terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

Processo Criativo de Eliziane Dias: CONTO ACORDES.


Olá, pessoal, supernovidade no blog!

Hoje, vou falar do processo de Eliziane Dias em seu conto "Acordes". O conto foi escrito e publicado no MISS (Menina Irreverente Sabida e Socrática). Pode ler o conto clicando AQUI.

Movo-me para direita em direção à janela. As trevas haviam ganhado a estrada lá fora. Levanto-me e vou ao banheiro mesmo sem vontade e quando volto, fico na mesma posição tentando imaginar uma vida perfeita para mim e inventando possibilidades de situações inesperadas e quase impossíveis na minha viagem. E é assim que a fantasia me tira do estado agonizante de tédio.

Pois então, sem mais delongas, começamos com algumas perguntas que fiz à autora:

Rob Camilotti: Quando e como surgiu a ideia do conto?
MISS: Um amigo postou uma foto de um ambiente lindo. Quando eu vi aquela foto, eu fiquei encantada e comecei a pesquisar sobre aquele local. Na hora, surgiu a ideia de escrever algo sobre ele. Já que eu não podia estar lá, eu precisava mandar alguém. E no caso eu enviei o personagem à esse lugar lindo que é Capitólio. O conto só surgiu quando meus olhos tocaram aquela fotografia linda do Lago de Furnas.

Rob Camilotti: Sobre o que é o conto?
MISS: Sobre um músico que ama muito o que faz, mas que não consegue se manter vivendo de música. O que é muito comum, não é? Quem ama a arte e quer viver do que ama, acaba encontrando muitas dificuldades. Talvez ele tenha cansado.

Rob Camilotti: Que parte do conto mais gosta? Tem algum trecho preferido?
MISS: Eu amo a parte que ele começa a sentir a música e passa a tocá-la de forma imaginária. Juro que me divirto lendo esse trecho. Vai por mim... Todos os músicos do mundo são loucos assim: tocam instrumentos musicais imaginários. Ele começa a lembrar de uma música e não consegue conter-se. Fica inquieto! Na verdade, isso acontece com qualquer um que goste muito de música. Quem nunca fingiu estar fazendo um solo de guitarra atire a primeira pedra!

Rob Camilotti: Que acredita ser o ponto forte do seu conto? Que ele tem de melhor?
MISS: Eu acredito que seja a forma como o narrador-personagem fala sobre sua viagem. Isso instiga às pessoas ao desejo de conhecer Capitólio.

Rob Camilotti: Teve muitas dificuldades em escrever o conto? Bloqueios? Quais?
MISS: Fiquei muito assustada com a rapidez que o escrevi. Goulart Gomes, o autor de Poetrix, diz que a escrita é 10% inspiração e 90% transpiração. E eu transpiro muito para escrever qualquer coisa, mas dessa vez foi rápido. Embora eu acredite que o meu amor pela música, e por ter vindo de uma família de músicos, tenha me ajudado bastante. Sei bem das dificuldades.

Rob Camilottti: Quem é(são) o(s) protagonista(s) do conto?
MISS: Só sabemos que ele é um músico. Ou pelo menos foi.

Rob Camilotti: Gosta do resultado final do conto? Quanto?
MISS: Gosto! De 0 à 5, eu gosto 3, 5. Eu sou muito crítica em relação ao que escrevo.

Rob Camilotti: Para encerrar, tem alguma coisa que gostaria de dizer sobre o conto? Alguma curiosidade? Uma confidência?
MISS: Bom, eu acredito plenamente que devemos nos esforçar para sermos os melhores naquilo que amamos fazer, porque se trabalhamos com o que gostamos, a vida se torna mais significativa. E é possível viver do que se gosta, ainda que seja difícil, mas... a decisão que o personagem toma em relação a sua carreira e que se revela no fim do conto, é o que mais se aproxima da realidade. E saber que muitas vezes permitimos que a realidade mate nossos sonhos, é assustador.

Minhas mãos se agitam em minhas pernas e, deixando o livro no banco ao lado, começo a tocar um piano invisível quando o blues de John Lee Hooker começa a reverberar em minha memória, depois meus dedos passam a dedilhar as cordas de uma guitarra imaginária. Em breves instantes eu movo os punhos fechados com baquetas e uma bateria imaginária à minha frente também. Bato os pés no chão acompanhando o compasso. Conforme a canção cresce, meus ombros e cabeça tomam o ritmo de forma enérgica e apaixonada. Uma pantomima executada tranquilamente já que ninguém conseguirá assistir meu show particular e enlouquecido. A escuridão é tão presente que com ousadia eu mordisco o canto do lábio inferior, dou uma piscadela e aponto os dedos indicadores para frente, complacente com a aprovação da platéia.

Obrigado, Eliziane!

É isso, pessoal, espero que tenham gostado da entrevista com a autora. Espero que tenha conseguido mostrar o processo criativo que a levou à escrita do conto "Acordes".

E você, curte contos? Compartilha com o blog, nos comentários!

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

NAPOLEÃO E O MUFLÃO FRANCÊS: Segunda Parte do Capítulo.


Nesse meio tempo, a raposa de fogo espreitava cada mínimo gesto de Napoleão, pois não confiava nele, enquanto que Pedro, o muflão montanhês, continuava mostrando indiferença aos latidos que Boris lhes direcionava.

