terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

Processo Criativo de Eliziane Dias: CONTO ACORDES.


Olá, pessoal, supernovidade no blog!

Hoje, vou falar do processo de Eliziane Dias em seu conto "Acordes". O conto foi escrito e publicado no MISS (Menina Irreverente Sabida e Socrática). Pode ler o conto clicando AQUI.

Movo-me para direita em direção à janela. As trevas haviam ganhado a estrada lá fora. Levanto-me e vou ao banheiro mesmo sem vontade e quando volto, fico na mesma posição tentando imaginar uma vida perfeita para mim e inventando possibilidades de situações inesperadas e quase impossíveis na minha viagem. E é assim que a fantasia me tira do estado agonizante de tédio.

Pois então, sem mais delongas, começamos com algumas perguntas que fiz à autora:

Rob Camilotti: Quando e como surgiu a ideia do conto?
MISS: Um amigo postou uma foto de um ambiente lindo. Quando eu vi aquela foto, eu fiquei encantada e comecei a pesquisar sobre aquele local. Na hora, surgiu a ideia de escrever algo sobre ele. Já que eu não podia estar lá, eu precisava mandar alguém. E no caso eu enviei o personagem à esse lugar lindo que é Capitólio. O conto só surgiu quando meus olhos tocaram aquela fotografia linda do Lago de Furnas.

Rob Camilotti: Sobre o que é o conto?
MISS: Sobre um músico que ama muito o que faz, mas que não consegue se manter vivendo de música. O que é muito comum, não é? Quem ama a arte e quer viver do que ama, acaba encontrando muitas dificuldades. Talvez ele tenha cansado.

Rob Camilotti: Que parte do conto mais gosta? Tem algum trecho preferido?
MISS: Eu amo a parte que ele começa a sentir a música e passa a tocá-la de forma imaginária. Juro que me divirto lendo esse trecho. Vai por mim... Todos os músicos do mundo são loucos assim: tocam instrumentos musicais imaginários. Ele começa a lembrar de uma música e não consegue conter-se. Fica inquieto! Na verdade, isso acontece com qualquer um que goste muito de música. Quem nunca fingiu estar fazendo um solo de guitarra atire a primeira pedra!

Rob Camilotti: Que acredita ser o ponto forte do seu conto? Que ele tem de melhor?
MISS: Eu acredito que seja a forma como o narrador-personagem fala sobre sua viagem. Isso instiga às pessoas ao desejo de conhecer Capitólio.

Rob Camilotti: Teve muitas dificuldades em escrever o conto? Bloqueios? Quais?
MISS: Fiquei muito assustada com a rapidez que o escrevi. Goulart Gomes, o autor de Poetrix, diz que a escrita é 10% inspiração e 90% transpiração. E eu transpiro muito para escrever qualquer coisa, mas dessa vez foi rápido. Embora eu acredite que o meu amor pela música, e por ter vindo de uma família de músicos, tenha me ajudado bastante. Sei bem das dificuldades.

Rob Camilottti: Quem é(são) o(s) protagonista(s) do conto?
MISS: Só sabemos que ele é um músico. Ou pelo menos foi.

Rob Camilotti: Gosta do resultado final do conto? Quanto?
MISS: Gosto! De 0 à 5, eu gosto 3, 5. Eu sou muito crítica em relação ao que escrevo.

Rob Camilotti: Para encerrar, tem alguma coisa que gostaria de dizer sobre o conto? Alguma curiosidade? Uma confidência?
MISS: Bom, eu acredito plenamente que devemos nos esforçar para sermos os melhores naquilo que amamos fazer, porque se trabalhamos com o que gostamos, a vida se torna mais significativa. E é possível viver do que se gosta, ainda que seja difícil, mas... a decisão que o personagem toma em relação a sua carreira e que se revela no fim do conto, é o que mais se aproxima da realidade. E saber que muitas vezes permitimos que a realidade mate nossos sonhos, é assustador.

Minhas mãos se agitam em minhas pernas e, deixando o livro no banco ao lado, começo a tocar um piano invisível quando o blues de John Lee Hooker começa a reverberar em minha memória, depois meus dedos passam a dedilhar as cordas de uma guitarra imaginária. Em breves instantes eu movo os punhos fechados com baquetas e uma bateria imaginária à minha frente também. Bato os pés no chão acompanhando o compasso. Conforme a canção cresce, meus ombros e cabeça tomam o ritmo de forma enérgica e apaixonada. Uma pantomima executada tranquilamente já que ninguém conseguirá assistir meu show particular e enlouquecido. A escuridão é tão presente que com ousadia eu mordisco o canto do lábio inferior, dou uma piscadela e aponto os dedos indicadores para frente, complacente com a aprovação da platéia.

Obrigado, Eliziane!

É isso, pessoal, espero que tenham gostado da entrevista com a autora. Espero que tenha conseguido mostrar o processo criativo que a levou à escrita do conto "Acordes".

E você, curte contos? Compartilha com o blog, nos comentários!

