Aviso aos Leitores!

Tudo que é postado por aqui é escrito e idealizado por Roberto Camilotti, autor do blog, que é mantido por anúncios e cujas postagens são de literatura em geral.

Não plagie e nem copie! Na dúvida, entre em contato!

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

Conto: Cartas de um pai ao filho, cartas do filho ao pai.


Samir era um jovem sonhador de quinze anos quando sentiu a primeira bomba estremecer as estruturas de sua casa, arrasando todas as casas do quarteirão, após despencar do céu. Acompanhado dos tios, pôs-se a fugir das que ainda viriam a cair e se juntou com os vizinhos, partindo em fuga para a Europa.

Meses antes, havia sido o pai quem partira com outro grupo para preparar a chegada do filho, conforme explica em uma das cartas encontradas no bolso de sua jaqueta:

“Te amo, meu filho. Não estou certo de que faço a coisa certa pois me sinto culpado por tê-lo deixado na Síria, embora saiba que seus tios o querem bem tanto quanto eu. Tudo vai dar ceto. Você sabe que estou indo para a Europa não apenas em busca do nosso pão mas em busca da nossa sobrevivência. Sua mãe teria muito orgulho de você se estivesse viva. Veria que já é um homem, um homem do bem, o nosso homem. Força, filho, não desista de viver! Alá só quer o teu bem.”

Seu nome era Mohamed.

Samir escreve ao pai desaparecido:

“Pai, estou com saudades. Seja lá onde o senhor estiver, quero que saiba que não nos esquecemos de você. Neste momento, chegamos no litoral. Estamos fugindo porque as coisas andam cada vez mais piores e as bombas só aumentam de tamanho. De onde será que nasceu tanto ódio? Que a gente fez para eles? Enfim, pai, aguenta firme que estamos chegando! Nos veremos novamente. De teu filho, Samir,”

Em uma carta, Mohamed pede:


“Filho, tome muito cuidado! Não vou suportar perdê-lo. Fez bem em fugir. Não tem erro, siga para a Europa que lá reconstruiremos nossas vidas juntos. Não tem mais lugar para pessoas do bem como a gente na Síria. A guerra não vai acabar tão cedo. Prometo que farei de tudo para encontrá-lo. Do pai que te ama, Mohamed.”

Samir volta a escrever:

“Pai, o senhor precisa cuidar da sua saúde. Já é um senhor de idade e me preocupo com o senhor que está sozinho. Estou em grupo e a gente protege um ao outro, o senhor não? Se é que, pensando bem, está em grupo, mesmo assim, são todos desconhecidos para o senhor. No momento em que escrevo esta carta, cheguei no litoral e embarco amanhã para a Europa. Não faz ideia de como estou preocupado com o senhor. O senhor está bem, pai? Tem se alimentado? Temo que não. Voltaremos a nos ver. Que Alá o proteja!”

Mohamed tranquiliza o filho:

“Meu filho, como o conheço muito bem, sei que está preocupado comigo. De forma alguma, quero que se preocupe. Deve se concentrar em chegar na Europa e, se Alá quiser que assim seja, já estarei lá de braços abertos para nos reencontrarmos. Quem sabe até o receba! Hein? Alá é misericordioso. Seus tios estão bem? Imagino que sim. Eles são fortes assim como você. Tudo que estão passando será relembrado por todos nós como um ensinamento aos teus filhos de que nunca se deve desistir de lutar pela vida, de buscar o que se acredita. Seja forte, meu filho, amor da minha vida!”

Samir embarca para a Europa.

“Embarcamos no bote quando ainda estava escuro para não sermos flagrados pelos navios dos pescadores que trabalham para o regime. Estamos indo para a Europa conforme combinamos, onde, segundo os tios, o inverno deve chegar na próxima semana. Estamos com pressa, pai. A gente se reveza nos remos para que ninguém se canse e assim todos os homens do bote trabalhem dia e noite. Devemos demorar dois dias, segundo o atravessador, pessoa na qual desconfio um pouco da sua competência. Enfim, não há outro jeito de ir para a Europa. Pai, espero que tudo esteja correndo bem também com o senhor. Que Alá o proteja como o tem protegido até agora!”

Em outra carta, Mohamed revela estar muito doente.