“Quieto, seu malvado!” - irritada, exigiu, Julia, ao cão búlgaro, que, dessa vez, a obedeceu, afastando-se de Pedro e indo para perto da raposa.

O imperador francês logo em seguida deu as costas às meninas e caminhou vagarosamente até o muflão, onde, com certa dificuldade, montou no lombo do animal.

“O Pedro seguiu a gente até aqui!” - exclamou, Klara, à amiga.

Devido ao tumulto, a pequena búlgara ainda não o havia visto.

“Quem é Pedro?” - perguntou, Napoleão, de cima do muflão.

“Pedro é o nome do nosso muflão.” - Julia respondeu.

“Está enganada, menina.” - retorquiu, Napoleão, sem perder o tom solene em sua voz. - “O nome dele é Luc.” - corrigiu-a.

“O nome dele é Luc?” - Klara se perguntou em voz alta, estranhando o nome.

“Exatamente.” - Napoleão respondeu. - “Esse é o nome que eu escolhi para ele."

“Mas a gente achou ele quando atravessou a ponte.” - a menina ruiva protestou.

“E a gente deu o nome Pedro para ele.” - complementou, Klara, referindo-se ao muflão da montanha.

“Que seja, chamem-no como quiserem.” - Napoleão as ignorou. - “Não me importa onde vocês o acharam, nem aonde ele as levou.” - vaidoso, declarou. - “O nome dele é Luc e assim será no dia de hoje, de amanhã e de todo o sempre.”

Nada puderam fazer para que o imperador voltasse atrás em sua decisão. Napoleão Bonaparte deu um tapa no lombo do muflão e Luc, então, começou a marchar, voltando a atiçar a euforia de Boris.

Julia, imediatamente, estreitou os olhos para o cão pastor e se desculpou, dizendo ao imperador francês:

“Perdoa ele, moço. O Boris não está acostumado com gente estranha.”

“Eu agora sou um estranho?” - perguntou, Napoleão, que parou no mesmo instante.

Mesmo que por uma inocente menina, ser classificado como estranho soou ao imperador como um grave insulto.

“Sim, um estranho.” - respondeu, Julia, normalmente. - “Afinal, a gente não te conhece.”


CONTINUE ACOMPANHANDO A HISTÓRIA NAS PRÓXIMAS POSTAGENS.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

Conto: Uva Verde.


Dois feiticeiros, discípulos de Merlim, iniciaram uma vagarosa travessia pelo deserto em busca do fortalecimento de suas magias; uma travessia que exigisse, tanto de um como do outro, resistência física, uso consciente de feitiços e força de vontade de não querer desistir. No meio do caminho, depararam-se com um andarilho sentado aos pés de uma árvore açoitada pelo clima árido, próxima de um lago seco.

“A gente vai falar com ele?”

“Ele está sozinho, não há mau em nos apresentar.”

Os feiticeiros caminharam até o andarilho e viram que ele penava gravemente por causa do calor extremo, parecendo dar seus últimos suspiros.

“Não foi uma boa ideia um homem sem provisões ou recursos caminhar pelo deserto. Precisa da nossa ajuda?” - um deles se colocou na sua frente.

“Mas do que uma má ideia, caminhar pelo deserto assim foi uma completa estupidez.” - o outro também se aproximou então. - “Não tem água e está morrendo de sede, não tem pão e está com fome. Está fraco e agora vai morrer.”

O andarilho encarou os dois feiticeiros com orgulho de si próprio, altivo. Mesmo assim, os feiticeiros continuaram. Disseram:

“Estamos esperando você implorar por socorro.”

“Não vamos ajudá-lo sem que peça com fervor.”

Foi então que o andarilho, com a voz fraca, ensaiou a fala:

“Eu não quero a ajuda de vocês.”

Os feiticeiros se entreolharam, inabaláveis. Sabiam que isso não era verdade.

“Podem ir embora.” - o andarilho completou.

Os feiticeiros deram meia-volta, porém, no que começaram a se afastar da sombra da árvore, voltaram a se colocar diante do andarilho.

“Não podemos deixá-lo aqui.” - um dos feiticeiros disse. - “Seremos cúmplices de um assassinato se deixarmos você morrer. Seremos responsáveis pela sua morte, o que nosso Mestre, Mago e Profeta Merlim não aprovaria.”

O andarilho encontrou forças para contra-argumentar:

“Isso não é verdade.” - murmurou já quase sem voz. - “Sou um homem livre, sou o responsável e o dono do meu destino. Se for da vontade do deserto que eu morra, a responsabilidade também terá sido minha ao ter permitido.” - voltou a encará-los com altivez. - “Ainda que feiticeiros, não são melhores do que eu. Me deixem em paz com meu futuro.”

Ignorando por completo o que o homem havia dito, os feiticeiros fizeram materializar-se em suas mãos dois copos cheios de um líquido verde. Era suco de uva verde, o preferido do andarilho.

“Podemos lhe dar esses sucos, mas tem que pedir com fervor.”

“Sabemos que você quer.”

O andarilho não tirava os olhos dos copos que transpiravam com o calor. Pensou, repensou, chegou a uma decisão para depois recuar e voltar a se decidir pela segunda e última vez.

“Está bem, eu aceito.” - disse.

Os feiticeiros responderam:

“Tem que pedir com fervor.”

“Não estamos convencidos de que realmente quer.”

