segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

Manifestos da Infância: Senhor Polvo, Castilho e as águas-vivas.


Em meio a um silêncio completo, Senhor Polvo repousava em sua toca no fundo do mar e nada o preocupava, pois não havia nenhum predador ou ameaça por perto. Descansava tranquilo e preguiçosamente, no entanto, seu descanso não durou muito. Um certo camarãozinho minúsculo se aproximou da toca como quem parecia visitar um parque de diversões.

O camarãozinho se chamava Castilho.

“Senhor Polvo, você está aí?” - ele perguntou sem esperar resposta. E invadiu a toca, dizendo. - “Não se preocupe comigo porquê eu já estou chegando.” - tão rápido entrou, viu o polvo com os olhos fechados e seus oito braços, um abraçado com o outro, e não hesitou em despertá-lo. - “Ora, não seja tão preguiçoso assim!” - exclamou enquanto o observava dormir. - “Vai, seu molenga, acorda!”

O dia, fora da toca, estava lindo no fundo do mar: os peixinhos, as ostras e os moluscos brincavam alegremente. Contudo, nada parecia motivar o molusco dorminhoco a interromper seu descanso.

“Ainda está muito cedo.” - respondeu, Senhor Polvo, sem sequer movimentar um braço. - “Vou dormir só mais um pouquinho.” - disse.

“Chega de dormir!” - persuadiu, o insistentemente camarãozinho. Justificou. - “O dia está bonito demais para você ficar, aqui, nessa toca escura e fria.” - ele se aproximou um pouco mais do polvo e o repreendeu. - “Deixa de preguiça, já passou da hora de acordar!”

Senhor Polvo pareceu nem mesmo tê-lo ouvido. Permaneceu encolhido em sua toca no que Castilho continuou insistindo.

“O que vamos fazer no dia de hoje?” - perguntou, o camarãozinho, que o convidou. - “Estava pensando que a gente poderia procurar os peixes piratas no recife. Vai ser muito legal!”

Era bastante comum ver os peixes piratas por lá. Longe de serem maus, eram muito corajosos, aventureiros e rebeldes, sem falar da fama de heróis que ganharam por defenderem os bichos mais fracos dos valentões e grandalhões que viviam pelo fundo do mar. Em geral, a bicharada gostava dos peixes piratas. Reza a lenda que, certo dia, ao avistarem uma ostrinha encurralada por um bando de tubarões bárbaros, eles não apenas expulsaram os tubarões como todos demais valentões que existiam no recife para sempre. Lenda ou não, os tubarões não nunca foram vistos nadando por aquelas bandas. Castilho não se cansava de repetir essa história para Senhor Polvo, que, convicto de que não conseguiria voltar a dormir, aceitou o convite do amiguinho.

“Está bem, eu vou com você.” - disse, ele, levantando imediatamente uma ressalva. - “Mas se a gente não achar os peixes piratas eu volto para a minha toca e você faz de conta que eles nunca existiram. Entendeu o que eu disse?” - perguntou. - “E vai me deixar dormir o quanto eu quiser.”

Demonstrando então que concordava com a ressalva, o camarãozinho limitou-se a dar um sorriso vitorioso.

“Combinado!” - exclamou.

Não demorou para que deixassem a toca, antes, porém, Senhor Polvo, curioso, quis saber:

“Por que você está com tanta pressa em procurar os peixes piratas? Ainda está cedo. Não podia deixar para um pouco mais tarde?”

Castilho não escondeu a surpresa com a pergunta. Havia se esquecido completamente de que nunca contara seu grande sonho ao melhor amigo.

“Você ainda não sabe?” - encarou Senhor Polvo com olhar de enorme importância. - “Quero ser um pirata.” - revelou, o pequeno camarãozinho, que ainda concluiu. - “A partir de hoje pode me chamar de Castilho, o Camarão Pirata.”


* * * * *

Assim que deixaram a toca, Senhor Polvo e Castilho seguiram em direção ao recife.

O camarãozinho se mostrava ansioso em encontrar os peixes piratas, já Senhor Polvo, embora externasse ceticismo diante dessa possibilidade, intimamente, não conseguia esconder a expectativa de que eles pudessem de fato existir.

