amor.

Certa vez, permaneceram na feirinha até o meio da tarde, quando já havia passado um pouco o horário do almoço. Antes que recolhessem as bonecas dentro de uma mala para retornarem para casa, Isaurinha se deparou com uma menina mal vestida, acompanhada por um senhor que aparentava ser seu avô, se aproximando da barraca e olhando-as hipnotizadamente. Então, perguntou se ela havia gostado de alguma delas, se as achava bonitas.

-Sim. Sim. Sim. Elas são muito charmosinhas. - respondeu, a menina mal vestida.

Cheia de compaixão, Isaurinha a presenteou com uma das bonecas que haviam sobrado das vendas. Primeiro, disse à menina que apontasse a que mais achava bonita, porém, ao ver sua vergonha em escolher uma, não hesitou e ofereceu-lhe a mais graciosa, que era também a mais cara.

-Promete que vai cuidar dessa charmosinha com muito amor e carinho, minha querida?

-Sim. Sim. Sim.

O senhor que acompanhava a menina, enormemente agradecido pela bondade de Isaurinha pois não poderia comprar uma daquelas bonecas artesanais, se ajoelhou diante do casal e começou a chorar.

-Por quê está chorando, meu bom amigo? - Seu Fernando perguntou.

-Por que vocês foram muito bondosos. Eu e minha neta não estamos acostumados a ter um tratamento assim.

-Não estão? - Seu Fernando o encarou com otimismo. - Se acostumem então porquê os bons, mesmo em tempos sombrios, foram e sempre serão a maioria.

Assim sendo, o senhor agradeceu ao casal e foi embora de mãos dadas com a menina mal vestida, que, feliz, abraçava calorosamente a boneca que havia ganhado.

Logo em seguida, Isaurinha e Seu Fernando recolheram as bonecas dentro da mala e foram embora para casa, onde ainda teriam muito trabalho naquele dia. No que se preparavam para deixar a feira, Isaurinha avistou uma aranha armadeira sobre as pétalas amarelas de uma delicada flor. Recolheu a aranha dentro da cabeça que havia se desprendido do corpo de uma das bonecas.

-Podemos cuidar dela, querido? - perguntou segurando a cabeça de porcelana com a aranha dentro.

-Claro, minha vida, como quiser.

Tratavam-na como um animal de estimação. Nos primeiros dois dias, Seu Fernando arrumou um vaso de flores vazio para que Isaurinha forrasse o fundo com algumas folhas e gravetos, fazendo o vaso de casa para a aranha. Zelosa, colocou até mesmo uma tampinha que enchia de água caso a mesma sentisse sede e insetos caso tivesse fome, preguiça de caçá-los.

Isaurinha a mimava. Conforme os dias passaram, as horas transcorreram, a aranha, então, revelou-se única, foi se desenvolvendo e crescendo muito acima do imaginável. Já não vivia mais no vaso, circulava por todos os cômodos do sobrado. A criatura, para a graça de todos que a viam fazendo companhia ao casal, ganhara o tamanho de um cachorro da altura dos joelhos de Isaurinha.

Isaurinha batizara a mutante com o nome Vitória. Achava propício esse nome.

-Quer dar uma voltinha pelo bairro, Vitória?

-Não deve ser isso, minha vida. Não. Não. Já sei que é! Vitória está com fome. Vou lá fora caçar mais insetos e já volto. - Seu Fernando voltava sempre com um pote cheio de mariposas e borboletas que capturava ora na praça, ora em uma mata próxima do sobrado onde moravam.

Assim era a rotina da aranha: depois de alimentada, levavam-na para passear e a apresentavam com todo orgulho para os amigos, vizinhos e desconhecidos que não se mostravam menos carinhosos em vê-la. Diziam, o casal: Chama-se Vitória. Ela é muito querida. Cresceu de amor.

Foi então que certo dia, quando a vida corria normalmente, a rotina fluindo, o céu cobriu-se de cinza e uma chuva forte lavou a cidade durante a tarde, a noite e boa parte do dia que se seguiu. Não havia ninguém que não tivesse a vida sido afetada pelo temporal ou que não conhecesse alguma pessoa igualmente prejudicada. Assim que a chuva começou, um cão rotweiler, fugindo do aguaceiro, se abrigou na varanda do sobrado e latiu com medo dos sucessivos trovões, como quem pede para entrar. Isaurinha e Seu Fernando, ao ouvir os latidos, solidários, abriram a porta rapidamente para que entrasse e se abrigasse da chuva.