Foi então que, finalmente, o andarilho implorou:

“Por favor, eu quero muito! Eu preciso destes sucos! Não sei como adivinharam que a minha fruta preferida sempre foi uva verde! Por favor?”

Em uma reação inesperada e não menos surpreendente para o andarilho, os dois feiticeiros viraram os copos para baixo, deixando os sucos se derramarem no chão. Derrotado, o andarilho disse então:

“Havia dito que não queria a ajuda de vocês porque desconfiei que fizessem exatamente isso. Vocês são maus. Finalmente, os dois lobos se revelaram frente a sua presa.”

Em silêncio, os dois feiticeiros sorriram fraternalmente em resposta, como quem contradiz o que acabara de fazer. Não haviam derramado o suco no chão por maldade, pelo contrário, tiveram uma nobre intenção de ajudar o andarilho de verdade. Reconheceram muita dignidade naquele homem que se encontraria com a morte. Os sucos de uva verde penetraram nas areias do deserto e fizeram com que o lago seco se enchesse de uma água limpa e cristalina e a árvore açoitada pela aridez do deserto se revitalizasse, ganhando folhas e cachos de bolinhas verdes. Tratava-se de uma frondosa videira.

Recuperando-se, o andarilho pôde matar a sede e a fome na caça dos bichos que se aproximaram do lago para se refrescarem, e seguiu viagem então. Muito antes disso, os dois feiticeiros já haviam ido embora.

Fim.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

NAPOLEÃO E O MUFLÃO FRANCÊS: Primeira Parte do Capítulo.


O mal humor só aumentava conforme, desconfiado, ele encarava as duas meninas que dormiam pesadamente sobre as almofadas.

“Quem são essas meninas?” - perguntou-se, o imperador, pensativo.

Vaidoso, Napoleão Bonaparte mostrava ser muito importante pelo jeito vagaroso com que se aproximou de Julia e Klara. Com sua alinhada vestimenta militar, trazia consigo uma espada, minuciosamente pendurada na altura da cintura, além de Pedro, o muflão que as duas meninas haviam deixado para trás, no acampamento. O imperador francês, mesmo com sua baixa estatura, conseguia a proeza de ficar ainda mais atarracado, quase sem pescoço, ao parar e se curvar diante das almofadas, atento, fazendo pose imperial.

Boris, por sua vez, novamente eufórico, ao vê-lo se aproximar das meninas, começou a latir e rosnar.

“Cale-se, peste peluda!” - exigiu, Napoleão, ao cão pastor, que, em resposta, pôs-se a latir ainda mais alto.

Sem demora, Julia acordou em meio aos latidos. Além de se deparar com Napoleão, olhando-a com esnobismo e menosprezo, logo viu o muflão, que mantinha inabalável indiferença ao escândalo que o cão fazia.

“Boris, seu malvado!” - a menina ruiva o repreendeu.

O cão, porém, sequer pareceu ouvi-la. Continuou latindo e rosnando para o imperador e o muflão.

Não podendo ignorar tamanho escândalo, Klara acordou em seguida, mal conseguindo abrir os olhos para ver o que estava acontecendo devido a intensa claridade do Sol que inundava seu rosto.

Ela se sentou no amontoado de almofadas e ouviu Napoleão perguntar para Julia:

“Então, a peste se chama Boris?”

A pergunta soou em tom de sarcasmo e rudeza.

“O Boris não é nenhuma peste.” - rebateu, Julia, visivelmente ofendida. - “Ele é o meu cão pastor e eu gosto muito dele.”

“Gosta dele?” - o imperador a provocou.

“Sim.” - Julia respondeu.

“Que seja.” - bufou, Napoleão, em tom de tédio.

Apesar de parecer se divertir com o nervosismo da menina, ao que percebeu o olhar distante de Klara, ele voltou as atenções à pequena e perguntou:

“E você, menininha, o que faz nesse fim de mundo?”

Intimidada, Klara olhou para o lado, buscando resposta na amiga.

“Ela está perdida.” - Julia respondeu por ela.

“Perdida?”

“Sim.” - confirmou, Klara, em voz quase inaudível. - “A minha vovó me abandonou.”

“É uma pena.” - disse, Napoleão, insensível. E acrescentou. - “Lamento não ter tempo para ajudá-la.”


CONTINUE ACOMPANHANDO A HISTÓRIA NAS PRÓXIMAS POSTAGENS.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

Velislava, a Raposa de Fogo (Parte 03).


Julia, Klara, o cão pastor e a raposa de fogo contornaram a trilha de terra e desceram a montanha pelo mesmo caminho na qual o muflão havia percorrido para chegar ao acampamento. Pouco caminharam e Klara logo parou.

“O que foi?” - Julia perguntou.

“A gente esqueceu o Pedro no acampamento.” - respondeu, a pequena, ao se lembrar do muflão.

Diante da resposta, Julia olhou rapidamente para Velislava, que retribuiu o olhar com certa indiferença à preocupação que Klara externava.

Era como se Pedro não pudesse ir com elas.

“Ele não vem com a gente.” - lamentou, Julia.

“Por que?” - Klara quis saber.

“Porque ele foi adotado pelos anjos.” - Julia mentiu.

Todos, então, voltaram a caminhar.

Klara não conseguiu disfarçar sua ansiedade em chegar na casa onde a amiga morava. Assim que chegasse, ía dormir e acordar o mais cedo que pudesse para brincar com ela até se cansar.