Castilho confidenciou ao amigo:

“Sabe, faz tempo que eu não vejo a hora de a gente encontrar eles.”

“Tomara que sejam legais.” - emendou, o polvo, que volta e meia bocejava de sono.

Foi quando atravessavam os destroços de um navio de pesca naufragado e chegavam perto do recife que ouviram então um som que se assemelhava a um choro agudo.

“Que barulho estranho é esse?” - Senhor Polvo chamou a atenção do camarãozinho. Perguntou. - “Você não está escutando?”

“Um barulho?” - Castilho não ouvia nada. - “Que você está ouvindo?” - indagou-o.

O som de choro soava bem fraquinho, quase inaudível.

“Tem alguém chorando.” - respondeu, Senhor Polvo, cada vez mais convencido de que escutava o que escutava. O molusco dorminhoco voltou a perguntar. - “Não está ouvindo nada, tem certeza?”

Castilho ficou em silêncio na tentativa de escutar o tal choro. O choro continuava bem fraquinho, difícil de ouvir portanto, até que, em certo momento, o silêncio do camarãozinho valeu a pena.

“Agora eu estou ouvindo!” - comemorou, mas logo minimizou a preocupação do amigo. - “Deve ser alguma lagostinha boba chorando, nada demais. Acho melhor a gente seguir em frente.”

Estava com pressa de encontrar os peixes piratas, mesmo assim Senhor Polvo foi insistente.

“Seguir em frente, tem certeza?” - perguntou. - “A gente não está fazendo nada que seja muito importante para não poder ajudar. Isso não é o correto e nem o legal a se fazer. Um pirata de verdade ajudaria quem precisasse de ajuda.”

Depois de reclamar baixinho durante alguns instantes e ver que não conseguiria convencer o amigo de continuar, Castilho concordou em ajudar então.

“Está certo, a gente vai ver quem é que está chorando.” - resmungou, dizendo. - “Pirata que é pirata nunca nega socorro a quem precisa.”

Senhor Polvo e o camarãozinho ficaram quietos a fim de escutar de onde vinha o choro. Perceberam que não vinha de muito longe, apesar de soar baixinho, e, ao seguirem o som, se depararam com uma pequenininha água-viva.

“Por que você está chorando?” - prestativo, Senhor Polvo perguntou.

“Porque eu estou com medo.” - a pequenininha respondeu.

O camarãozinho, por sua vez, também demonstrou presteza assim que a viu chorando.

“O que aconteceu?” - quis saber. - “Alguém te machucou?”

“Não.” - respondeu, a água-viva, que ainda chorava. Disse logo em seguida. - “Ninguém me machucou, eu estou bem. Eu só estou triste porquê me perdi.”

“Se perdeu?” - perguntou, Castilho.

“Sim.” - ela confirmou. Ao suspirar profundamente, não refutou em explicar. - “Eu estava nadando junto com o meu grupo de águas-vivas quando veio uma correnteza e me levou para longe. Eu não sei onde eles estão agora.”

Ao dizer isso para o polvo e o camarãozinho, a água-viva abriu um imenso berreiro.

“Não precisa mais chorar.” - tranquilizou-a, Senhor Polvo, prometendo. - “A gente vai te ajudar.”

“Isso mesmo.” - emendou, Castilho. - “Pode contar com a gente.”

A água-viva, após externar agradecimento pela ajuda, perguntou:

“Vocês prometem?”

“Lógico que sim!” - exclamou, Senhor Polvo.

“A gente vai te ajudar.” - garantiu, Castilho.

A essa altura dos acontecimentos, o camarãozinho quase não se lembrava mais dos peixes piratas. Ele, Senhor Polvo e a pequenininha começaram a procurar as águas-vivas prontamente.


* * * * *

O polvo se mostrava tão orgulhoso e, de alguma forma, tão recompensado em procurar as águas-vivas que não parava de fazer perguntas na busca de informações ou pistas que pudessem ajudá-los.

“Faz muito tempo que você se perdeu?”

“Não, eu acho que não.” - a pequenininha respondeu, ligeiramente confusa.

“Você se lembra como era o lugar onde estava quando se separou do grupo?”

Pensativa, a água-viva ficou quieta durante quase um minuto.