Adotaram o cão rotweiler. Seu Fernando o batizou com o nome Gilbert. Gilbert e a aranha Vitória tornaram-se tão amigos e leais um para com o outro que não se desgrudaram um segundo desde então.

Mais um sábado, Isaurinha e Seu Fernando arrumavam as últimas bonecas dentro de duas malas para vendê-las na feirinha de artesanato da praça. -Gilbert e Vitória, vocês querem ir com a gente? - Seu Fernando perguntou aos dois que já os esperavam, ansiosos, na porta do sobrado. -Claro que querem, papai. - Isaurinha respondeu por eles. Brincou. - A gente quer muito, não é mesmo crianças? - não queriam deixá-los em casa, desprotegidos e sem companhia; Gilbert e Vitória, então, foram juntos com o casal.

Logo que chegaram na praça, enquanto o casal ajeitava as bonecas de porcelana na barraca, o cão e a aranha mutante se juntaram aos pés de uma árvore, quietinhos para que assim não distraíssem os clientes e não atrapalhassem as vendas. E por mais que a lógica dissesse o contrário, nem de longe atrapalharam as vendas pois não espantavam ou distraíam os clientes, Gilbert e Vitória pareciam funcionar como atrativos para que a meninada se aproximasse e se interessasse pelas bonecas. As vendas se mostrariam um sucesso maior do que a semana anterior. Tão prontamente a meninada se aproximava, Isaurinha era carinhosa com todas e também com aquelas que já se apresentavam dizendo só estarem admirando-as. Seria assim na semana seguinte da venda seguinte, com Gilbert e Vitória aos pés da árvore, enquanto vendiam todas as bonecas que haviam levado à feira.

E em uma dessas vezes em que atenderam a meninada uma em especial se aproximou então da bondosa Isaurinha e do generoso Seu Fernando.

-A senhora se lembra de mim? - perguntou.

Isaurinha, mesmo com uma ligeira suspeita de conhecê-la, não se lembrou. A menina mesmo é que respondeu a própria pergunta:

-A senhora me deu uma boneca de presente quando eu estava junto com o meu vovô. Se lembra de mim agora?

-Sim, agora me lembro. Mas onde está o seu vovô? Está sozinha?

-Meu vovô morreu, mas não estou sozinha porque ganhei uma mamãe.

Seu Fernando, no que a ouviu, comemorou:

-Que bom saber disso!

-Sim, ganhei uma mamãe de coração. É assim que eu chamo ela. E ela também é muito rica.

A menina, de forma resumida, contou em seguida o que se sucedeu em sua vida nos últimos dois meses. Disse que seu avô havia morrido e que fora levada a um orfanato, onde, poucos dias depois, foi adotada.

-Eu quero dar um presente para a senhora. - ofereceu uma bonequinha de ouro cravejada de diamantes e outras pedras preciosas. - Por favor, aceite.

-É muito valiosa. Não posso aceitar. - Isaurinha recusou.

-Insisto que aceite. - emendou, a menina. - A senhora foi muito boa comigo. Foi mamãe quem sugeriu que eu lhe desse esse presente. A senhora merece.

Assim sendo, ao lado de Seu Fernando, Isaurinha aceitou o presente. A menina sabia que a joia seria uma inequívoca ajuda financeira ao casal. Ao deixar a praça, despediu-se ainda de Vitória e do rotweiler Gilbert, que a observavam com ternura aos pés de uma das árvores da praça. Todos os personagens, às suas estranhezas, guardavam preciosas semelhanças.



FIM.

quinta-feira, 10 de novembro de 2016

Conto: Sacha e Peter, um Beijo de Pizza.


Integrados em harmonia com seus destinos, Sacha e Peter, por serem tão diferentes, tinham muito em comum. Não por outros motivos que Sacha era dançarino de uma companhia municipal e Peter, um entregador de pizza. A vida de um ao outro se entrelaçaria.