“Falta muito para a gente chegar?” - perguntou, Klara, com sono.

“Um pouco.” - Julia respondeu.

Conforme caminhavam montanha abaixo, a claridade do Sol diminuía, anoitecendo a paisagem e fazendo com que apenas as chamas da raposa iluminassem o caminho. E tal escuridão só fazia intensificar o sono que ambas sentiam.

Mais à frente, Klara avistou um amontoado de almofadas jogadas num canto da mata e que pareciam ser muito fofas.

“Elas estavam aqui antes?” - perguntou, Klara, à amiga, referindo-se às almofadas.

Julia respondeu que não.

Eufórico, Boris saltou encima delas e se deitou, confortavelmente, num canto do amontoado.

“Além de malvado, ele é muito intrometido.” - Julia resmungou, ao ver o cão pastor deitar sobre as almofadas.

O mesmo fez Julia e Klara. Cercadas pela escuridão da mata e com sono, as duas amigas pularam nas almofadas, bem perto de Boris, deitaram-se e adormeceram, iluminadas somente pelas chamas da imponente raposa búlgara que as protegia.


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segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

Velislava, a Raposa de Fogo (Parte 02).


“Não precisa ter medo.” - a menina ruiva tentou pôr fim ao pavor de Klara, assegurando. - “Ela não vai te fazer mal.”

Boris, que havia se afastado de sua dona para se ir atrás de Velislava, enfim, reapareceu, saindo da mata no mesmo lugar onde a raposa havia saltado, e se aproximou de Julia.

“Onde o senhor estava, seu malvado?” - perguntou para o cão, repreendendo-o. - “Fique sabendo que me deixou muito preocupada. Nunca mais saia de perto de mim!”

O cão pastor protestou, latindo baixo, e, sem externar quaisquer medos ou receio, se aproximou da majestosa raposa.

Por mais que se esforçasse, Klara não conseguia enxergar uma figura materna em Velislava. - “Ela é uma raposa e Julia é uma menina.” - pensou, intrigada, enquanto a observava. - “Como pode ser mãe dela?” - perguntou-se. Foi, então, que se convenceu de que Julia estava sendo sincera quando dizia que a fera era sua mamãe no momento em que, para seu total horror, ela se colocou diante da raposa e, sem que a pequena a ouvisse, pediu:

“Não machuque ela, mamãe.” - logo em seguida, a menina ruiva acariciou o focinho de Velislava, uma das poucas partes do seu corpo avermelhado que não expelia fogo, e sussurrou. - “Ela é a única amiga que eu tenho.”

Carinhosa, a raposa de fogo respondeu, lambendo o rosto da menina. O gesto causou enorme surpresa em Klara, que, imediatamente, arregalou os olhos ao ver tamanha docilidade.

“Pensando bem, ela não parece ser malvada.” - disse, a pequena búlgara, que, enfim, teve a certeza que Velislava não era uma ameaça. Ela encheu-se de coragem e se aproximou, perguntando para Julia. - “O fogo não machuca ela?”

“Não.” - Julia respondeu. Convicta, garantiu. - “O fogo só machuca quem tenta fazer mau para ela.”

Embora mais calma, a menina de Gabrovo não conseguia desviar seu olhar de medo da raposa.

“Quer fazer carinho nela?” - perguntou, Julia.

“Eu acho que ela não vai deixar.”

“Ela vai deixar, sim.” - Julia insistiu, dizendo. - “Minha mamãe já sabe que você é minha amiga e que não vai me fazer mau.”

Klara, então, rompeu o medo e acariciou o focinho de Velislava, que respondeu, igualmente carinhosa, lambendo o rosto da menina.

“Sua mamãe é muito bonita!” - exclamou.

O que tinha por medo, rapidamente, se esvaiu. Klara, vendo-a de perto, se mostrou ainda mais impressionada com a pelagem de Velislava, que, em momento algum, parava de expelir fogo. A essa altura, os incontáveis balões coloridos que elas haviam visto no acampamento, aos poucos, iam desaparecendo, revelando um céu cor de abóbora e luminoso. Já era fim de tarde.

O tempo, mais rápido do que o habitual, parecia ter ritmo próprio e passou rápido.

“Está escurecendo.” - disse, Julia, à amiga, vendo o Sol se esconder nas montanhas. - “A gente vai para a minha casa e procura a sua vovó amanhã, o que acha?” - perguntou.

“Está bem.” - Klara aceitou.


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sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

Conto: Cabeça de Cachorro.


O amor é assim na vida mas não é com todos.

Antes que a madrugada desse passagem a mais um dia e a primeira alma viva surgisse para a missa na Igreja Matriz São Francisco de Sales, construção principal da Rua do Leite, Barilari abri sua pequena banca de jornais e revistas. O dia anterior havia sido fraco em clientela, quase não havia vendido, estava confiante de que venderia mais no entanto, que sobraria algum trocado para pagar as contas atrasadas da casa e para fazer um cineminha, no próximo final de semana, com a mulher e os cinco filhos. Até que o primeiro cliente na demorou a chegar: um inocente e pueril menino na verdade cuja péssima aparência dava a entender que vivia na rua. O menino caminhou até a frente da banca e se pôs a olhar para as feições cansadas de Barilari emolduradas por um gradeado.