“Meu precioso filho, as coisas não estão indo muito bem comigo. Perdoa teu pai por desapontá-lo? Tenho estado muito doente e tão fraco que mal consigo caminhar. Não como, estou com uma forte diarreia. Quero que me prometa que irá para a Europa mesmo assim. Existe uma grande chance de que eu não consiga seguir o grupo, avançando na caminhada, mas isso não quer dizer que eu vou desistir de revê-lo. Apoiado na bondade de Alá, lutarei até o fim. Lutarei por você, meu filho. Te amo. Para o meu homem, Samir, o eterno amor de teu pai.”

Uma tempestade se anuncia no caminho de Samir à Europa. Samir escreve:

“Pai, eu estou com medo. O céu está escurecendo e não é porquê está anoitecendo, ele está tomado por nuvens cinzas, carregadas de chuva, além disso, o mar começa a ficar revolto e, se antes quase não haviam ondas, agora temos que vencer uma série delas para continuar. Nosso atravessador disse para que nos preparássemos pois enfrentaremos uma forte tempestade. Está todo mundo apavorado, até mesmo os tios, que por quase nada se abalam, também estão. Que Alá nos proteja mais do que nunca!”

Um homem do grupo, a pedido de Mohamed, escreve a seguinte carta para Samir, comunicando-lhe a morte de seu pai:

“Oi, Samir, como vai? Meu nome é Omã. Escrevo esta carta a pedido de seu pai. Lamento informá-lo que ele morreu. Não suportou o desgaste da longa caminhada e sucumbiu sobre nossos olhos. Tentamos cuidar dele, levá-lo a um hospital, mas, sabe como é, não existem leitos para refugiados nos países nos quais atravessamos. Não nos querem e algumas pessoas até têm medo e ódio da gente. Seu pai era um homem bom. Que Alá o receba em toda sua bondade. Fique na Europa, Samir! Ele pediu para que escrevesse isto também.”

O bote de Samir afunda com a tempestade. Antes disso, Samir se despede do pai ao escrever:

“Adeus, pai, não poderei encontrá-lo na Europa conforme prometi para o senhor. Me perdoa? Nosso bote está afundado por causa da tempestade e algumas pessoas inclusive já caíram ou se atiraram no mar. Só queria que o senhor soubesse que eu te amei e que sempre irei te amar. Você é o meu homem! Eternamente, o teu findado Samir.”

Diferentemente das de Mohamed, cujas cartas seriam noticiadas por todos os jornais do Velho Mundo, as cartas de Samir destinadas ao pai nunca seriam encontradas. Ninguém sobreviveu. A tempestade, em conluio com o mar, apropriou-se de todos que estavam no bote e das cartas.

Este conto é dedicado a todos os refugiados sírios que imploram socorro à Europa e que, por ela, todos os dias, são violentamente ignorados.

FIM.

16 comentários:

  1. Nossa,que lindo! Quanta sensibilidades!
    Me emocionei muito ao ler,pois seus que muitas famílias vivem esse drama.
    Parabéns,Rob!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Sou eu quem agradece, Cássia.

      Obrigado mesmo.

      Mais do que drama, o que os sírios vivem é uma verdadeira covardia, um crime transnacional!

      Excluir
  2. Super emocionante. Até chorei no fim, talvez por hoje estar um pouco sensível...
    Contudo, faço o reparo que quase todos os dias chegam refugiados, quer sírios, quer de outros lados, à Europa e vejo que há esforços para os receber mas os recursos de alguns países também são bem limitados. Vejo toda a culpa disto, não nos que, por mais que tentem, não conseguem acolher todos, mas nos que continuam a financiar, incentivar e fazer a guerra naquelas países. A maior utopia, creio, é projetar um mundo sem guerra, mas seria tudo tão diferente... :(

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Bia, concordo com tudo que disse.

      Um mundo sem guerras é um utopia que deve sempre ser perseguida.

      Obrigado mais uma vez.

      Excluir
  3. Emocionante! Me lembrou muito o livro que estou lendo,sobre Alemanha nazista, onde os presos em Auschwitz escreviam cartas aos familiares (que não eram entregues), mesmo com todo o terror,eram cartas tranquilas, cartas que mesmo no meio do desespero, era possível tirar um pouco de amor, conforto e esperança. Assim como Samir, vendo seu país desmoronando e ainda podia escrever com toda paciência, leveza e coração.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Obrigado, Raíssa, o drama na Alemanha encontrar paralelos com o que acontece atualmente na Síria.