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

NAPOLEÃO E O MUFLÃO FRANCÊS: Segunda Parte do Capítulo.


Nesse meio tempo, a raposa de fogo espreitava cada mínimo gesto de Napoleão, pois não confiava nele, enquanto que Pedro, o muflão montanhês, continuava mostrando indiferença aos latidos que Boris lhes direcionava.

“Quieto, seu malvado!” - irritada, exigiu, Julia, ao cão búlgaro, que, dessa vez, a obedeceu, afastando-se de Pedro e indo para perto da raposa.

O imperador francês logo em seguida deu as costas às meninas e caminhou vagarosamente até o muflão, onde, com certa dificuldade, montou no lombo do animal.

“O Pedro seguiu a gente até aqui!” - exclamou, Klara, à amiga.

Devido ao tumulto, a pequena búlgara ainda não o havia visto.

“Quem é Pedro?” - perguntou, Napoleão, de cima do muflão.

“Pedro é o nome do nosso muflão.” - Julia respondeu.

“Está enganada, menina.” - retorquiu, Napoleão, sem perder o tom solene em sua voz. - “O nome dele é Luc.” - corrigiu-a.

“O nome dele é Luc?” - Klara se perguntou em voz alta, estranhando o nome.

“Exatamente.” - Napoleão respondeu. - “Esse é o nome que eu escolhi para ele."

“Mas a gente achou ele quando atravessou a ponte.” - a menina ruiva protestou.

“E a gente deu o nome Pedro para ele.” - complementou, Klara, referindo-se ao muflão da montanha.

“Que seja, chamem-no como quiserem.” - Napoleão as ignorou. - “Não me importa onde vocês o acharam, nem aonde ele as levou.” - vaidoso, declarou. - “O nome dele é Luc e assim será no dia de hoje, de amanhã e de todo o sempre.”

Nada puderam fazer para que o imperador voltasse atrás em sua decisão. Napoleão Bonaparte deu um tapa no lombo do muflão e Luc, então, começou a marchar, voltando a atiçar a euforia de Boris.

Julia, imediatamente, estreitou os olhos para o cão pastor e se desculpou, dizendo ao imperador francês:

“Perdoa ele, moço. O Boris não está acostumado com gente estranha.”

“Eu agora sou um estranho?” - perguntou, Napoleão, que parou no mesmo instante.

Mesmo que por uma inocente menina, ser classificado como estranho soou ao imperador como um grave insulto.

“Sim, um estranho.” - respondeu, Julia, normalmente. - “Afinal, a gente não te conhece.”


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quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

NAPOLEÃO E O MUFLÃO FRANCÊS: Primeira Parte do Capítulo.


O mal humor só aumentava conforme, desconfiado, ele encarava as duas meninas que dormiam pesadamente sobre as almofadas.

“Quem são essas meninas?” - perguntou-se, o imperador, pensativo.

Vaidoso, Napoleão Bonaparte mostrava ser muito importante pelo jeito vagaroso com que se aproximou de Julia e Klara. Com sua alinhada vestimenta militar, trazia consigo uma espada, minuciosamente pendurada na altura da cintura, além de Pedro, o muflão que as duas meninas haviam deixado para trás, no acampamento. O imperador francês, mesmo com sua baixa estatura, conseguia a proeza de ficar ainda mais atarracado, quase sem pescoço, ao parar e se curvar diante das almofadas, atento, fazendo pose imperial.

Boris, por sua vez, novamente eufórico, ao vê-lo se aproximar das meninas, começou a latir e rosnar.

“Cale-se, peste peluda!” - exigiu, Napoleão, ao cão pastor, que, em resposta, pôs-se a latir ainda mais alto.

Sem demora, Julia acordou em meio aos latidos. Além de se deparar com Napoleão, olhando-a com esnobismo e menosprezo, logo viu o muflão, que mantinha inabalável indiferença ao escândalo que o cão fazia.

“Boris, seu malvado!” - a menina ruiva o repreendeu.

O cão, porém, sequer pareceu ouvi-la. Continuou latindo e rosnando para o imperador e o muflão.

Não podendo ignorar tamanho escândalo, Klara acordou em seguida, mal conseguindo abrir os olhos para ver o que estava acontecendo devido a intensa claridade do Sol que inundava seu rosto.

Ela se sentou no amontoado de almofadas e ouviu Napoleão perguntar para Julia:

“Então, a peste se chama Boris?”

A pergunta soou em tom de sarcasmo e rudeza.

“O Boris não é nenhuma peste.” - rebateu, Julia, visivelmente ofendida. - “Ele é o meu cão pastor e eu gosto muito dele.”

“Gosta dele?” - o imperador a provocou.

“Sim.” - Julia respondeu.

“Que seja.” - bufou, Napoleão, em tom de tédio.

Apesar de parecer se divertir com o nervosismo da menina, ao que percebeu o olhar distante de Klara, ele voltou as atenções à pequena e perguntou:

“E você, menininha, o que faz nesse fim de mundo?”