De início, Barilari não percebera sua presença, no que o percebeu por volta de uns quinze minutos depois, cheio de bondade no coração, foi para fora da banca para falar com o menino maltrapilho. - “Pois não, garotinho, o que procura? Está perdido? Como se chama?” - o menino nada respondeu. Deu-lhe as costas, caminhou até um banco de cimento próximo e lá ficou. Barilari retornou para dentro da banca, de onde, não conseguindo deixar de se mostrar preocupado com o menino, ia olhar para o banco vez ou outra para ver se continuava lá, sentado e solitário. - “Está com fome? Tem sede?” - continuava sem falar com Barilari.

Foi então que o menino se levantou e caminhou até a banca, onde Barilari separava uns jornais rasgados das revistas de esporte.

“É Gustavinho.”

“Que foi que disse?”

“Disse que meu nome é Gustavinho.”

“Então, você fala!” - Barilari comemorou. - “Gustavinho?” - buscou confirmação.

“Sim.”

Barilari guardava, em uma mochila, dois sanduíches que comeria no almoço. Ofereceu-os junto com uma garrafinha de suco de laranja e outra de água. O menino assassinou a fome e a sede ali mesmo, sentado na entrada da pequena banca de jornais. Depois que comeu os dois sanduíches e tomou toda a garrafinha de água e a de suco de laranja, Gustavinho ia se levantando para ir embora quando Barilari perguntou:

“Você mora e dorme onde, garotinho?”

“Eu moro onde der para eu morar, não tem importância, e durmo onde ninguém pode ficar me olhando. Ninguém gota de gente vendo a gente dormir, não é verdade? Aqui na praça, ali na porta do banco, onde der.” - Gustavinho voltou a se sentar na entrada do banco.

Depois da resposta, Barilari teve a inequívoca confirmação de que o menino vivia realmente nas ruas, conforme havia concluído. Imediatamente, encarou-o com doçura, zelo e carinho.

“Também não gosto de ser observado dormindo. Ninguém gosta, você tem razão. Posso lhe fazer companhia por hoje?”

Gustavinho acenou que sim com a cabeça.

“Nunca te vi na praça e olha que faz anos que trabalho aqui. Engraçado, não acha Gustavinho?”

“Talvez.” - o menino respondeu. - “Eu sempre vou de um lugar para o outro todo dia e toda hora. Qual é o nome dela?”

“Dela, quem?”

“Da praça, ora! Onde eu disse que dormia!”

“Praça da Rua do Leite.” - Barilari respondeu. - “Bom, na verdade, a praça não tem nome, não. Nós é que a chamamos de Praça de Rua de Leite porque fica na Rua do Leite. E aquela é a Igreja Matriz São Francisco de Sales.” - apontou para a construção que se destacava no centro da praça.

“Construíram uma igreja em uma praça que não tinha nome?”

“Sim.” - Barilari sorriu com a ingenuidade do menino.

“Então, se aquela é a Igreja Matriz São Francisco de Sales e a igreja fica dentro da Praça da Rua do Leite, o nome da praça deveria ser Praça da Igreja Matriz São Francisco de Sales e não Praça da Rua do Leite, não é verdade?”

“Acha mesmo isso?” - Barilari incentivou-o para que continuasse argumentando.

“Sim.” - Gustavinho garantiu. - “Praça da Igreja Matriz São Francisco de Sales é um nome muito comprido, mas é mais bonito. Praça da Rua do Leite é um nome mais fácil de falar, mas ninguém lembraria.”

“Tem toda razão. Você é um menino muito inteligente, Gustavinho.”

O homem e o menino ainda conversavam interessadamente sobre a praça até que, momentos depois, uma mulher veio caminhando até a banca.

“Que deseja, senhora?” - Barilari se apressou em atendê-la.

“Um jornal, por favor”

“Qual desses a senhora quer?” - indicou um mostruário na parte de fora da banca.

“Esses não, quero o mais velho que tiver.”

Barilari apanhou um jornal embaixo dentro do balcão que havia pegado para ler no dia anterior e mostrou à mulher.

“Pode ser esse?”

“Esse é mais velho que você tem?”

Barilari respondeu com educação:

“Sim, senhora.” - Barilari explicou educadamente. - “Geralmente, quem compra jornais gosta de ler as notícias do dia. É para isso que servem: para contar que acabou de acontecer ou está acontecendo. Coisas da modernidade, sabe?”

Convencida de que o jornaleiro estava errado, a mulher replicou:

“Bobagem. Os melhores jornais são os antigos, pode acreditar, porque aí sim é que a gente sabe se ele é sério ou não. Repito, bobagem! Como jornaleiro, já devia saber disso.”

Barilari não quis discutir. Fez com a cabeça que concordava com a mulher, que, por sua vez, ao ver que Gustavinho a observava com especial atenção, mudou de assunto, perguntando para Barilari.

“Esse garotinho bonito é seu filho?”

“Talvez.”

“Talvez sim ou talvez não?”

“Talvez sim. É um filho de alma que eu acabei de ganhar. O nome dele é Gustavinho.”

A mulher se dirigiu ao menino.

“Olá, Gustavinho!”

“Olá, dona.”

“Dona não, por favor! Pode me chamar de Vânia.”

“Vânia?”

“Vânia, isso mesmo.”

“Certo então, vou te chamar de Vânia, Vânia.”

“Obrigada, Gustavinho.”

“De nada, Vânia.”

Vânia voltou a se dirigir à Barilari, que enfileirava uma porção de revistas dentro da banca.