“Eu não me lembro muito bem, mas acho que não era diferente do local que vocês me encontraram chorando.” - disse em tom de reflexão. - “Era até bem parecido. A correnteza não deve ter me levado para muito longe do meu grupo. Eles devem estar perto da gente e ainda devem estar procurando por mim.” - a água-viva encarou Senhor Polvo, Castilho e perguntou. - “Vocês vão continuar me ajudando a procurá-los, não vão?”

“Não precisa ficar preocupada com isso.” - tranquilizou-a, Senhor Polvo, assegurando. - “A gente prometeu que iria te ajudar a reencontrá-los e é justamente isso que a gente está fazendo.”

Senhor Polvo e o camarãozinho logo perceberam que ajudar a pequenininha água-viva não seria uma tarefa das mais fáceis. O fundo do mar, além de bonito, exuberante e misterioso, é também imensamente extenso e fácil de se perder, porém, esforçados, mantiveram a promessa. Por quais motivos não ajudariam a pobrezinha? Um pirata de verdade ajudaria.

Se enfiando entre os corais, Senhor Polvo se preocupava em olhar com atenção em toda a parte, mas não achou nenhum rastro que os levassem até elas, já Castilho e a pequenininha água-viva nadavam lentamente, sem pressa. Foi então que uma certa tartaruga, que nadava em sentido oposto, veio ao encontro dos três. Senhor Polvo e o camarãozinho a reconheceram imediatamente.

“Olá, Velha Tartaruga.” - cumprimentou-a cordialmente, Senhor Polvo. - “Como vai indo?” - perguntou.

“Eu vou bem, obrigada.” - respondeu, a tartaruga, que viu a água-viva próxima de Castilho e perguntou. - “E essa pequenininha aí, quem é?”

Envergonhada, a água-viva não externava qualquer atitude diante da Velha Tartaruga e Castilho, percebendo sua timidez, apressou-se em apresentá-la:

“Ela é nossa nova amiguinha.” - disse. - “A gente a encontrou chorando perto dos corais.”

“Ela está perdida.” - acrescentou, Senhor Polvo. - “A senhora, por acaso, não viu um grupo de águas-vivas flutuando por aqui, viu?”

A Velha Tartaruga, com ar de estranhamento, encarou o polvo e respondeu sem convicção:

“Águas-vivas? Embora elas sempre passem por aqui acho que hoje não vi nenhuma. Bom, não me lembro mais e já não tenho tanta certeza. Por que você está me perguntando isso? Me deixou curiosa.”

O camarãozinho e a água-viva se entreolharam, desapontados não apenas com a resposta mas com a pergunta.

“Nossa amiguinha se perdeu do seu grupo.” - respondeu, Senhor Polvo, olhando carinhosamente para a pequenininha água-viva. - “A gente está ajudando ela a reencontrar as outras águas-vivas.” - voltou a perguntar. - “Tem certeza que não viu nenhuma água-viva flutuando por aqui?”

Nesse meio tempo, Castilho e a pequenininha água-viva limitavam-se em observar a tartaruga com uma atenção que só se fazia aumentar. Tinham expectativa de que ela oferecesse alguma informação que os levassem até as outras águas-vivas. A Velha Tartaruga pensou, repensou e só na sequência respondeu a pergunta de Senhor Polvo:

“Ah, sim, agora me lembrei!” - exclamou, finalmente dizendo. - “Eu vi um grupo de águas-vivas flutuando por aqui sim. Elas realmente pareciam procurar alguém. E estavam com pressa.”

A pequenininha água-viva não escondeu sua extrema felicidade com a informação.

“Ouviram, elas estão me procurando!” - comemorou e, rapidamente, quis saber. - “Por que disse que elas estavam com pressa?”

“Bom, isso eu não sei.” - a tartaruga respondeu. - “Não pude perguntar. É que a pressa delas não pareceu ser nada grave para mim, então, não me preocupei. Me desculpe.”

“A senhora viu em que direção as águas-vivas foram?” - Castilho a indagou.

“Ah, sim, elas foram para o norte.” - indicou, a tartaruga, completando. - “Elas foram na direção da Grande Rocha, onde ficam os mexilhões.”

Ao terminar de ouvi-la, a pequenininha água-viva, no mesmo instante, olhou, esperançosa, para o camarãozinho Castilho, que não hesitou em abrir um discreto sorriso, contente com a informação.