Não se conheciam até a noite em que Sacha, faminto, ligou para a pizzaria onde Peter trabalhava. Logo que o viu entrar pela porta com a caixa de pizza apoiada na palma mão, as pernas de Sacha ficaram fracas e as mãos trêmulas. Nunca havia sentido nada tão forte por um homem antes, nada que o congelasse de maneira tão estúpida como a que acontecia naquele momento. Peter, além de belo, transpirava masculinidade. Sacha pediu para que Peter colocasse a caixa encima da mesa e perguntou quanto custava. Sabia perfeitamente o preço, pois havia se informado no momento em que a pediu, queria ouvi-lo falar. Peter logo percebeu a atração que criou em Sacha e não a repeliu. Também sentiu-se atraído pelo dançarino. No momento em que recebeu o dinheiro, o entregador de pizza segurou sua mão e o beijou com força. Transaram ali mesmo, no sofá da sala, e comeram metade da pizza.

Ao retornar para o trabalho, levou uma sonora bronca de Fabrício pela demora. Dono da pizzaria, advertiu que se ele chegasse mais uma vez tão tarde após uma entrega seria demitido sem compaixão ou piedade. Depois da bronca, perguntou qual era o motivo de ter demorado. - Não conseguia encontrar a rua, por isso é que me atrasei tanto. - Peter respondeu com a mentira mais deslavada. Fabrício acreditou na mentira.

A companhia na qual Sacha dançava realizava apresentações toda semana. Eram horas exaustivas que atravessavam dias de ensaios e Sacha, talentoso e focado, conseguia os papéis mais importantes quase sempre, quando não o personagem principal das apresentações. Já Peter vivia sobre duas rodas. Usava sua motocicleta para trabalhar e para ir aonde a precisão o levasse. Nem bem o dia clareava, corria para o supletivo e depois voltava para casa, tomava um banho rápido, comia alguma sobra da geladeira e, às três da tarde, ia voando para a pizzaria. À noite, mesmo cansado, antes de conhecer Sacha, Peter ainda reunia disposição para visitar uma boate e, lá, curtir a vida na azaração. Trabalhava muito sim, mas sabia ser um “bon vinvant”.

Certa noite, invés de sair da pizzaria e voltar direto para a casa como sempre fazia, Peter resolveu visitar Sacha. Não o havia visto desde a vez em que se conheceram. Ao entrar no estacionamento do prédio, abriu a porta do elevador para subir até o apartamento, mas desistiu no meio do caminho. Amava-o verdadeiramente e ficou com medo de que não fosse bem recebido se chegasse em sua casa de surpresa. Peter decidiu então ir embora para a casa. Aquela não estava sendo uma boa noite; nem bem avançou três quarteirões, se desequilibrou e caiu da moto, quebrando a perna. Com a perna engessada, ficou impossibilitado de sair de casa para poder trabalhar até que se livrasse do gesso, que levaria semanas.

Só pensava em Sacha, que, assim como Peter, não conseguia esquecer a noite em que haviam se conhecido. Pensou em ir à pizzaria para vê-lo, mas também ficou com medo de que não fosse bem recebido se aparecesse de surpresa. Certa tarde, após sair de uma sessão de ensaios da companhia, Sacha tomou coragem, entrou em um ônibus e seguiu para a pizzaria, já não aguentando mais a angústia que era estar longe de Peter, mas não o encontrou. Peter ainda se recuperava da queda.

A procura de Sacha por Peter na pizzaria despertou curiosidade em Fabrício, que, ao ouvir Sacha definir-se como um amigo e um alguém no qual Peter guardava um sentimento especial, desconfiou da amizade dos dois. - Não pode ser só isso. - pensou. Quando, passado um tempo, Peter reapareceu para trabalhar, Fabrício o perguntou se Sacha era parente, amigo ou algum conhecido, não suspeitando ainda que os dois tivessem um caso, necessariamente. Queria saber a respeito de todas as pessoas que rondavam a vida de seu entregador de pizza mais comprometido com o trabalho. Mais velho, experiente e divorciado de sua terceira esposa, Fabrício tinha todos seus funcionários como filhos e membros de sua própria família. Peter respondeu que eram amigos, que o havia conhecido recentemente. Por fim, ele agradeceu a preocupação do chefe em relação à sua vida, mudando de assunto. Era tudo que ele desejava ouvir.