“Então, senhor jornaleiro, tem o jornal antigo para me vender?”

“Infelizmente, não senhora Vânia, no entanto, já que a senhora precisa tanto de um, pode voltar amanhã que eu trago alguns que tenho guardado em casa, e sem falta. Pode ser?”

“Sim, obrigada, senhor jornaleiro.”

“De nada, senhora.”

A mulher se virava para ir embora com um certo ar de vitória no rosto quando Barilari, de um modo descontraído e urgente, chamou-lhe a atenção.

“Senhora!”

“Sim?”

“Me chamo Barilari, caso esteja interessada em saber o meu nome.”

“Obrigada pela informação, senhor Barilari. Amanhã eu volto para comprar o jornal antigo.”

“De nada.”

E a mulher se afastou, indo embora.

Barilari e Gustavinho atravessaram o dia fazendo companhia um ao outro. Ao chegar a noite, Barilari fechou a banca e pegou o ônibus que parava em um ponto na praça para voltar para casa, enquanto que Gustavinho adormeceu ali mesmo, na entrada da banca, como quem, com absurda falta de realidade, imaginou protegê-la de assaltantes e de vândalos.

Vânia retornou cedo do dia seguinte conforme prometera. Chegou tão cedo que Barilari ainda não havia aberto a banca e o menino Gustavinho dormia na entrada.

Cumprimentou-o:

“Bom dia, Gustavinho.”

Sonolento, Gustavinho respondeu:

“Bom dia, dona.”

“Dona não, por favor. Esqueceu-se que meu nome é Vânia?”

“Não.”

“Não?”

“Não.”

“Por que não me chamou pelo nome então?”

“Mania e preguiça.”

“Você é pequeno demais para ter mania e também não trabalha que nem gente grande para ter preguiça, não acha?”

“Talvez.”

“Talvez?”

“Talvez, dona Vânia. É que dona é mais fácil de falar e me esqueço as vezes.

“Você é muito pequenininho para se esquecer das coisas, não acha?”

“Talvez.”

“Talvez sim ou talvez não?”

“Talvez sim.”

Ainda sentado na entrada da banca, Gustavinho se espreguiçou, espantando o resto de sono que ainda sentia e, imediatamente depois, olhou para baixo, para os pés de Vânia, e viu dois detalhes que julgou inusitados: os sapatos e as meias estavam trocados, as cores e os modelos não combinavam.

“É a última moda em Paris.”

“Em Paris?”

“Sim.”

“Mas é estranho, dona.”

“Não se diz estranho, se diz diferente! E o meu nome é Vânia, já disse.”

“A senhora gosta de ser diferente?”

“Sim, todo mundo gosta.”

“Todo mundo?”

“Todo.”

“Eu também?”

“Sim, só que não sabe.”

“Não sei?”

“Não sabe.”

No minuto seguinte, Barilari desceu de um ônibus e veio caminhando em direção aos dois. Não esperava rever Vânia tão cedo.

“Bom dia, senhora Vânia. Bom dia, Gustavinho.”

Foi cumprimentado de volta.

“Veio buscar os jornais antigos?” - perguntou então para a mulher.

“Sim, por quê? Se esqueceu?”

“Não, eu trouxe. Estão aqui, dentro da pasta, pode ficar com todos. É cortesia da casa.”

“Disse que queria comprá-los, não disse?

“Sim, mas...”

“Quanto custam?”

“Bom, foi difícil arranjá-los mas consegui nove jornais publicados no ano passado” - colocou uma pilha de jornais velhos sobre o balcão. - “Custam cinquenta centavos. É promoção.”

“Tudo isso? Está caro.”

“Reclamou quando disse que seriam de graça, agora, reclama do preço! Quanto pagaria por eles então?”

“Quarenta e nove centavos.”

“São seus!”

“Certo, aqui está o dinheiro.” - entregou ao jornaleiro um nota de um real que logo foi guardada por ele embaixo de uma pilha de revistas. - “Vou deixá-los na banca, mais tarde, volto para pegá-los.” - emendou.

“Certo.” - Barilari não fez objeção.

O menino Gustavinho, ao tempo em que Barilari não conseguia disfarçar a curiosidade em vê-la tão interessada naqueles jornais velhos, foi se afastando da banca, ao ir atrás de um cachorro de rua, até que desapareceu. Havia se cansado da companhia daqueles dois.

“Preciso deles para analisar o futuro.” - disse, Vânia, para Barilari, referindo-se aos jornais.

“Analisar o futuro?”

“Sim, este é o meu trabalho. Já consegui impedir a volta da Segunda Guerra Mundial por duas vezes.”

Barilari, no momento seguinte, notou a ausência de Gustavinho.

“Aonde ele foi?”

“Quem?”

“Ora quem, o menino que estava aqui!”

“Não. Não. Não sei, não.” - Vânia pensou um pouco. - “Juro que não sei. Será que ele não entrou na igreja?”

“Talvez.”

“Talvez sim ou talvez não?”

“É provável que sim.”

Vânia e Barilari, tão logo entraram na Igreja Matriz São Francisco de Sales, depararam-se com um outro menino, só que esse diferente de todos que já haviam visto pela vida inteira, sentado na última fileira de bancos. O menino latia sem parar e tinha a cabeça de um cachorro. Não chorava ou falava, latia igual a um cãozinho perdido de seu dono. Longe de sentir medo ou receio, Vânia se sentou no banco da igreja e o menino com cabeça de cachorro aconchegou-se em seu colo; já Barilari, encantado diante de tamanha docilidade, limitava-se em observá-lo. Ainda na igreja, deram ao menino o nome de Francisco em homenagem a outro santo, Francisco de Assis.