“Obrigado, velha amiga.” - agradeceu, Senhor Polvo, desejando. - “Tenha uma boa viagem!”

“De nada, foi um prazer ajudar essa criaturinha adorável.” - respondeu, a tartaruga, que olhou para a água-viva sem esconder a satisfação em ter conseguido ajudá-la. - “Boa sorte e tomara que vocês encontrem as águas-vivas que procuram!” - desejou-lhes.

Depois disso, a tartaruga seguiu por um caminho, já Senhor Polvo, Castilho e a pequenininha água-viva, cheios de entusiasmo, seguiram por outro, rumo a Grande Rocha.


* * * * *

Duas coisas se faziam certas enquanto procuravam: a pequenininha não conseguia disfarçar a ansiedade de reencontrar seu grupo e a expectativa dos três não parava de aumentar.

Foram então direto para a rocha dos mexilhões, no entanto, não demorou para que avistassem Gentil, um tubarão-martelo que vinha nadando ao encontro deles.

“Olá, pessoal, como vão?” - cumprimentou-os, o tubarão.

Assim como a Velha Tartaruga, Gentil também pareceu conhecer o polvo e o camarãozinho.

“Olá, Gentil!” - Senhor Polvo retribuiu o cumprimento. - “A gente está bem, obrigado.” - respondeu.

“Olá!” - emendou, Castilho, monossilábico.

Imediatamente após cumprimentá-los, Gentil percebeu a presença da pequenininha água-viva, que flutuava ao lado do camarãozinho, e percebeu também que ela estava receosa e com um certo medo claramente causados pela sua presença.

“Não vai me apresentar?” - em tom afetuoso, o tubarão-martelo perguntou para Castilho.

De pronto, o camarãozinho a apresentou:

“Ela é nossa amiga.” - disse. - “Ela se perdeu do seu grupo e a gente está ajudando a se reencontrarem.”

“Isso mesmo.” - emendou, Senhor Polvo. Logo em seguida, perguntou ao tubarão-martelo. - “Por acaso, você não viu uma água-viva flutuar nessas águas do mar, viu?”

Como se não houvesse escutado a pergunta, Gentil imediatamente voltou as atenções para a pequenininha, mostrando a mesma preocupação que todos externavam quando ficavam sabendo da sua história.

“Você está sozinha?” - perguntou.

“Aham.” - timidamente, a pequenininha água-viva limitou-se a responder. - “Sim, eu estou.”

“Não se preocupe porque eu vou te ajudar.” - prometeu, o tubarão-martelo.

Nem terminou de ouvir a promessa, a pequenininha água-viva olhou para Senhor Polvo e para Castilho, desconcertada. Todo mundo havia prometido a mesma coisa e, até aquele momento, ela não reencontrara seu grupo.

Senhor Polvo interveio, indagando Gentil:

“Então você sabe aonde as águas-vivas foram? Sabe onde elas estão?”

“Sim, eu sei.” - o tubarão-martelo respondeu, prestativo. - “Elas foram para a rocha dos mexilhões. Estão lá com certeza.”

“Você pode levar a gente até elas?” - foi a vez de Castilho perguntar.

O camarãozinho o ouvia com muita atenção.

“Lógico que posso!” - Gentil exclamou. Referindo-se a pequenininha água-viva, disse-lhes. - “Será uma enorme alegria para mim ajudá-la a reencontrar o seu grupo.”

Assim sendo, o tubarão-martelo se juntou ao Senhor Polvo e ao camarãozinho na nobre missão que assumiram. Não lhe custaria nada ajudar a pobrezinha. Ele deu meia-volta e foi nadando na frente dos três, indicando-lhes o caminho.


* * * * *

Nadaram relativamente pouco para que chegassem na Grande Rocha, que, conforme imaginavam, encontrava-se coberta de mexilhões.

Castilho, Senhor Polvo, Gentil e também a pequenininha não conseguiam avistar qualquer coisa que indicasse a presença das águas-vivas, mesmo olhando em volta e atentos a tudo que avistavam.

“Eu não estou vendo elas, Gentil.” - disse, Castilho, perguntando ao tubarão-martelo. - “Você está vendo as águas-vivas?”