Com a desculpa de que tinha um compromisso urgentíssimo que só naquele momento é que havia se lembrado, Peter pediu para Fabrício que lhe desse só mais aquela tarde de folga e arrancou com a moto ao encontro de Sacha. Deixou a moto na última vaga do estacionamento e subiu até o apartamento em que Sacha morava. Sabia o andar de cabeça, mas, ao bater à porta, ninguém atendia. Sacha não estava em casa. As sessões de ensaios da companhia andavam cada vez mais longas e exaustivas. Decidiu então esperá-lo no estacionamento. Permaneceu noite adentro, sentado em sua moto, até que viu Sacha sair do banco do carona de um carro dirigido por uma amiga que também era sua vizinha de prédio. Surpreso por reencontrar Peter ali, naquele estacionamento, Sacha perguntou se queria subir para conversarem. Peter aceitou o convite no mesmo instante. Ao entrarem no apartamento, mal fecharam a porta e os dois mataram a saudade. Em meio aos beijos, mordidinhas e apertões, transaram e dormiram juntos, grudados em uma cama de solteiro.

Pela manhã, Sacha se encarregou de preparar o café de Peter, que acordou com uma farta bandeja ao lado da cama. Depois do café, voltaram a transar. Sacha, não muito depois que transaram, percebeu que estava atrasado para as sessões de ensaios que teria naquele dia, deu um salto para fora da cama e correu para o banheiro, onde tomou um banho rápido. Foi aí que teve então a primeira demonstração de ciúme de Peter. - Quero que prometa, agora mesmo, que nunca vai me trair. - ainda no chuveiro, abraçando-o com vigor, o entregador de pizza o fez prometer que nunca o trocaria por nenhum dos dançarinos da companhia, que seria absolutamente fiel. Sacha prometeu-lhe fidelidade, não conseguindo disfarçar o enorme orgulho e a satisfação em testemunhar que Peter, em tão pouco tempo, já sentia ciúme dele.

Peter seguiu para o supletivo e Sacha dirigiu-se à companhia para ensaiar.

No que se reencontraram, no apartamento, na noite que se seguiu, Sacha o convidou para assistir uma apresentação de dança da companhia e, assim, pela primeira vez, vê-lo dançar. Peter aceitou o convite e, em comemoração, transaram pela quarta vez.

A apresentação foi realizada em um sábado quente, no período das férias. Ao entrar na sala do teatro, Peter caçou um lugar nas primeiras fileiras e se sentou na espera do começo do espetáculo. Queria ver Sacha dançando o mais próximo possível do palco, e também queria que ele o visse e soubesse que havia cumprido a promessa de assisti-lo. Com o fim da apresentação, Sacha foi até a plateia e levou Peter até o camarim para que conhecesse seus amigos. Foi logo dizendo aos dançarinos da companhia que Peter era uma pessoa muito querida, apesar de tê-lo conhecido não fazia muito tempo, e que era a primeira vez que ele assistia a uma apresentação de dança. Peter nada disse até então, permaneceu calado diante dos amigos de Sacha. De pronto, curiosos, os dançarinos perguntaram se ele havia gostado da apresentação. Peter, por sua vez, quase monossilábico, com seu jeito meio bruto, desconversou, dizendo que não havia entendido muita coisa e que não tinha parâmetros para concluir se que havia acabado de assistir era bom ou ruim afinal. Os dançarinos insistiram, indagando-o se a apresentação havia, ao menos, tocado, por um segundo que fosse, seu coração. Respondendo com um econômico talvez, Peter voltou a ficar calado.

Nesse meio tempo, constrangido pelo jeito com que seus amigos eram tratados, Sacha foi sútil em conseguir com que ficassem a sós, afastando-se com a desculpa de que Peter havia deixado cair a chave da moto no palco do teatro. Perguntou por que estava agindo de forma tão desagradável com seus amigos, porém, Peter negou qualquer antipatia, respondendo que não os conhecia e que só estava sendo formal. Foi então que Sacha concluiu, consigo próprio, que Peter estava tendo uma nova crise de ciúme e voltou a se mostrar orgulhoso disto. - Ele gosta de mim mais do que eu pensava. - imaginou. Considerava ciúme demonstração de amor.