“Que você quer fazer agora, Francisco?” - Barilari o perguntou.

“Quer dar uma volta na praça?” - Vânia emendou.

O menino com cabeça de cachorro latiu, dando-lhes a entender que a resposta era sim. Seguraram então as mãozinhas miúdas de Francisco, os três deixando a igreja ao mesmo tempo, e levaram-no para passear. Francisco que, pelo que parecia, sempre fora metade menino e metade cachorro, ao atravessar a porta e pisar na praça, correu até uma árvore, onde só não fez xixi porque teve a atenção chamada por Vânia, que disse:

“Meninos educados vão ao banheiro e não fazem xixi na rua. Você é um menino educado, Francisco?”

“Francisco é educado, mas também é metade cachorro.” - Barilari respondeu por ele. - “Talvez muito mais cachorro porque tem cabeça de um.”

Vânia sorriu para o menino, concordando com Barilari.

Cheio de disposição, Francisco pôs-se a brincar de correr em volta dos dois, que também entraram na brincadeira. Com algazarra, imitavam tudo que o menino com cabeça de cachorro fazia, correndo atrás dele. Foi então que o prestativo bispo Dom Frutuoso, que visitava a igreja semana sim e semana não, atravessou a praça, se aproximou dos dois e, intrigado com o que viu, perguntou o que faziam. Havia visto que eles pulavam sozinhos e depois corriam de um lado para o outro sem razão aparente. Vânia e Barilari responderam que estavam brincando com Francisco, um menino que tinha cabeça de cachorro. O bispo perguntou onde estava o tal menino, pois não o enxergava. De pronto, Barilari pediu que olhasse para baixo para que o visse deitado no chão, perto dos seus sapatos velhos; contou-lhe que devia estar exausto de tanto correr e pular. O bispo atendeu o pedido. Olhou para baixo, mas não viu o menino mesmo assim. E nem o podia ver afinal já que Francisco não existia.

Dom Frutuoso concluiu o que já se dava como óbvio desde os primeiros momentos: tratavam-se de dois doentes mentais. - “Pobres coitados!” - exclamou. Solidário, o bispo fingiu participar da brincadeira. Disse para Vânia e Barilari que um outro cachorrinho havia corrido para dentro da igreja sem que eles percebessem, e sugeriu que fossem todos atrás dele. Vânia e Barilari concordaram prontamente. Os três entraram na Igreja Matriz São Francisco de Sales, onde, com perspicácia, o bispo conquistou a confiança dos dois e, a partir de então, providenciou que se internassem em uma clínica psiquiátrica, onde vieram a ser tratados com humanidade. Prometeu-os que, na instituição, encontrariam outros meninos com cabeça de cachorro.

“Receberei jornais antigos?” - Vânia perguntou. - “Preciso deles.”

“Certamente que sim, minha filha.” - Dom Frutuoso prometeu.

FIM.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

Velislava, a Raposa de Fogo (Parte 01).


De mãos dadas, as duas amigas foram se afastando do acampamento na medida em que o procuravam por uma trilha de terra.

“Aonde será que ele foi?” - perguntou-se, Julia, em voz alta.

Ao mesmo tempo que, atentamente, observava em volta, Julia também olhava para Klara, que se mostrava igualmente preocupada. Boris desaparecera de repente, silenciosamente, e com todo o mistério.

“Tem alguma coisa se mexendo ali.” - indicou, Klara, um ponto específico na mata.

Julia voltou as atenções na direção que a amiga apontou e logo foi surpreendida. O verde da mata se acendeu e uma raposa em chamas, majestosamente, saltou na frente delas como uma fera de fogo.

“É a minha mamãe, Velislava!” - exclamou, aliviada, ao ver que se tratava da raposa.

Porém, Klara não sentiu a mesma tranquilidade. Apavorada, ela correu para trás da amiga e suplicou à fera:

“Por favor, vai embora!”

“Ela é a minha mamãe.” - disse, Julia, tentando tranquilizá-la. - “Não vai te fazer mal.”

“Sua mamãe?”

“Sim.” - Julia garantiu. Ela deu as costas à raposa e, colocando-se de frente para a amiga, perguntou. - “Não se lembra de quando eu disse que a minha mamãe se chamava Velislava?”

“Sim, mas você não disse que a sua mamãe era uma raposa.” - respondeu, Klara. Mesmo com tamanha tranquilidade, o pavor de Klara só se fazia aumentar. Velislava, por sua vez, pareceu antever o medo que provocaria na pequena búlgara, pois, após saltar da mata, ficou parada na frente de Julia.

“E o que há de mau em ser uma raposa?” - Julia perguntou, ligeiramente ofendida com a resposta de Klara. - “É a primeira vez que você vê uma raposa de fogo?”

Klara balançou a cabeça, respondendo que sim. Nunca tinha visto uma raposa comum, quiçá uma igual a Velislava, que expelia fogo dos pelos.


CONTINUE ACOMPANHANDO A HISTÓRIA NAS PRÓXIMAS POSTAGENS.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

CAPÍTULO 10: Céu de Balões (2° Parte).