      Tem razão ao fazer a comparação. O que nos resta é torcer para a razão prevalecer novamente.

      Obrigado pelo teu comentário.

      Excluir
  4. Adorei o conto. De facto esta é uma situação recorrente dos nossos dias. Será que nós não podemos fazer nada para mudar isto? Esta relação de amor entre o pai e o filho, mostram-nos que eles são tão pessoas como nós. Todos devemos ter o direito á vida!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Concordo integralmente com o que disse, Joao.

      Bem-vindo e obrigado pelo teu omentário!

      Excluir
  5. Emocionante brother, me lembrei daquele filme "A Vida é Bela". Se não me engano o filme é ambientado na Alemanha Nazista. E essa história me lembrou muito o filme, como sempre sua escrita é fantástica e me leva as lágrimas, a parte que mais me tocou foi:

    "Pai, eu estou com medo. O céu está escurecendo e não é porquê está anoitecendo, ele está tomado por nuvens cinzas, carregadas de chuva, além disso, o mar começa a ficar revolto e, se antes quase não haviam ondas, agora temos que vencer uma série delas para continuar. Nosso atravessador disse para que nos preparássemos pois enfrentaremos uma forte tempestade. Está todo mundo apavorado, até mesmo os tios, que por quase nada se abalam, também estão. Que Alá nos proteja mais do que nunca!”

    Achei tão intenso a forma como Samir descreve a tempestade e principalmente o fato dele ainda cotnar seus temores ao pai, mesmo reconhecendo que os tios não estavam com medo, ele foi forte o suficiente pra dizer que estava fraco naquele momento.

    Parabéns pela escrita irmão e sucesso!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Frank, como vai? Também assisti ao filme A VIDA É BELA e concordo contigo. Superemocionante e sensível, um dos melhores filmes de todos os tempos na minha opinião.

      Obrigado pelo teu comentário generoso. Em tão pouco temo já nos tornamos amigos de infância, rs.

      Abraço, velho, volte sempre!

      Excluir
  6. Olá, Rob!

    Mais um conto bem escrito e emocionante hein?
    E é uma coisa que muitos vivem, que passam, ne?

    Parabéns pelas palavras

    ResponderExcluir
  7. Muito bonito!
    Adoro contos e textos em cartas... meu livro foi todo assim. =)

    ResponderExcluir
  8. Toda vez que leio texto sobre este assunto ou até mesmo reportagens na televisão eu choro, é muito triste saber que tem tantas pessoas morrendo muitas vezes por nada, tantas crianças, tantos inocentes. Eu acredito que realmente estamos vivendo os últimos dias e só de saber que tudo tende a piorar chega dar um aperto no coração. Mas também existem muitas pessoas boas nesse mundo e vamos ajudando uns aos outros nessa nossa longa caminhada..

    ResponderExcluir
  9. Muito lindo e emocionante!
    Você escreve muito bem.
    Infelizmente é isso que acontece mesmo. Muito triste.

    ResponderExcluir
  10. Oi, Rob! Parabéns pelo conto e pela habilidade em colocar seus sentimentos em palavras. Esse é um assunto muito triste e delicado e é inconcebível que histórias como a sua ainda sejam reais.

    Beijos!
    Amanda

    ResponderExcluir
  11. Que lindo, me emocionou muito e me fez lembrar do meu pai.
    Bjs ♥

    ResponderExcluir

Todos os Marcadores do Blog!