Nas duas semanas que se seguiram, Peter passava a maior parte das manhãs estudando para as provas do supletivo e, à tarde, seguia para a pizzaria, onde trabalhava até altas horas da noite, e Sacha deparava-se com sessões de ensaio cada vez mais prolongadas. Quase não se viam às noites; as duas únicas vezes que estiveram juntos, só se preocuparam a amar.

O relacionamento foi ficando mais intenso na medida em que conheciam de perto um ao outro. Peter intuía os horários que Sacha ia dormir e o estado de humor que ele acordava, meio mal-humorado; intuía o que ele gostava e o que detestava comer, e intuía até os apelidos de escola que o irritavam; Sacha, por sua vez, conhecia quase todas as preferências de Peter: a marca do xampu que usava, os programas de televisão que assistia, os ídolos na música e no esporte, os sonhos que ele perseguia e até o jeito que gostava que ficassem penteados os seus cabelos. Certa vez que se encontraram, Sacha perguntou para Peter uma coisa que não havia se dado conta desde então: sua família. Peter respondeu que morava com sua irmã, Sílvia, e que seus pais eram do interior, um casal de pequenos agricultores de Jaguariúna. Entusiasmado, o dançarino indagou-o se podia conhecer Sílvia e Peter respondeu que não via problemas que isso acontecesse. - Ela vai adorar te conhecer! - exclamou. O encontro não tardou a ocorrer. Peter foi buscar Sacha de moto e o levou à sua casa, onde Sílvia o esperava.

Carinhosa, Sílvia foi ao encontro do irmão, de braços abertos, assim que o viu atravessar a porta da sala, e foi por ele que Sacha foi devidamente apresentado. - Sacha é o amor da minha vida, a outra parte da minha existência, a tampa da minha frigideira sem cabo. - disse, Peter, à irmã, descontraído. Sílvia abraçou Sacha, que agradeceu, dizendo-se feliz em conhecê-la.

Havia preparado um bolo e uma jarra de suco de maçã para se servirem enquanto conversassem. Sílvia agarrou a mão de Sacha e o levou até a cozinha. - Faz quanto tempo que você e Peter se conhecem? - perguntou para Sacha, que respondeu que fazia cinco meses, no máximo. Contou também que era dançarino da companhia municipal. Sílvia, enquanto a isso, ressaltou que já sabia, pois Peter já havia lhe contado. Bem humorada, revelou que Peter não parava de falar dele. Sacha, envergonhado, fingiu absoluta normalidade diante da revelação. Sentia-se gigante toda a vez que redescobria o quanto Peter o amava e buscaria, cada vez mais, ser o centro das atenções na vida dele.

Apresentado Sílvia, Peter levou o namorado de volta para sua casa, onde voltaram a transar. Não se desgrudavam. Sacha conseguiu umas horas de folga dos ensaios da companhia e, a pedido de Peter, passavam a maior parte do tempo, juntos. Um museu importante da capital organizara uma exposição de arte italiana; Peter levou Sacha para conferir os quadros e esculturas, imaginando acertadamente que ele fosse gostar. Sacha se mostrara tão interessado nas obras que perguntou tudo que deu vontade aos funcionários que orientavam o púbico nos andares da exposição. Os artistas, os anos que foram feitas, as cidades nas quais foram trazidas para o museu, nada passava desapercebido de sua fome de arte. Em outro dia, Peter fez outra surpresa para Sacha ao levá-lo para um lugar onde tivessem mais momentos de intimidade. - Vou te confessar uma coisa, Peter, é a primeira vez que visito um motel. - contou, o dançarino. Lá, tiveram a melhor transa: amaram-se de corpo e alma. - Ótimo então, vamos aproveitar. - Peter respondeu.