Intimidada, Klara olhou para o lado, buscando resposta na amiga.

“Ela está perdida.” - Julia respondeu por ela.

“Perdida?”

“Sim.” - confirmou, Klara, em voz quase inaudível. - “A minha vovó me abandonou.”

“É uma pena.” - disse, Napoleão, insensível. E acrescentou. - “Lamento não ter tempo para ajudá-la.”


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quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

Velislava, a Raposa de Fogo (Parte 03).


Julia, Klara, o cão pastor e a raposa de fogo contornaram a trilha de terra e desceram a montanha pelo mesmo caminho na qual o muflão havia percorrido para chegar ao acampamento. Pouco caminharam e Klara logo parou.

“O que foi?” - Julia perguntou.

“A gente esqueceu o Pedro no acampamento.” - respondeu, a pequena, ao se lembrar do muflão.

Diante da resposta, Julia olhou rapidamente para Velislava, que retribuiu o olhar com certa indiferença à preocupação que Klara externava.

Era como se Pedro não pudesse ir com elas.

“Ele não vem com a gente.” - lamentou, Julia.

“Por que?” - Klara quis saber.

“Porque ele foi adotado pelos anjos.” - Julia mentiu.

Todos, então, voltaram a caminhar.

Klara não conseguiu disfarçar sua ansiedade em chegar na casa onde a amiga morava. Assim que chegasse, ía dormir e acordar o mais cedo que pudesse para brincar com ela até se cansar.

“Falta muito para a gente chegar?” - perguntou, Klara, com sono.

“Um pouco.” - Julia respondeu.

Conforme caminhavam montanha abaixo, a claridade do Sol diminuía, anoitecendo a paisagem e fazendo com que apenas as chamas da raposa iluminassem o caminho. E tal escuridão só fazia intensificar o sono que ambas sentiam.

Mais à frente, Klara avistou um amontoado de almofadas jogadas num canto da mata e que pareciam ser muito fofas.

“Elas estavam aqui antes?” - perguntou, Klara, à amiga, referindo-se às almofadas.

Julia respondeu que não.

Eufórico, Boris saltou encima delas e se deitou, confortavelmente, num canto do amontoado.

“Além de malvado, ele é muito intrometido.” - Julia resmungou, ao ver o cão pastor deitar sobre as almofadas.

O mesmo fez Julia e Klara. Cercadas pela escuridão da mata e com sono, as duas amigas pularam nas almofadas, bem perto de Boris, deitaram-se e adormeceram, iluminadas somente pelas chamas da imponente raposa búlgara que as protegia.


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segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

Velislava, a Raposa de Fogo (Parte 02).


“Não precisa ter medo.” - a menina ruiva tentou pôr fim ao pavor de Klara, assegurando. - “Ela não vai te fazer mal.”

Boris, que havia se afastado de sua dona para se ir atrás de Velislava, enfim, reapareceu, saindo da mata no mesmo lugar onde a raposa havia saltado, e se aproximou de Julia.

“Onde o senhor estava, seu malvado?” - perguntou para o cão, repreendendo-o. - “Fique sabendo que me deixou muito preocupada. Nunca mais saia de perto de mim!”

O cão pastor protestou, latindo baixo, e, sem externar quaisquer medos ou receio, se aproximou da majestosa raposa.

Por mais que se esforçasse, Klara não conseguia enxergar uma figura materna em Velislava. - “Ela é uma raposa e Julia é uma menina.” - pensou, intrigada, enquanto a observava. - “Como pode ser mãe dela?” - perguntou-se. Foi, então, que se convenceu de que Julia estava sendo sincera quando dizia que a fera era sua mamãe no momento em que, para seu total horror, ela se colocou diante da raposa e, sem que a pequena a ouvisse, pediu:

“Não machuque ela, mamãe.” - logo em seguida, a menina ruiva acariciou o focinho de Velislava, uma das poucas partes do seu corpo avermelhado que não expelia fogo, e sussurrou. - “Ela é a única amiga que eu tenho.”

Carinhosa, a raposa de fogo respondeu, lambendo o rosto da menina. O gesto causou enorme surpresa em Klara, que, imediatamente, arregalou os olhos ao ver tamanha docilidade.

“Pensando bem, ela não parece ser malvada.” - disse, a pequena búlgara, que, enfim, teve a certeza que Velislava não era uma ameaça. Ela encheu-se de coragem e se aproximou, perguntando para Julia. - “O fogo não machuca ela?”

“Não.” - Julia respondeu. Convicta, garantiu. - “O fogo só machuca quem tenta fazer mau para ela.”

Embora mais calma, a menina de Gabrovo não conseguia desviar seu olhar de medo da raposa.

“Quer fazer carinho nela?” - perguntou, Julia.

“Eu acho que ela não vai deixar.”

“Ela vai deixar, sim.” - Julia insistiu, dizendo. - “Minha mamãe já sabe que você é minha amiga e que não vai me fazer mau.”

Klara, então, rompeu o medo e acariciou o focinho de Velislava, que respondeu, igualmente carinhosa, lambendo o rosto da menina.