Klara, ao ver o anjo do lado de Zita, não se conteve e foi logo revelando:

“Eles estão indo para um vale onde as meninas podem brincar o dia todo.”

“Para um vale sagrado.” - emendou, Julia.

“Para um vale?” - Milosh fingiu surpresa.

“Sim. Para um vale muito bonito.”

“Isso mesmo, os balões estão indo para o mais bonito de todos os vales.” - disse, Milosh, às meninas. - “Eles estão indo para o Vale das Rosas.”

“Vale das Rosas?” - Klara o encarou, com certa estranheza, ao mesmo tempo que imaginava todos aqueles balões pousando numa plantação de rosas. - “Onde fica esse vale?” - perguntou.

“O Vale das Rosas fica perto da cidade de Kazanlak e é cercado por montanhas.” - respondeu, Milosh, divertindo-se com a inesgotável curiosidade das duas meninas.

A resposta, obviamente, frustrou Julia e Klara que esperavam ouvir mais. - “Todo o lugar que eu conheço é cercado por montanhas.” - pensou, a pequena Klara. De fato, não parecia existir lugar algum na Bulgária em que não houvesse uma montanha por perto para embelezar a paisagem.

Conforme a manhã avançava, os anjos que ainda dormiam, ao saírem de suas tendas, também se impressionavam com o céu coberto por balões.

“O que está acontecendo?” - perguntou, docemente, um anjinho que acabara de sair de uma das tendas, à sua mãe.

“Um milagre.” - ela respondeu em tom amoroso.

“Um milagre?” - o anjinho perguntou de volta.

“Sim, meu filho.” - garantiu, a mãe, dizendo. - “Esse céu é um presente para todos nós, um maravilhoso milagre.”

Zita e Milosh, há uma certa altura da manhã, afastaram-se das meninas e retornaram para suas respectivas tendas. Ambos tinham muito o que fazer após o banquete daquela noite. As duas amigas, porém, continuaram contemplando o céu.

“Por que a minha mamãe nunca me falou sobre o vale?” - perguntou-se, Klara, silenciosa.

Boris, por sua vez, ignorou os balões e voltou-se para alguma coisa que parecia se mover, com rapidez, na mata fechada, clareando-a como se fosse uma fogueira viva, um vulto em chamas. Sem chamar a atenção de Julia, ele disparou a correr atrás da criatura, desaparecendo na vegetação. Um certo tempo depois é que a menina ruiva notou a falta do cão pastor.

“Onde ele está?” - perguntou para Klara.

“Quem?”

“O Boris.” - respondeu, Julia. Klara levantou o olhar à amiga, sem deixar qualquer dúvida de que não sabia para onde ele havia ido.

“Eu não sei.” - respondeu.

Rapidamente, Julia a puxou pelo braço e, então, foram procurá-lo.

“Boris, seu malvado!” - gritava, nervosa, caminhando apressadamente entre os anjos ciganos.


CONTINUE ACOMPANHANDO A HISTÓRIA NAS PRÓXIMAS POSTAGENS.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

Crônica: Refugiados do Pão.


Poucos dias atrás, publiquei um conto neste blog, intitulado Cartas de um pai ao filho, cartas do filho ao pai, cuja história aborda o drama de um pai e um filho sírios ao fugirem da gerra em seu país e irem para a Europa. Diferente dos outros contos que venho postando por aqui, este é narrado por cartas que os dois personagens pretendiam entregar um ao outro quando se reencontrassem. Pois bem, gostei tanto do resultado do conto que venho compartilhar com todos os leitores as minhas impressões a respeito do que acontece na Síria.

Faltam palavras ao mesmo tempo que multiplicam-se e se tornam cada vez mais complexos os sentimentos ao acompanhar tamanho drama. Como se fossem uma sucessão de notícias repetidas, vejo nos telejornais bombardeios, embarcações com refugiados sendo resgatados pela marinha italiana, outros sem esta sorte afundam matando dezenas ou centenas deles. Em uma destas embarcações estava o menino sírio Alan Kurdi, pode ler uma ótima reportagem a respeito de sua história feita pela BBC Brasil clicando AQUI. Alan Kurdi tornou-se um dos símbolos deste flagelo humano ao ter seu corpinho exposto em uma praia turca com uma camisetinha vermelha e o rostinho de cara na areia, algo que me chocou tanto que chorei no mesmo instante que tomei conhecimento da tal foto no programa Estúdio I, da Globo News.

Antes da guerra, minhas únicas referências sobre a Síria eram o famoso pão homônimo e a nacionalidade de muitos empresários que fizeram fortunas em países ao redor do mundo, inclusive no Brasil. Com a guerra, os crimes, o descaso o Estado Islâmico e a barbárie é que se tornaram então minhas únicas referências, as duas últimas, uma redundância, quase a mesma coisa.

Bashar al-Assad é um déspota que tem, em outros líderes ao redor do mundo, cúmplices, afinal, para toda uma tirania que persiste, há sempre uma consequência ainda pior, interesses transnacionais envolvidos. Há de se enfrentar o mau a qualquer custo.

O drama na Síria, ao que parece não terá fim tão próximo, mas terá um fim e, de alguma forma, ele representa como um teatro de horror a própria jornada da civilização humana, caótica, entremeada por guerras e cheia de simbolismos: um presente tão diferente e tão igual aos primórdios.

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