A Coincidência U (1) A Despedida (3) A Graça em Um Bule (1) A Menina de Gabrovo (49) A Nacionalidade da Matemática (1) A Queda do Balonista (2) A Sabedoria de Ser Jovem (1) A Segunda Queda do Balonista (2) Abaixo o Novo Homem das Caverna! (1) Advertência! (1) Alegoria do Fogo (1) Ambicionar é Bom! (1) Amor Ordinário (1) Aninha Dona Fada e os Sapatinhos de Brilhantes (1) Areias do Tempo (1) Asco (1) Atalho (1) Banquete Cigano (3) blogs parceiros (7) Boris e a Menina de Razgrad (3) Cabeça de Cachorro (1) Cacareco (1) Calendário (1) Camisa de Força (1) Cartas de um pai ao filho cartas do filho ao pai (1) Céu de Balões (2) Chamamento (1) Cidade Azul (1) Cinema Mudo: Pequeno Tributo à Chaplin (1) Clarice Lispector (1) Como Surge Um Ignorante (1) conteúdos especiais (2) contos (16) Contracultura (Bob Dylan) (1) Copo de Vidro (1) Corpo Estranho (1) Criançada na Rua (1) crônicas (6) Daquele Jeito (1) De uma breve vida breve em Edvard Hespanhol (1) Democracia Matemática (1) Depois da Fronteira (1) Descomplique-se! (1) Disfarce ou Fantasia? (1) Dois Papagaios (1) Domingo de Páscoa (1) Duelo de Facas (1) Duvide! (1) É Hora da Luta! (1) Enquanto Você Dorme (1) Então S morreu (1) entrevistas (2) Estrela Azul (1) Faz-se Uma Revelação (1) Felicidade Esperada (1) Fetiche (1) Forçosamente (1) Gênio da Alma (1) Há Sempre Um Alguém! (1) hangouts (1) histórias infantis (3) Hoje Tem Palhaçada? (1) Hora da Verdade (1) Identidade Nova (1) Imposição do Eu (1) Invenção da Saudade por Outros Nomes (1) Isaurinha e Seu Fernando (1) Jack um Construtor de Faróis (1) Jogo da Conquista (1) Magricela Revanche e os Meninos da Rua (1) Manifestos da Infância (Série) (3) Mastigado Pelos Nervos (1) Mau Agouro (2) Meio Rato Meio Gato (1) Morte Social (1) Muito Poder Em Um Segundo (1) Napoleão e o Muflão Francês (3) Ninguém é tão forte assim (1) novidades (1) novos autores (1) O Arquipélago dos Morangos (1) O Contraditório da Humildade (1) O Coração de Natalina (1) O Cortejo (1) O demônio dentro da gente (1) O Dilema de Klara (3) O Estrepe (1) O Iluminado Às Favas (1) O Interrogatório (3) O Ovo e a Tartaruga (1) O Prazer do Cuidado (1) O Quadro Misterioso (3) O Resgate de Lazar (3) O Tomateiro (3) O Vale dos Órfãos (2) Os Segredos do Gozo (1) Osvardo: Terra dos Pedros (1) Outono de Oitenta (1) Paixão Acidental (1) Pedaço de Pão (1) Pedro o Muflão da Montanha (3) Pensamento Livre (1) Percepção e Compreensão (1) poesias (88) Poética do Morro (1) Povo Bobo de Novo (1) processo criativo (1) Quase Tudo! (1) Que é Que é o Parlamento? (1) Que tal? (1) Quente e Frio (1) Quilômetro Cinza (1) Reação em Cadeia (1) Refugiados do Pão (1) Relações Destrutivas (1) Renúncia Estrangeira (1) resenhas (7) Respiração. Expiração. Inspiração. (1) Revolução do Sexo Próprio (1) Roda Viva (1) Sacha e Peter um Beijo de Pizza (1) Salvando o Coelho (1) Sapo Sábado no Sapato (1) Segredos da Poesia (1) Senhor Polvo Castilho e as águas-vivas (1) Senta e Escreva (1) Significado e Significância (1) Singeleza! (1) Solidão Acompanhada (1) Sou Desses (1) Sou Frágil (Ou Não) (1) Tangerina (1) Telefone Sem Fio (2) Terra Iluminada (1) TMM - O Cruel Destino de um Homem Bom (1) Trump. Nove de novembro. Um dia depois do Engano (1) TV Cultura (1) Um Livro (1) Um pouco do que penso a respeito de Machado de Assis (1) Um Shakespeare que só farfalhava o melhor português (1) Uma Declaração (1) Uma Experiência (1) Urso Antes e Depois do Homem (1) Uva Verde (1) Velislava a Raposa de Fogo (3) Verbo Amigo (1) Viagem Inesquecível (3) vídeos (1) Vovó Yordanka (3)