Antes que Gentil pudesse responder, a pequenininha água-viva percebeu uma movimentação em um canto da rocha. Era uma água-viva do seu grupo que brincava de pique-esconde, despreocupada e rodeada pelos mexilhões.

“Eu estou aqui!” - chamou-a.

Senhor Polvo, Gentil e Castilho encararam a água-viva no mesmo instante, claramente sem entender o motivo do seu chamado.

“Que houve?” - quis saber, o polvo.

Ainda não haviam visto a água-viva brincando na rocha.

“Ela está ali!” - apontou, a pequenininha, extremamente alegre. E emendou. - “Eu estou vendo uma das águas-vivas do meu grupo! É ela mesmo, eu tenho certeza!”

Ao avistarem-na, foram todos ao encontro dela, que, por sua vez, ao reencontrar a pequenininha água-viva que havia se perdido do grupo e ver o polvo, o camarãozinho e o tubarão-martelo se aproximando, ficou muda inicialmente, sem qualquer reação. As duas se encararam por alguns instantes, receosas uma com a presença da outra, mas começaram a conversar:

“Oi, estou feliz de te ver novamente.” - cumprimentou-a, a amiguinha do Senhor Polvo e do camarãozinho.

“Oi.” - respondeu, a outra água-viva. - “Que aconteceu com você? Onde você estava?” - perguntou.

“Eu me perdi do grupo.”

Senhor Polvo, Castilho e Gentil, o bondoso tubarão-martelo, apenas assistiam a conversa das duas que pareciam duas pequenininhas e graciosas águas-vivas gêmeas.

“A gente estava te procurando.” - continuou, a água-viva, para a amiga que se perdera. - “Onde você estava?” - perguntou.

“Eu também estava procurando vocês.” - respondeu, a pequenininha água-viva, olhando para trás e vendo que o polvo, o camarãozinho e o tubarão-martelo acompanhavam de perto a conversa, como que esperando serem apresentados. - “Eles são meus amigos. Eles me ajudaram a encontrar você.” - completou, perguntando. - “Onde estão as outras águas-vivas?”

No segundo seguinte que a pequenininha fez a pergunta, o grupo com as demais águas-vivas se aproximou. Eram muitas e flutuavam majestosamente ao redor deles.

“Finalmente a gente te encontrou.” - suspirou, aliviada, uma das águas-vivas do grupo, à pequenininha que havia se perdido.

“Aonde você foi?” - perguntou, uma outra, preocupada.

“Eu não fui para lugar nenhum.” - a pequenininha água-viva respondeu, mais uma vez explicando porquê se separou do grupo. - “Eu me perdi; juro que não tive culpa. Veio uma correnteza e me levou para longe.”

As atenções das águas-vivas estavam tão direcionadas à pequenininha que pareciam nem notar que Senhor Polvo, Gentil e Castilho estavam presentes na Grande Rocha. Eles assistiam o reencontro do grupo, visivelmente orgulhosos por terem conseguido ajudá-las.

Assim que ouviu a explicação da pequena, uma terceira água-viva se aproximou.

“Oh, pobrezinha!” - lamentou. E quis saber. - “Você se machucou?”

Com doçura, a pequenininha respondeu que não.

Somente um pouco depois é que as águas-vivas notaram que não estavam sozinhas.


* * * * *

Mostrando-se apreensivas, as águas-vivas encurralaram Senhor Polvo, Gentil e Castilho por todos os lados, sinalizando assim para que dissessem o porquê de estarem ali. Afinal não sabiam se eles representavam uma ameaça à segurança do grupo. Estavam prontas para o ataque, porém, conforme a apreensão foi passando e vendo que nenhum dos três tinha o intuito de atacá-las, perceberam que não corriam perigo e tranquilizaram-se de uma vez.

“Olá, águas-vivas, como estão?” - Senhor Polvo as cumprimentou amistosamente. - “Desculpe a nossa falta de educação.” - sem esperar resposta, o polvo foi logo se apresentando e apresentando os amigos consecutivamente. - “Meu nome é Senhor Polvo, esse é o Gentil e esse é o pequeno Castilho.”

Não menos amigáveis, Gentil e Castilho então sorriram para as águas-vivas.