“Sua mamãe é muito bonita!” - exclamou.

O que tinha por medo, rapidamente, se esvaiu. Klara, vendo-a de perto, se mostrou ainda mais impressionada com a pelagem de Velislava, que, em momento algum, parava de expelir fogo. A essa altura, os incontáveis balões coloridos que elas haviam visto no acampamento, aos poucos, iam desaparecendo, revelando um céu cor de abóbora e luminoso. Já era fim de tarde.

O tempo, mais rápido do que o habitual, parecia ter ritmo próprio e passou rápido.

“Está escurecendo.” - disse, Julia, à amiga, vendo o Sol se esconder nas montanhas. - “A gente vai para a minha casa e procura a sua vovó amanhã, o que acha?” - perguntou.

“Está bem.” - Klara aceitou.


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quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

Velislava, a Raposa de Fogo (Parte 01).


De mãos dadas, as duas amigas foram se afastando do acampamento na medida em que o procuravam por uma trilha de terra.

“Aonde será que ele foi?” - perguntou-se, Julia, em voz alta.

Ao mesmo tempo que, atentamente, observava em volta, Julia também olhava para Klara, que se mostrava igualmente preocupada. Boris desaparecera de repente, silenciosamente, e com todo o mistério.

“Tem alguma coisa se mexendo ali.” - indicou, Klara, um ponto específico na mata.

Julia voltou as atenções na direção que a amiga apontou e logo foi surpreendida. O verde da mata se acendeu e uma raposa em chamas, majestosamente, saltou na frente delas como uma fera de fogo.

“É a minha mamãe, Velislava!” - exclamou, aliviada, ao ver que se tratava da raposa.

Porém, Klara não sentiu a mesma tranquilidade. Apavorada, ela correu para trás da amiga e suplicou à fera:

“Por favor, vai embora!”

“Ela é a minha mamãe.” - disse, Julia, tentando tranquilizá-la. - “Não vai te fazer mal.”

“Sua mamãe?”

“Sim.” - Julia garantiu. Ela deu as costas à raposa e, colocando-se de frente para a amiga, perguntou. - “Não se lembra de quando eu disse que a minha mamãe se chamava Velislava?”

“Sim, mas você não disse que a sua mamãe era uma raposa.” - respondeu, Klara. Mesmo com tamanha tranquilidade, o pavor de Klara só se fazia aumentar. Velislava, por sua vez, pareceu antever o medo que provocaria na pequena búlgara, pois, após saltar da mata, ficou parada na frente de Julia.

“E o que há de mau em ser uma raposa?” - Julia perguntou, ligeiramente ofendida com a resposta de Klara. - “É a primeira vez que você vê uma raposa de fogo?”

Klara balançou a cabeça, respondendo que sim. Nunca tinha visto uma raposa comum, quiçá uma igual a Velislava, que expelia fogo dos pelos.


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quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

CAPÍTULO 10: Céu de Balões (2° Parte).


Klara, ao ver o anjo do lado de Zita, não se conteve e foi logo revelando:

“Eles estão indo para um vale onde as meninas podem brincar o dia todo.”

“Para um vale sagrado.” - emendou, Julia.

“Para um vale?” - Milosh fingiu surpresa.

“Sim. Para um vale muito bonito.”

“Isso mesmo, os balões estão indo para o mais bonito de todos os vales.” - disse, Milosh, às meninas. - “Eles estão indo para o Vale das Rosas.”

“Vale das Rosas?” - Klara o encarou, com certa estranheza, ao mesmo tempo que imaginava todos aqueles balões pousando numa plantação de rosas. - “Onde fica esse vale?” - perguntou.

“O Vale das Rosas fica perto da cidade de Kazanlak e é cercado por montanhas.” - respondeu, Milosh, divertindo-se com a inesgotável curiosidade das duas meninas.

A resposta, obviamente, frustrou Julia e Klara que esperavam ouvir mais. - “Todo o lugar que eu conheço é cercado por montanhas.” - pensou, a pequena Klara. De fato, não parecia existir lugar algum na Bulgária em que não houvesse uma montanha por perto para embelezar a paisagem.

Conforme a manhã avançava, os anjos que ainda dormiam, ao saírem de suas tendas, também se impressionavam com o céu coberto por balões.

“O que está acontecendo?” - perguntou, docemente, um anjinho que acabara de sair de uma das tendas, à sua mãe.

“Um milagre.” - ela respondeu em tom amoroso.

“Um milagre?” - o anjinho perguntou de volta.

“Sim, meu filho.” - garantiu, a mãe, dizendo. - “Esse céu é um presente para todos nós, um maravilhoso milagre.”

Zita e Milosh, há uma certa altura da manhã, afastaram-se das meninas e retornaram para suas respectivas tendas. Ambos tinham muito o que fazer após o banquete daquela noite. As duas amigas, porém, continuaram contemplando o céu.

“Por que a minha mamãe nunca me falou sobre o vale?” - perguntou-se, Klara, silenciosa.

