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quarta-feira, 9 de novembro de 2016

Conto: Urso Antes e Depois do Homem.


Então foi assim que o diabo da coisa se deu: o urso começou a falar. As palavras soaram um tanto quanto desconexas, quase sem sentido, como quem havia aprendido a falar do nada. Aos poucos, o urso de nome Urso passou a imitar o Homem.

Antes que o diabo da coisa se desse, Urso estava recolhido em sua toca e sequer pensava sobre sua condição de animal, até mesmo por que ursos não raciocinam, não têm a virtude de ser gente. As primeiras palavras que ensaiou foram um vai, embora e daqui em advertência a uma cobra que havia entrado em sua toca enquanto ele dormia. A cobra, fingindo não tê-lo ouvido, foi embora.

Mas como é mesmo que o diabo da coisa se deu? Urso nunca falou. Ao certo e no máximo, Urso somente rugiu como todos os outros. Urso saiu da toca e foi passear na floresta sem que pudesse refletir sobre o que lhe aconteceu. E é correto supor que não sabia em que lhe poderia ser útil a fala. Como disse, o diabo da coisa nunca se dera antes.

Um rio corria com alvoroço há pouco mais de um quilômetro de distância de onde o urso passeava. Urso caminhou até o rio. Estava faminto. Pelo caminho, se deparou com uma águia pousada na corcova de uma rocha e a águia o encarou com superioridade e indiferença. Já haviam se encontrado minutos antes e em outras vezes, mas para o urso tratava-se da primeira. Mal sabia, a águia, que ele falava. Invés de rugir para a águia, furioso, Urso repetiu as três primeiras palavras que havia dito à cobra, na toca. A águia, mais horrorizada do que qualquer coisa por descobrir que um urso podia falar, levantou voo e desapareceu sobre as árvores. No que chegou no leito do rio, Urso se atirou na água congelante contra os cardumes de salmões que avistava, saciou a fome e voltou para a toca para se proteger do frio. Começaria um inverno sem precedentes para o diabo do Urso. A neve que caía toca afora era torrencial. Urso só deixava a toca quando o frio aliviava um pouquinho para caçar salmão, mas logo voltava. Passou o inverno rigorosamente assim.

No primeiro dia da primavera, o diabo da coisa se repetiu: o urso, dotado de razão, começou a pensar. Raciocinava perfeitamente bem, um raciocínio lógico, minimamente sofisticado, exato. Sentiu uma vontade doida de contar tudo que via pela frente aos outros ursos que encontrasse na floresta, mas não demorou a perceber que tal vontade era extremamente estúpida. Os ursos não o compreenderiam, capaz até que fugissem como a águia, espantados ao ver que um urso não apenas podia falar como pensar. Antes de sair da toca, Urso avistou a mesma cobra que havia visto quando descobriu pela primeira vez que podia falar e, inteligente, dirigiu-se à cobra com polidez. Perguntou o que ela fazia em sua toca e se também podia falar. A cobra, porém, nada respondeu. Rastejou para fora até desaparecer na vegetação.

Com fome, o urso foi até o rio ver se encontrava comida e, no caminho, pôs-se a refletir sobre como havia chegado na condição de urso falante e pensante. Lembrou da cobra e ligou uma coisa com a outra. Talvez a cobra fosse a responsável pelos feitos. Mas como é que o diabo de uma cobra faria um urso falar e pensar? Impossível. Urso cogitou em seguida que estivesse vivendo em uma realidade paralela, em um tempo circunscrito à sua imaginação, e riu de si mesmo nesse momento. - Que imaginação, que nada! - era verdade, real.

No que se deparou com o rio, Urso, com ainda mais fome, se não bastasse o conflito com sua nova condição, não caçou os salmões dos quais se alimentava pois seu paladar também havia mudado. - Odeio peixe crú. - então, logo pensou em fazer uma fogueira para assá-los, assim resolveria o conflito genialmente. Mas como conseguiria fazer uma fogueira com patas tão curtas e a fome era grande demais para esperar por tanto trabalho. Desistiu do rio e se embrenhou na floresta em busca de frutas. Começando a detestar a ideia de falar e pensar, azarado, não encontrara fruta alguma para comer. Urso voltou para a toca de estômago vazio.

Por dias, o urso não encontrou comida que fosse conveniente. Não gostava mais de comida de ursos, queria comida de gente. Acabou ficando doente e fraco, e não tinha força, nem disposição, para sair da toca. Contudo, magro e debilitado, o urso teve quem o ajudasse a se recuperar. A cobra entrou na toca trazendo consigo, em suas presas, uma suculenta maçã verde. Colocou a maçã próxima do focinho do urso que a comeu com uma só mordida. Ela repetiu o gesto inúmeras e incansáveis vezes. Ora ofereceu maçãs, ora laranjas, ora mamões, ora outras frutas, até que o urso foi se recuperando da fraqueza e saciou a fome.

E não foi apenas a fome a única necessidade do urso. Recuperado, Urso estava carente. Queria que a cobra lhe fizesse companhia e assim ela o fez pelo transcorrer da primavera.

Com a chegada do verão, enquanto Urso dormia, a cobra mordeu Urso pela terceira vez e rastejou para fora da toca, desaparecendo na vegetação. O diabo da coisa se repetiu. Além de falar e pensar, Urso transformara-se fisicamente em homem. Tão logo abriu os olhos, percebeu que uma coisa muito séria havia acontecido. Estava mais leve e percebeu-se em um corpo mais alongado. Estranhando que havia se levantado facilmente como jamais se levantara, olhou então para baixo e viu o corpo masculino. Urso, que falava e pensava como homem, agora tinha também o corpo de um.