Sacha e a irmã de Peter tiveram outra oportunidade de se reencontrarem quando o entregador de pizza os convidou a curtirem um final de semana em Praia Grande. Alugaram um casebre já mobiliado, mas quase não ficaram nele. Quando não tomavam Sol, deitados na areia, ou se banhavam no mar, sentavam-se no banco de uma pracinha, onde assistia ao congestionamento de pessoas na orla da praia, sem que vissem o tempo passar. Sílvia, na segunda noite dos três dias, separou-se do irmão e foi sozinha para uma danceteria. Ao se aproximar do bar, pediu uma bebida e, no primeiro gole, um rapaz sentou ao seu lado e começou a puxar papo. Sílvia o ignorou de início, mas logo foi cedendo às investidas. O rapaz não parava de elogiá-la, dizendo o quanto era bela e feminina, até que partiu para o ataque. Sustentou a nuca de Sílvia na palma de sua mão, beijando-a. Deixaram a danceteria não muito tempo depois disso. Seguiram a pé por uma rua na qual quase não passava ninguém e foderam em pé, de frente para o muro. Sílvia, ao fim, recompôs-se. Despediu-se do rapaz e retornou para o casebre alugado, era tarde da noite.

Pela manhã, ao acordar e deixar o quarto, Sílvia, no corredor do casebre, foi abordada por Peter, que perguntou aonde ela havia ido a noite. Sílvia desconversou, respondendo que havia saído para se divertir. - Nada demais, só fui dar uma volta. - afirmou. Insistente, Peter explicou que era sua irmã e que tinha o direito de ficar preocupado, mas não teve sucesso. Sílvia pôs fim na discussão ao emendar que era maior de idade, solteira e cumpridora dos seus deveres e obrigações. - Tenho o direito de me divertir tanto quanto você. - lembrou-o.

Minutos antes, Sacha, que relutava em abrir os olhos e acordar, começou a ouvir Sílvia e Peter discutindo no corredor. Foi a desculpa que precisava para se levantar da cama desarrumada e abrir a porta. Sílvia e Peter, no momento em que viram que eram observados por Sacha, voltaram suas atenções para ele, interrompendo a discussão. Após encará-lo com irritação, Sílvia foi para a cozinha tomar um copo de água, enquanto que Peter retornou para o quarto que havia dormido com Sacha, onde puderam conversar. Sacha perguntou o porquê da discussão e Peter minimizou, argumentando que tudo não havia passado de uma implicância de irmãos. - Bobagem, querido, foi só isso. - beijou-o na testa.

Fingindo acreditar na explicação, Sacha percebeu que Peter, na verdade, tivera uma crise de ciúme de Sílvia e isto o deixou terrivelmente indisposto durante o resto daquele dia. Contrariado, criara a ilusão de que Peter sentia ciúme somente dele, de mais ninguém. E para que não deixasse transparecer o ódio que começava a sentir por Sílvia, Sacha se esforçou enormemente. Sempre que a via, era diplomático, tratando-a com cordialidade e educação. O dançarino a odiava pela vontade de odiar, mesmo que, em seu íntimo, soubesse que o ciúme era algo comum entre irmãos. - Se Peter tiver que sentir ciúme, juro que vai ser só por mim. - prometeu-se. - Só.

Sílvia trabalhava como tratadora em um zoológico público. Depois de voltarem da praia, Peter resolveu fazer uma surpresa para o namorado, levando-o para que conhecesse o lugar que a irmã trabalhava. Sacha conhecia o zoológico; havia o visitado por vezes, mas ficou quieto mesmo assim e fingiu ansiedade ao perceber, ainda na garupa da moto, para onde estavam indo.

Ao se verem no zoológico, Sacha e Peter avistaram Sílvia alimentando um casal de zebras e foram ao seu encontro. Peter foi carinhoso com a irmã seguido por um Sacha que também a abraçou. Sílvia e Peter puseram-se a caminhar com Sacha para que conhecesse o zoológico: mostraram-no a jaula dos macacos, os aquários dos animais marinhos, os cativeiros das aranhas, das cobras, das serpentes, um berçário de escorpiões; mostraram-no as jaulas onde ficavam os felinos, como as dos demais animais e também o lago dos jacarés. Determinado momento do passeio, Sílvia e Peter voltaram a discutir. Os três estavam diante do lago quando Peter relembrou a noite, em Praia Grande, na qual a irmã havia saído para se divertir. - Você não é meu dono, Peter, tenho o direito de sair com quem eu quiser. - abominou a ideia de voltar ao assunto. Sílvia sabia que aquela insistência não passava de ciúme, um sentimento de posse que os irmãos têm para com suas irmãs, e se apressou em dar um basta ao falatório. Foi rude ao lembrá-lo que não o devia satisfação. Enquanto isso, Sacha, que assistia toda a discussão diminuído e esquecido completamente por Peter, mal acreditou no que estava presenciando. Concluindo-se que Peter amava mais a irmã do que a ele, foi tomado por um ódio emudecido e que só com muita força é que conseguiu conter, e não partir para cima de Sílvia.