Boris, por sua vez, ignorou os balões e voltou-se para alguma coisa que parecia se mover, com rapidez, na mata fechada, clareando-a como se fosse uma fogueira viva, um vulto em chamas. Sem chamar a atenção de Julia, ele disparou a correr atrás da criatura, desaparecendo na vegetação. Um certo tempo depois é que a menina ruiva notou a falta do cão pastor.

“Onde ele está?” - perguntou para Klara.

“Quem?”

“O Boris.” - respondeu, Julia. Klara levantou o olhar à amiga, sem deixar qualquer dúvida de que não sabia para onde ele havia ido.

“Eu não sei.” - respondeu.

Rapidamente, Julia a puxou pelo braço e, então, foram procurá-lo.

“Boris, seu malvado!” - gritava, nervosa, caminhando apressadamente entre os anjos ciganos.


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terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

Crônica: Refugiados do Pão.


Poucos dias atrás, publiquei um conto neste blog, intitulado Cartas de um pai ao filho, cartas do filho ao pai, cuja história aborda o drama de um pai e um filho sírios ao fugirem da gerra em seu país e irem para a Europa. Diferente dos outros contos que venho postando por aqui, este é narrado por cartas que os dois personagens pretendiam entregar um ao outro quando se reencontrassem. Pois bem, gostei tanto do resultado do conto que venho compartilhar com todos os leitores as minhas impressões a respeito do que acontece na Síria.

Faltam palavras ao mesmo tempo que multiplicam-se e se tornam cada vez mais complexos os sentimentos ao acompanhar tamanho drama. Como se fossem uma sucessão de notícias repetidas, vejo nos telejornais bombardeios, embarcações com refugiados sendo resgatados pela marinha italiana, outros sem esta sorte afundam matando dezenas ou centenas deles. Em uma destas embarcações estava o menino sírio Alan Kurdi, pode ler uma ótima reportagem a respeito de sua história feita pela BBC Brasil clicando AQUI. Alan Kurdi tornou-se um dos símbolos deste flagelo humano ao ter seu corpinho exposto em uma praia turca com uma camisetinha vermelha e o rostinho de cara na areia, algo que me chocou tanto que chorei no mesmo instante que tomei conhecimento da tal foto no programa Estúdio I, da Globo News.

Antes da guerra, minhas únicas referências sobre a Síria eram o famoso pão homônimo e a nacionalidade de muitos empresários que fizeram fortunas em países ao redor do mundo, inclusive no Brasil. Com a guerra, os crimes, o descaso o Estado Islâmico e a barbárie é que se tornaram então minhas únicas referências, as duas últimas, uma redundância, quase a mesma coisa.

Bashar al-Assad é um déspota que tem, em outros líderes ao redor do mundo, cúmplices, afinal, para toda uma tirania que persiste, há sempre uma consequência ainda pior, interesses transnacionais envolvidos. Há de se enfrentar o mau a qualquer custo.

O drama na Síria, ao que parece não terá fim tão próximo, mas terá um fim e, de alguma forma, ele representa como um teatro de horror a própria jornada da civilização humana, caótica, entremeada por guerras e cheia de simbolismos: um presente tão diferente e tão igual aos primórdios.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

CAPÍTULO 10: Céu de Balões (1° Parte).


O primeiro balão surgiu no primeiro minuto da manhã, assim que os primeiros raios de Sol iluminaram o acampamento, e, por ser apenas um, não havia despertado a atenção de ninguém. Mas, tão logo o céu encheu-se deles, tornou-se absolutamente impossível não vê-los ou admirá-los.

“São lindos, realmente!” - exclamou, Zita, ao ver Julia e Klara observarem, enfeitiçadas, os balões colorirem o céu.

“Aonde eles estão indo?” - perguntou, Klara.

“Estão indo para um vale muito bonito.” - Zita respondeu.

“Onde fica esse vale?” - quis saber, Julia, sem desviar o olhar dos balões. - “É longe daqui?” - perguntou.

“Bom, apesar de não conhecer o vale pessoalmente, sei que é um pouco longe daqui.” - respondeu, Zita, ressaltando. - “Todos que já estiveram lá, dizem que é um lugar maravilhoso e que as meninas brincam o dia todo, sem se cansarem.”

“Tem menina lá?” - perguntou, Klara, que, de repente, ao ouvi-la, ficou com uma enorme vontade de conhecer o vale.

“Sim, querida.” - Zita respondeu. Sua voz, propositadamente, ecoava num tom de fantasia. - “Lá, vivem muitas meninas.” - revelou. - “Elas brincam o dia inteiro e não se machucam.”

“Elas não se cansam e não se machucam?” - perguntou, Julia, surpresa. - “Por que?”

“Porque lá não existe cansaço e nem perigo.” - assegurou, Zita. - “É um lugar sagrado, protegido por Deus.”

Ao avistar os balões, Boris, que dormia do lado de fora da tenda de Zita, voltou a ficar eufórico e pôs-se a latir. Correndo de um lado para o outro, fez, a todo custo, chamar a atenção de sua dona.

