sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

Conto: Uva Verde.


Dois feiticeiros, discípulos de Merlim, iniciaram uma vagarosa travessia pelo deserto em busca do fortalecimento de suas magias; uma travessia que exigisse, tanto de um como do outro, resistência física, uso consciente de feitiços e força de vontade de não querer desistir. No meio do caminho, depararam-se com um andarilho sentado aos pés de uma árvore açoitada pelo clima árido, próxima de um lago seco.

“A gente vai falar com ele?”

“Ele está sozinho, não há mau em nos apresentar.”

Os feiticeiros caminharam até o andarilho e viram que ele penava gravemente por causa do calor extremo, parecendo dar seus últimos suspiros.

“Não foi uma boa ideia um homem sem provisões ou recursos caminhar pelo deserto. Precisa da nossa ajuda?” - um deles se colocou na sua frente.

“Mas do que uma má ideia, caminhar pelo deserto assim foi uma completa estupidez.” - o outro também se aproximou então. - “Não tem água e está morrendo de sede, não tem pão e está com fome. Está fraco e agora vai morrer.”

O andarilho encarou os dois feiticeiros com orgulho de si próprio, altivo. Mesmo assim, os feiticeiros continuaram. Disseram:

“Estamos esperando você implorar por socorro.”

“Não vamos ajudá-lo sem que peça com fervor.”

Foi então que o andarilho, com a voz fraca, ensaiou a fala:

“Eu não quero a ajuda de vocês.”

Os feiticeiros se entreolharam, inabaláveis. Sabiam que isso não era verdade.

“Podem ir embora.” - o andarilho completou.

Os feiticeiros deram meia-volta, porém, no que começaram a se afastar da sombra da árvore, voltaram a se colocar diante do andarilho.

“Não podemos deixá-lo aqui.” - um dos feiticeiros disse. - “Seremos cúmplices de um assassinato se deixarmos você morrer. Seremos responsáveis pela sua morte, o que nosso Mestre, Mago e Profeta Merlim não aprovaria.”

O andarilho encontrou forças para contra-argumentar:

“Isso não é verdade.” - murmurou já quase sem voz. - “Sou um homem livre, sou o responsável e o dono do meu destino. Se for da vontade do deserto que eu morra, a responsabilidade também terá sido minha ao ter permitido.” - voltou a encará-los com altivez. - “Ainda que feiticeiros, não são melhores do que eu. Me deixem em paz com meu futuro.”

Ignorando por completo o que o homem havia dito, os feiticeiros fizeram materializar-se em suas mãos dois copos cheios de um líquido verde. Era suco de uva verde, o preferido do andarilho.

“Podemos lhe dar esses sucos, mas tem que pedir com fervor.”

“Sabemos que você quer.”

O andarilho não tirava os olhos dos copos que transpiravam com o calor. Pensou, repensou, chegou a uma decisão para depois recuar e voltar a se decidir pela segunda e última vez.

“Está bem, eu aceito.” - disse.

Os feiticeiros responderam:

“Tem que pedir com fervor.”

“Não estamos convencidos de que realmente quer.”

Foi então que, finalmente, o andarilho implorou:

“Por favor, eu quero muito! Eu preciso destes sucos! Não sei como adivinharam que a minha fruta preferida sempre foi uva verde! Por favor?”

Em uma reação inesperada e não menos surpreendente para o andarilho, os dois feiticeiros viraram os copos para baixo, deixando os sucos se derramarem no chão. Derrotado, o andarilho disse então:

“Havia dito que não queria a ajuda de vocês porque desconfiei que fizessem exatamente isso. Vocês são maus. Finalmente, os dois lobos se revelaram frente a sua presa.”

Em silêncio, os dois feiticeiros sorriram fraternalmente em resposta, como quem contradiz o que acabara de fazer. Não haviam derramado o suco no chão por maldade, pelo contrário, tiveram uma nobre intenção de ajudar o andarilho de verdade. Reconheceram muita dignidade naquele homem que se encontraria com a morte. Os sucos de uva verde penetraram nas areias do deserto e fizeram com que o lago seco se enchesse de uma água limpa e cristalina e a árvore açoitada pela aridez do deserto se revitalizasse, ganhando folhas e cachos de bolinhas verdes. Tratava-se de uma frondosa videira.

Recuperando-se, o andarilho pôde matar a sede e a fome na caça dos bichos que se aproximaram do lago para se refrescarem, e seguiu viagem então. Muito antes disso, os dois feiticeiros já haviam ido embora.

Fim.

26 comentários:

  1. Olá
    Nossa quando li que os feiticeiros derramaram o suco, fiquei com ódio, ainda bem que você reverteu a situação. Engraçado esse conto me lembra muito fábulas sabe, não sei se era a intenção mas fiquei com isso na cabeça.
    Adorei o conto, de novo. rsrsrsrs
    Beijuh

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    1. Obrigado, Renata. Lembra mesmo, não é não, rs?!

      A reviravolta no final ficou bem legal, também gostei.

      Que bom que gostou!

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  2. Oi, tudo bom?
    Que bacana, parece aquelas histórias que as professoras contavam pra gente na escola, sabe? Em que temos que escrever depois a "moral" do conto. Nesse caso, seria: Nunca julgue um mago pela cara. :p

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    1. Jéssica, parece mesmo agora que disse. Não tinha pensado nisso enquanto escrevia. Aliás, enquanto escrevo só penso em contar uma história.