Traçou um objetivo em mente: sua morte. Começou a elaborar um plano para matá-la. Seria uma única investida, agiria com perfeição. Não faria nada que desse errado. Pensou em envenenamento, mas logo desistiu; Sílvia teria uma morte lenta demais e Sacha não conhecia nada sobre venenos, quanto mais um que não deixasse vestígio. Esfaqueamento, atropelada, estrangulada, decapitação e pancada na cabeça: nenhuma destas formas de matar pareceu-lhe bem-vinda. Algumas eram perversas demais até mesmo para o ódio que sentia e não conseguiria executar. Cogitou inclusive contratar um assassino profissional visto que não chegava a uma decisão, porém, isso sim, definitivamente, é que seria uma completa estupidez em comparação com todas as outras. Que é que o assassino faria com ele depois que matasse Sílvia? Chantagearia Sacha para que não o denunciasse ou o mataria também, só pelo gosto de matar. Por fim, após dias intermináveis pensando e refletindo nas mais engenhosas possibilidades de dar fim a vida de uma pessoa, chegou a conclusão que seria ele próprio que se encarregaria do serviço. E o local seria exatamente aquele no qual estavam.

Em outro dia, o dançarino ligou para uma Sílvia que trabalhava no momento em que o celular tocou e disse que estava com saudades. Perguntou se podia ir até o zoológico para conversarem e Sílvia respondeu que sim, que podiam se encontrar. O zoológico, sem nenhuma coincidência, havia sido fechado para o público aquele dia. Era fim de tarde, o dia começando a escurecer, quando ficaram um diante do outro. Preocupada, Sílvia o indagou se havia acontecido alguma coisa com Peter. Sacha logo a tranquilizou dizendo que o namorado estava bem. Temeroso que demorasse demais e que, por isso, fosse flagrado, Sacha sacou um revólver que escondia na cintura, embaixo da camisa branca, e exigiu que Sílvia o levasse até o lago dos jacarés. Mesmo sem entender nada, Sílvia fez como Sacha mandou.

Ao chegarem, o dançarino ordenou que Sílvia entrasse no lago. - Os jacarés darão fim ao seu corpo. - ameaçou-a. Sívia, no entanto, congelou, horrorizada. Não podia acreditar que Sacha pudesse obrigá-la a tal absurdo. Sílvia, cheia de determinação, o encarou respondendo que não entraria no lago. Sacha repetiu a ordem, só que dessa vez com ainda mais ameaça. Falava sério, atiraria se fosse preciso. Sílvia, no entanto, tornou a responder que não entraria no maldito lago. O revólver ainda em punho, Sacha, então, deu um passo generoso em sua direção e vociferou para que se jogasse na água. - Não vou entrar. - Sílvia repetiu e, de novo, não o obedeceu.

Deu-se a reviravolta a partir de então. Desesperada, ela o desafiou que atirasse logo, de uma vez por todas. - Você está louca, Sílvia? - agora, era Sacha quem não entendeu o que acontecia. - Entre no lago, eu vou atirar! - exclamou. Percebendo que a ameaça dera lugar à impotência de quem não tem coragem para matar, Sílvia avançou contra Sacha, empurrando-o fortemente com o próprio corpo para trás e fazendo-o com que tombasse no chão. O revólver que Sacha empunhava era falso. Com a queda, a arma caiu aos pés de uma Sílvia que o apanhou tão logo o viu.

Descobriu que a arma não era de verdade e que sua maldita vida não havia estado em perigo. Enchendo-se de fúria com a ousadia de Sacha, Sílvia levantou uma generosa pedra que encontrou na beira do lago e golpeou-lhe a cabeça em uma, duas, três pancadas; até matá-lo. - Olha que você fez, Sacha; não precisava ter acabado assim. - disse olhando para o corpo estendido no chão. Passou a noite alimentando os jacarés.



FIM.

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