“Quieto, seu malvado!” - Julia o repreendeu, dizendo. - “Não é só você que está vendo os balões, eu também estou vendo eles.”

Não menos impressionado, Milosh se aproximou da irmã e comentou:

“Com eles tão colados uns aos outros, fica difícil escolher o mais bonito.”

“Bom dia.” - Zita o cumprimentou e, descontraidamente, perguntou. - “Por que alguém escolheria o mais bonito se pode contemplar todos?”

“Tem toda a razão.” - concordou, Milosh.


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sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

Banquete Cigano: Terceira Parte do Capítulo.


Tinha cabelos compridos, lisos e castanhos. A pele era clara e os olhos eram verdes. Imediatamente, Julia e Klara ficaram boquiabertas ao vê-la.

“O que querem comer, meninas?” - refez a pergunta.

“Tomate.” - Klara respondeu.

“Tomate?”

“Sim, eu adoro tomate.”

“E você, minha querida, o que quer comer?” - o anjo perguntou para Julia.

“Tudo.” - a menina ruiva respondeu.

“Mas tudo é muito, não acha?”

“Sim, mas eu gosto de tudo.”

“Ótimo ouvir isso, vocês chegaram na hora certa!”

“Por que?” - Julia perguntou.

“Porque estamos preparando um banquete e vocês são nossas convidadas.” - ela respondeu. Depois, olhou para Milosh e perguntou educadamente. - “Não vai me apresentar?”

“Sim, elas são Julia e Klara, minhas novas amigas.” - disse, Milosh, indicando-as respectivamente. E revelou. - “Pedro as trouxeram até aqui.”

“Esse é o Pedro?” - ao perguntar para Milosh, ela olhou para o cão pastor.

“Não, o nome dele é Boris.” - Julia a corrigiu. - “Pedro é o nome do nosso muflão.” - apontou para o animal que pastava ao lado de uma das tendas.

“Vocês têm um muflão?”

“Sim.” - respondeu, Klara, dizendo. - “A gente achou ele perto da ponte.”

“Acharam ele?”

“Sim.” - confirmou, Julia. - “Foi ele que trouxe a gente até aqui.”

“Muito prazer, meninas, meu nome é Zita.” - ela, então, foi logo se apresentando. - “Sou a irmã de Milosh.”

No final da tarde daquele dia, os anjos do acampamento prepararam um banquete de boas vindas para as meninas, que, sentadas no chão diante de uma mesa farta, provaram a sopa fria de pepino e iogurte, conhecida como Tarator, e alguns pastéis Baklava, feitos com pasta de nozes trituradas e banhados no mel, além de dançarem e cantarem ao som de músicas folclóricas ciganas.

“Eu queria ficar aqui para sempre.” - desejou, Julia, enormemente alegre.

“Eu também.” - respondeu, Klara, com igual alegria, sentada do lado da amiga.

Antes do banquete acabar, já era tarde da noite. Julia e Klara bocejaram demoradamente, adormecendo ali mesmo, no chão. Nunca se viu tanta festa, alegria e confraternização caberem em tão pouco tempo e em tão pouco espaço.


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quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

Banquete Cigano: Segunda Parte do Capítulo.


Klara sorriu timidamente, concordando plenamente com a resposta.

Enfim chegaram no topo da montanha, lugar onde estava instalado um acampamento cigano. Ao contrário do que imaginavam encontrar, não viram mata fechada, se depararam apenas com um ajuntamento de tendas brancas. A claridade do Sol penetrava entre os galhos das árvores, que ficavam ao redor do acampamento, iluminando as tendas.

“Quem estão procurando, meninas?” - perguntou, um dos anjos, ao sair de sua tenda e ver as duas meninas montadas no muflão, observando, impressionadas, o acampamento.

“A gente não está procurando ninguém.” - respondeu, Julia, impressionada com a aproximação do anjo. Disse. - “Foi Pedro que trouxe a gente até aqui.”

Desconfiado, Boris chegou perto do anjo cigano e começou a farejar seus pés descalços.

“Pedro?” - perguntou, o anjo, que não enxergava nenhuma outra pessoa por perto além das meninas. - “Quem é Pedro?” - emendou, antes de ajudá-las a descerem das costas do muflão.

“Pedro é o nome que a gente deu para ele.” - respondeu, Julia, indicando o muflão. A menina ruiva perguntou. - “Onde a gente está?”

“Vocês estão no nosso acampamento.” - o anjo descalço respondeu.

No momento seguinte, em mais uma de suas travessuras, o cão pastor levantou a pata traseira e ameaçou urinar nos pés do anjo.

“Não pense em fazer isso, seu malvado!” - Julia o advertiu.

Boris latiu em protesto, mas a obedeceu, afastando-se do anjo cigano.

“Meu nome é Milosh.” - cerimonioso, o anjo cigano, então, se apresentou às meninas. - Sejam bem-vindas ao nosso acampamento.