      Valeu elo teu comment!

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  3. Nossa,esse seu conto parece muito com histórias que meu pai inventava quando eu era crianca. Claro, a sua é muito mais elaborada.
    Prendeu minha atenção do início ao fim.
    Fiquei pensando em situações do cotidiano que as vezes somos orgulhosos demais para aceitar ajuda de alguém e ao invés disso prefere aceitar a derrota, enquanto a oportunidade está bem a sua frente.
    Parabéns pela escrita! 💜

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  4. Fiquei com tanta raiva quando eles deixaram derramar o sumo, mas mais uma vez você deu uma ótima volta à história e conseguiu um final perfeito!
    Sinto sempre que os seus contos têm mais para nos dar do que aquilo que nós conseguimos perceber à primeira vista, que tenta sempre passar alguma mensagem. E adoro isso!

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    1. Obrigado, Bia, fico lisonjeado ao saber que sente isso.

      Obrigado pelos teus elogios e inúmeros comentários nesse blog!

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  5. Mais uma vez volto a dizer: seus contos me levam a infância e me faz sentir tantas saudades.
    Amei.
    Parabéns pela escrita maravilhosa que nos faz voltar ao passado.

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  6. Seus contos são tão gostosos de ler... Você é um dos melhores contistas que eu conheço. Sério mesmo. Um dia eu chego lá.

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    1. Eliziane, valeu mesmo!

      Que bom que gosta tanto dos meus contos assim. Saber disso é um incentivo a continuar escrevendo.

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  7. Oi Roberto, tudo bem? Que conto mais incrível. Gosto tanto quando leio textos que me fazem imaginar uma situação tão real assim. Consegui ver o deserto, a videira, e até os copos com suco. Você escreve muito bem, parabéns! Beijos, Érika ^^

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    1. Érika, obrigado! Comigo, acontece o meso quando escrevo. Visualizo tudo, caso contrário a história não ganha vida na tela do meu notebook.

      Obrigado pelo comentário, volte sempre!

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  8. Rob, só me restou uma dúvida, como um homem enfraquecido pelo deserto consegue caçar? Feito dos magos, também?

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    1. Vitor, ele se recuperou. Foi recuperando as forças, bebendo e caçando. Respondi?

      Obrigado pelo comentário.

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  9. Olá. Sou nova por aqui e te digo que não quero mais sair. Esse conto me fez refletir, ainda mais por estar numa fase da vida bem assim mesmo, reflexiva. Tiro muitas lições dele. Muitas vezes somos orgulhosos pra pedir ajuda, eu sou. Me senti como esse andarilho, quase morrendo, sofrendo, mas lutando com todas as forças, mesmo pequenas, pra não precisar pedir ajuda. Mas sabe o que é mais interessante analisar aí?? Que muitas vezes não peço ajuda com medo da resposta, da atitude, do retorno das pessoas. Medo delas derramarem o "suco de que tanto preciso no solo", ao invés de me ajudarem. Porém, no fim do conto, tudo se reverte e posso ver que ainda posso confiar, que ainda existem pessoas capazes de ajudar, mesmo que de cara parece o contrário. Belo aprendizado recebi!! Parabéns!!

    http://solteiricedemae.blogspot.com.br/

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    1. Obrigado por palavras tão belas e delicadas, cara leitora. Muito gentil!

      Se consegui lhe transmitir esses ensinamentos, ganhei o dia, a semana, o mês, o ano, a vida toda, rs.

      Volte sempre!

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  10. Oi Roberto, você já pensou em criar contos para alfabetização infantil? Suas histórias são recheadas em ensinamentos e podem muito bem se enquadrar na rede se adaptar para educação. Adorei o conto, a reflexão e o universo que foi criado.

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    1. Valeu, Marizoch, já pensei sim. Em busca de uma oportunidade.

      Quem sabe um dia não consiga?!

      Volte sempre!

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  11. Oi Roberto,

    Mais uma vez, parabéns pelo conto! Que reviravolta, hein? :)
    Para mim, ele foi bastante reflexivo! Na vida as coisas também são assim... as vezes é difícil determinar a verdadeira intenção de uma ação! E as vezes somos orgulhosos demais para ver o lado bom de algo que a princípio parecia negativo!

    Parabéns novamente, até mais!

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    1. Maritza, obrigado pelo teu generoso comentário! Concordo com o que disse.

      Obrigado mesmo e volte sempre!

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  12. Oi Roberto, pense em uma pessoa que ficou com raiva desses feiticeiros ao derramarem o suco! Ainda bem que o final foi diferente e surpreendente, me lembrou o tempo de escola, minha infância, que lembranças maravilhosas! Obrigada

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    1. Sou eu quem agradece, Renally.

      O final foi mesmo surpreendente, concordo, kkk

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  13. Olá Roberto,
    Lindo conto! Faz refletir em como devemos aguardar realmente o fim pra alcançarmos nossos objetivos.
    Já dizia Fernando Pessoa: "No fim tudo dá certo. Se não deu certo, é porque não chegou ao fim".

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    1. Gabriela, essa citação de Fernando Pessoa eu não conhecia. Gostei muito.

      Obrigado pelos elogios, comentário, e volte sempre!

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