“Olá, como vão?” - retribuindo os cumprimentos, uma delas se apresentou e apresentou o grupo. - “Eu sou a líder das águas-vivas dos corais amarelos. Somos pacíficas e, se não querem nos fazer mal, também não precisam ter medo da gente. A gente estava procurando uma das nossas que se perdeu.”

Ao terminar a apresentação ela olhou carinhosamente para a pequenininha água-viva que, ainda contente por reencontrar o seu grupo, encontrava-se distraída brincando com as amiguinhas e os mexilhões. Castilho, por sua vez, bastante curioso em saber mais sobre aquelas águas-vivas, colocou-se ao lado de Senhor Polvo.

Disse, ele:

“A gente está feliz por ter encontrado a pequenininha. Não precisa agradecer. Foi uma honra ter conseguido ajudar.”

“Então vocês ajudaram ela?” - perguntou, a líder das águas-vivas, surpresa com a revelação do pequeno camarãozinho.

“Sim.” - assegurou, Castilho, orgulhoso. De pronto, ele explicou. - “A gente estava nadando perto de um recife quando ouviu a pequenininha chorando. Ela bem disse que havia se perdido do grupo.”

Senhor Polvo, ouvindo atentamente a explicação, lembrou-se que Gentil não estava presente no momento em que a encontraram e fez a correção:

“Nosso amigo, o tubarão-martelo, não estava no recife quando encontramos a pequenininha, mesmo assim sua ajuda foi muito importante para chegarmos até vocês.” - disse para a líder das águas-vivas. - “Ele se juntou a gente um pouco depois, mas foi decisivo para que nós as encontrássemos.”

Agradecido pela correção, Gentil acenou positivamente e o camarãozinho continuou a explicar. Contou do rápido encontro que tiveram com a Velha Tartaruga e disse, inclusive, sobre seu sonho de ser pirata. A líder das águas-vivas, ao fim da explicação, ficou tão agradecida por ajudarem a pequenininha que não achava um modo de retribuir, até que se lembrou do sonho do camarãozinho.

Rapidamente, lhe fez o convite:

“Seria maravilhoso se você pudesse viajar com a gente!” - exclamou, perguntando na sequência. - “Não deseja entrar para o nosso grupo?”

Surpreendido, o camarãozinho encarou Senhor Polvo sem saber o que fazer. Sempre foram muito amigos, quase irmãos, e nunca havia pensado em se afastar dele. Não encontrava o que dizer, tampouco pensar, mas que outra decisão poderia tomar o pequeno camarãozinho se desbravar os mares era o que ele mais sonhava na vida?

“Você acha que eu posso ser um de vocês?” - perguntou, Castilho, para a líder das águas-vivas.

“Sim, não tenho nenhuma dúvida disso.” - convicta, a água-viva assegurou. - “Nós não somos piratas, mas você pode viajar com a gente se quiser. Vai ser divertido e também vai aprender muita coisa nova que talvez não saiba.”

A resposta fez-se óbvia. Não havia mais tempo para pensar pois tratava-se da realização de um sonho. E sonhos, por mais pequenininhos ou ingênuos que pareçam, nunca devem ser ignorados. Em nenhuma hipótese! Castilho aceitou o convite.

Antes de ir, o camarãozinho voltou suas atenções para Senhor Polvo e ao amigo tubarão-martelo.

“Está na hora de partir.” - afirmou primeiramente ao polvo, dizendo. - “Agora, faço parte do grupo. Desisti de ser um peixe pirata, quero ser uma água-viva.”

Senhor Polvo, contente pelo amigo, limitou-se a desejar:

“Boa sorte, Castilho, tenho certeza que você será uma grande água-viva!”

O camarãozinho sorriu, agradecido, e voltou-se então para o amigo, o tubarão Gentil.

“Adeus.” - despediu-se, dizendo com descontração. - “Vou sentir saudades de você, seu grandessíssimo tubarão boboca.”

Gentil respondeu:

“Adeus, seu camarãozinho danado, e boa sorte. Também vou sentir saudades.”

Por fim, após o término das despedidas, Castilho foi ao encontro da líder das águas-vivas, que o levou para junto das outras, e partiram em viagem. Sem que nunca encontrasse um peixe pirata ou se tornasse um deles, Castilho logo se misturou ao grupo e, na companhia das novas amigas, viveu momentos inesquecíveis e incríveis aventuras pelos recantos mais encantados dos mares.