“Obrigada.” - agradeceu, Julia.

Ela olhou para o lado e notou que Klara não parava de olhar para as asas brancas do anjo.

“Como se chamam?” - perguntou, Milosh.

“Meu nome é Julia e essa é minha amiga, Klara.” - respondeu, a menina ruiva. - “Ela se perdeu da sua vovó.” - revelou.

Preocupado, o anjo voltou as atenções à pequena.

“Está perdida?”

“Estou.” - respondeu, Klara, dizendo. - “Minha vovó chama Yordanka. Ela perguntou o que eu mais gostava de comer. Eu respondi que era tomate e ela, então, me levou para o tomateiro. Mas, quando percebi, já havia sumido e me deixado sozinha.”

Mesmo que discretamente e sem deixar transparecer, Milosh a olhou com profundo pesar. - “Mais uma pobre menina abandonada à própria sorte.” - pensou.

Preocupando-se em ajudá-la, perguntou:

“E a sua mamãe, onde ela está?”

“Eu não sei.” - respondeu, Klara, que o encarou com tristeza.

Milosh se mostrou cada vez mais disposto em ajudar a menina a reencontrar sua família.

“Não se preocupe, vamos encontrá-la.”

Amoroso, o anjo passou a mão na testa da menina, confortando-a, e, de repente, ouviu-se uma voz amavelmente feminina:

“Suas novas amigas devem estar com muita fome.” - colocando-se ao lado do anjo, ela perguntou. - “Estão com fome, meninas?”


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segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

Banquete Cigano: Primeira Parte do Capítulo.


Seria mais uma das incontáveis montanhas da Bulgária, sem nada em especial, senão fosse por uma particularidade: anjos ciganos viviam por ali, em um acampamento.

A vegetação se estreitava conforme Pedro, o muflão, marchava montanha acima.

“A gente chegou?” - perguntou, Klara, olhando em volta.

“Acho que não.” - Julia respondeu.

Em um certo momento, Julia e Klara, que pareciam estar hipnotizadas pela singularidade da paisagem, se intrigaram ao ver Boris parar e, mais uma vez, começar a latir, eufórico.

“O que foi agora, Boris?” - quis saber, Julia, que, irritada, repreendeu o cão. - “Comporte-se, seu malvado!”

Klara olhou na direção que ele latia e viu um anjo pousar entre as árvores, onde as vigiou do meio da mata.

“Um anjo!” - a pequena exclamou.

“Onde ele está?” - perguntou, Julia, que não conseguia vê-lo.

“Ali, perto da árvore.” - respondeu, Klara, apontando-o mais à frente.

Julia ficou eufórica ao ver o anjo olhando diretamente para ela e disse, excitada:

“Então, anjo existe!”

A menina de Gabrovo, por sua vez, não conseguiu esconder sua surpresa com a reação da amiga.

“É a primeira vez que você vê um anjo?” - perguntou, Klara.

Até mesmo ela já havia visto anjo. - “Sabia que eu já vi um anjo.” - revelou à amiga.

“Eu também já vi um anjo.” - respondeu, Julia, contando sobre a visão. - “Mas faz muito tempo e eu quase não me lembro como foi. Eu estava no meu quarto, brincando com as minhas bonecas, quando ouvi um homem me chamar na janela.”

Nesse momento, enquanto Julia contava sobre a visão, o anjo que vigiava as meninas escancarou suas asas e levantou voo.

“O que ele queria?” - a pequena perguntou, curiosa.

“Quando eu corri para a janela, para ver quem me chamava, foi o momento que eu vi que não era um homem.” - contou, Julia, lembrando-se de cada detalhe. - “Era um anjo. Ele era alto, tinha cabelos escuros e queria me dizer alguma coisa, mas não deu tempo. Depois que eu vi ele na janela, a minha cabeça começou a doer muito forte e eu não me lembro de mais nada.”

“Por que?” - Klara se mostrou intrigada. - “O que aconteceu?”

“Eu não sei. Não consigo me lembrar o que houve.” - a voz de Julia soava com certa agonia. - “Só me lembro que senti muita dor na cabeça.”

“Dor na cabeça?” - ao ouvir a amiga, Klara se segurou firme em Pedro para não cair de cima dele. - “Você estava doente?” - perguntou.

“Eu não sei.” - Julia respondeu. - “Eu só me lembro disso.”

Mesmo ansiosa para saber mais sobre a visão, Klara ficou receosa em relação aonde o muflão as levava e mudou de assunto, ao perguntar:

“Aonde o Pedro está levando a gente?”

“Não sei.” - a menina ruiva respondeu. - “Você está com medo?” - perguntou.

“Um pouco.” - confessou, Klara.

“Não precisa ter medo.” - Julia a tranquilizou, referindo-se aos anjos. - “Eles não podem ser malvados.”

“Por que?” - quis saber, Klara.

“Porque eles são anjos e não existe anjo malvado.” - respondeu, Julia.