Imediatamente depois que se colocou em pé, andou até a saída da toca, lugar de onde ficou surpreendentemente apavorado ao olhar para fora e ver a floresta. Levaria um tempo até que se acostumasse que não era mais um urso. Voltou para dentro da toca e concluiu que permanecesse escondido nela ficaria a salvo. Percebeu rápido que sua nova condição, na verdade, representava-lhe uma gigantesca dificuldade que se abatera sobre sua vida e desejou mais rápido ainda que voltasse a ser o urso de sempre, não importando se não falava ou pensava.

Um pouco mais tarde, Urso se perguntou para onde havia ido o diabo da cobra que o salvara da fome na primavera e chegou a conclusão, juntado um fato ao outro, que só poderia ter sido ela a responsável por sua infeliz transformação. Nunca voltariam a se reencontrar. Dia após dia, faminto, fraco, escondido, o Urso antes e depois do Homem foi fechando os olhos, a toca ficando cada vez mais escura, até que o fim, finado, chegou enfim.


FIM.

18 comentários:

  1. Cara, gostei bastante da sua narrativa, novamente. Peguei alguma intertextualidade com o mito de Adão, existe ou nada?
    Abraço.

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    1. Com o mito de Adão? Diria que muito pouco. O personagem Urso do conto é muito mais uma metáfora do Homem em sua jornada. Mas claro que também tem muito mais ficção e imaginação do que qualquer filosofia em si, rs.

      Respondi? Abraço.

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  2. Uau, gostei muito! Não sei se estou a racionalizar demasiado mas não será uma espécie de metáfora para o homem que pensa demais acerca da sua condição? Acredito que quanto mais pensamos sobre aquilo que somos, sobre a condição humana, enquanto conjunto também, de verdade, nos tornamos seres mais evoluídos, mais conscientes, mas passamos a carregar um fardo cada vez maior. Cheguei ao ponto que queria chegar? Ou é apenas uma interpretação pessoal?

    Pseudo Psicologia Barata

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    1. Bia, você fez uma interpretação muito comum e que eu próprio faço desse conto. Acertou na mosca, rs. Embora o conto também seja uma ficção, uma alegoria da jornada humana.

      Ajudei?

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  3. Olá, Roberto.
    Que conto bem escrito! Achei profundo, me deixou logo nos primeiros parágrafos muito curioso e aos poucos as respostas foram surgindo. Adorei sua escrita.

    Até mais. http://realidadecaotica.blogspot.com.br/

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    1. Renato, obrigado pelos elogios ao conto. Demorei semanas p/ escrevê-lo.

      Que bom que esse tempo valeu a pensa, rs!

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  4. Olha... Fiquei um pouco confuso. Tinha horas que parecia que usava Darwin como inspiração e em outras a Bíblia. Mas a narrativa em si é boa, só não consegui realmente contextualizar.

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    1. Franklin, meu amigo, meus contos não são p/ principiantes, kkk - Brincadeira!

      Não entendeu. Tente relê-lo, quem sabe c/ uma segunda leitura não o perceba de um jeito diferente.

      Volte sempre!

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  5. Cara que contou em , gostei , achei profundo , me deixou curiosa até ,não é sempre que alguém me deixa presa em conto '-' está de parabéns imagino que demorou dias pra escrever esse conto kkkkkk ...
    bjs
    http://jesscastrojc.blogspot.com.br/

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    1. Oi, Jéssica, na verdade demorei bastante para escrever sim: mais de uma semana, fora as revisões, rs.

      Obrigado pelo generoso comentário.

      Volte sempre a este humilde blog, rs!

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  6. Oi Rob,

    Mais uma vez seu conto está muito bem escrito, no qual os leitores precisam ler as entrelinhas, racionalizar as palavras e buscar as metáforas escondidas. Acho que conseguir captar o que você desejou é bem difícil, mas senti a necessidade de buscar aquele olhar que o homem faz de si mesmo ou deixa de fazer. Muito bom!

    Beijos!

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    1. Obrigado, Alice, minha tarefa foi cumprida então. Te agradei.

      Abraço e retorne mais vezes.

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  7. Parabens, sua escrita e fascinante. consegui compreender a metafora nesta ficcao que prende o leitor apois a primeira frase, tsc. a maneira que coloca as respostar aos poucos faz com que o leitor prossiga com a leitura ainda mais cuidadosa, a jornada de um homem e sempre fascinante

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    1. Obrigado, Oculto, é seu primeiro comentário, não?

      Fez uma boa estréia! Gosto muito desse conto também.

      Abraço.

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  8. Oi Rob, adoro autores que nos botam para pensar, aqueles que entregam tudo de mão beijada,não marcam, são esquecidos, esse seu texto ficou muito legal, e eu entendi como sendo um paralelo a condição do homem, que quanto mais ele consegue, mais ele precisa, mais exigente ele fica, em qualquer esfera da vida...Muito bom...Parabéns!

    www.livrosemretalhos.com.br

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    1. Obrigado, Gilvana, volte sempre!

      Muito generoso teu comentário. Abraço forte.

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  9. ótimo conto querido e muito bem escrito como todos os outros. Meus parabéns!!!

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    1. Obrigado, Adriana, palavras generosas mas muito verdadeiras vindas de você.

      Abraço.

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