Um camarãozinho pequenininho nunca foi tão feliz da vida!

FIM.

20 comentários:

  1. Achei muito legal seu conto, quando ele terminou até imaginei como o Castilho aproveitou a viagem com as águas vivas e as aventuras que teve, parabéns pelo conto.

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    1. Obrigado, parceiro, impossível não imaginar, não é? rs

      volte sempre.

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  2. Que fantástica essa história!
    Já imaginei com ilustrações ou até um pequeno filme!
    Vou imprimir para meu primo, ele vai amar!

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    1. Thaís, pode compartilhar a história com ele.

      Estamos aqui para isso, rs!

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  3. Belíssimo conto.
    Meu filho viu as figuras e pediu para eu ler para ele...comecei a ler e ele dormiu. Amaha eu leio mais para ele.
    Parabéns!

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    1. Puxa, que legal que ele gostou!

      Obrigado pela visita e volte sempre!

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  4. Que belo exemplo de solidariedade, nessa aventura! Vou recomendar esse conto às amigas professoras!! Assim como a Thais, imaginei essa história ilustrada (minha neta é portadora de uma síndrome rara e ela aponta as figuras com o dedo, enquanto leio para ela).

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    1. Cidália, teu comentário foi um bálsamo p/ mim. Obrigado mesmo, nem sei o que dizer.

      Desejo muita LUZ à sua neta. Que Deus a ilumine!

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  5. Oiee
    Nossa, que conto mais incrível <3
    Uma história de aventura, um conto que poderia ser dito como infantil, mas que possue lindas lições que podemos levar pra vida.
    Você que escreveu?
    Achei um pouco triste o Castilho ir embora, mas pelo menos ele estará feliz. Desistiu de um sonho para outro bem mais real, e isso requer bastante coragem.

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    1. Oi, Thai, tudo bom? Obrigado pela visita. Também adoro este conto.

      Foi eu quem escreveu sim. Todos os contos e histórias postadas neste blog são de minha autoria.

      Volte sempre, rs.

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  6. Que conto mais querido! Não consegui parar de imaginar em como se podia tornar num livro infantil e quase que criei todas as ilustrações na minha cabeça. Muito bonito, como seria de esperar, vindo de si!
    Beijos

    Pseudo Psicologia Barata

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    1. Bia, amada, amiga, amante... dos livros, rs.

      Obrigado por mais esta visita. Volte sempre!

      Quem sabe um dia a série Manifestos da Infância não ganha as páginas de muitos livros, rs.

      Abraço.

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  7. Fui transportada para o fundo do mar em uma história tão meiga e adorável *-*
    O camarãozinho Castilho e o Senhor Polvo são aqueles amigos queridos que encantam os leitores logo de cara. Muito criativo! Adorei demais! Vou até marcar o link nos favoritos ;)

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    1. Ana Paula, obrigado pelo maravilhoso comentário. Valeu mesmo! Escrever este conto foi uma delícia para mim também, pode ter certeza disso, rs.

      Outros contos iguais a este surgirão no blog e Deus me dê a honra de ter novos comentários seus por aqui, rs.

      Volte sempre!

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  8. Olá!!

    Adorei o conto, parabéns!
    Fiquei imaginando toda história e pensei que daria um livro com belas ilustrações.
    Você escreve muito bem, com o conto mostrou um bom exemplo de amizade, solidariedade e mesmo que um sonho não seja possível, podemos realizá-lo de outra forma e mesmo assim ser feliz.

    Fernanda Yano

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    1. Fernanda, como vai? É exatamente isso que tentei transmitir com a história, que sonhos podem mudar e não necessariamente serem ruins, rs.

      Volte sempre.

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  9. Muito bom o seu conto, adorei mesmo.Parabéns!

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  10. Que coisa mais linda cara, complexo e intrigante , porém maravilhosa demais ...
    Passou um curta metragem na minha mente ...
    Bianca Compartilhando Leitura

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    1. Elizabeth, muito obrigado pelos elogios.

      Fico contente de verdade que tenha curtido o conto.

      O conto é muito fácil de ser imaginado mesmo.

      Quero mais comentários seus por aqui, kkk

      abraço *]*

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