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sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

PEDRO, O MUFLÃO DA MONTANHA (3° Parte do Capítulo).


“Gostou do nome que a gente escolheu para você?” - perguntou, Klara, ao muflão montanhês, que, em resposta, a encarou com normalidade.

Sem perder tempo, Julia aproveitou que Pedro ainda as reverenciava e, corajosamente, montou em seu lombo. Montada do muflão, ela estendeu a mão para Klara.

“Me dê a mão que eu te ajudo a subir!”

A pequena búlgara, além de ser três anos mais nova do que Julia, também era menor que ela e quase não conseguia alcançar sua mão. Mas Pedro a ajudou. Antes que Klara tentasse montá-lo, ele dobrou as patas traseiras, abaixando-se ainda mais e ficando quase na mesma altura da menina de Gabrovo, que se sentou na frente de Julia.

Assim que o muflão esticou as patas, levantando-se e se endireitando, as duas amigas tiveram que segurar firme no couro do animal para não caírem.

“Invés de caminhar, a gente pode ir para a minha casa montada nele.” - explicou, Julia, brevemente.

Pedro, então, começou a marchar.

Enciumado, o cão pastor búlgaro disparou na frente, sendo raras as vezes em que ele se preocupou em olhar para trás.

“Aonde o Pedro vai levar a gente?” - Klara perguntou.

“Não sei.” - respondeu, Julia, com absoluta sinceridade. E desejou. - “Tomara que ele saiba o caminho de casa.”

Ao passo que o muflão marchava, os terrenos foram se abrindo, deixando as montanhas e os penhascos que dominavam a paisagem para trás e dando lugar a um bosque denso e luminoso.

“Acho que o Pedro mora no bosque.” - disse, Klara.

Mais à frente, além do bosque, havia também uma imponente montanha que em nada se assemelhava com a altura de um pico. A montanha era larga, se estendia por boa parte do horizonte e era coberta por árvores.

“Ele está levando a gente para aquela montanha.” - constatou, Julia.

Pedro, de fato, as levava para a montanha, mais precisamente para o ponto mais alto dela.

“Está com medo?” - perguntou, a menina ruiva.

“Um pouco.” - Klara respondeu, retribuindo a pergunta. - “E você, está com medo?”

“Um pouco.”


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quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

PEDRO, O MUFLÃO DA MONTANHA (2° Parte do Capítulo).


Num segundo momento, ignorando totalmente a hostilidade de Boris, o muflão saltou da pedra e deu um passo na direção das meninas.

“Acho melhor a gente voltar.” - sugeriu, Klara, ainda mais apreensiva.

“Confia em mim, Klara.” - pediu, Julia, que, ao mesmo tempo, também se obrigava a ficar calma. - “Ele só quer ser nosso amigo.” - disse.

“Mas ele não vai deixar a gente passar.” - insistiu, a pequena búlgara.

O medo e a preocupação de Klara só se faziam aumentar.

“Não precisa ter medo.” - emendou, Julia, assegurando. - “Ele não quer machucar a gente.”

Em passadas vagarosas, o muflão passou por Boris, que rosnou furiosamente, e se aproximou das meninas, que, com muito esforço, não se moveram. Para a felicidade de Klara, que já esperava o pior, o muflão da montanha não as atacou. Ao contrário. Sem qualquer sinal de hostilidade, dobrou as patas dianteiras, reverenciando-as com a cabeça abaixada.

“Ele não é malvado.” - Klara, então, suspirou, aliviada. - “Ele é bonzinho.”

“Eu avisei que ele só queria ser nosso amigo.” - lembrou, Julia, não menos aliviada. - “Boris, seu malvado, fica quieto!” - repreendeu imediatamente, o cão pastor que não parava de latir e rosnar.

Ambas externaram surpresa com a docilidade daquele animal. Julia, no entanto, foi além. Ela se encheu de coragem e acariciou o muflão.

“Não precisa ter medo, ele é nosso amigo.” - disse, a menina, à amiga. - “Ele só queria que a gente fizesse carinho nele.” - completou.

Klara, então, fez o mesmo. Colocando-se ao lado da menina ruiva, ela passou a mãozinha entre os enormes chifres do muflão, que, surpreendentemente, se mostrou ainda mais gentil.

“Qual é o nome dele?” - quis saber, curiosa.

“Acho que ainda não deram um nome para ele.” - respondeu, Julia, dizendo. - “Mas a gente pode escolher um. O que acha?”

“Um nome para ele?”

“Sim.” - respondeu, Julia, que justificou. - “Todo o mundo tem nome; ele também merece ter um.”

Pensando, então, durante alguns instantes, qual nome mais combinava com ele, Klara sugeriu:

“Que tal Pedro?”

“Pedro?”

“Sim, o nome dele pode ser Pedro.” - assentiu, Klara. - “Pedro é um bom nome para ele.”

“Ótima escolha, Klara!”

Julia gostou do nome. Ela olhou para o muflão e o batizou.

“A partir de hoje, você tem um nome.” - disse. - “O seu nome é Pedro."


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