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sexta-feira, 17 de março de 2017

Conto: Jack, um Construtor de Faróis.


Engenheiro na construtora do pai, a quem o tratava, de modo formal, como John, Jack era um homem obstinado a prosperar e as sortes do destino conspiravam ao seu favor. Buscava tudo que queria, conseguindo tudo que buscava.

Casou-se dias depois de abrir sua própria construtora. Passado um mês do casamento, a esposa deu-lhe a maravilhosa notícia: estou grávida! Jack já seria papai então, porém, alegria maior teve ao saber, três meses antes do parto, que não teria apenas um bebê, mas três adoráveis bebezinhas. Descobriu por acidente esse maravilhoso detalhe. Haviam combinado, ele e a esposa, que só iam saber o sexo do bebê no momento do parto, quando, da cozinha de casa, ouviu a mulher cochichar, em êxtase, para uma amiga que gestava três menininhas. Ficou feliz mesmo assim. Não deixaria que esse insignificante incidente atrapalhasse o casamento ou diminuísse a alegria que sentia.

Os negócios iam de vento e pompa, só não iam melhor do que os da construtora do pai, que construía faróis maiores, que podiam ser avistados a uma distância maior. Os faróis construídos por Jack estavam crescendo no entanto. Rapidamente, construía dois por ano pelo litoral do estado.

As três bebezinhas de Jack, farol por farol construído e entregue, cresceram sem perderem a doçura mas não se interessaram pelo ofício do pai. Talvez porquê nunca tivessem tido a avó por perto para influenciá-las como havia influenciado Jack, o mais velho de cinco filhos, a seguir a profissão do pai. A avó morrera um ano antes do nascimento das meninas, de causas naturais, infartada em uma manhã de inverno. Aplicadas nos estudos, alegres, cheias de amigos: elas levavam uma vida feliz. Aos dezoito anos, as três saíram de casa e foram morar em outra cidade, onde ingressaram na universidade mais conceituada do estado. Jaqueline estudava para ser obstetra, Jenny, advogada, Jill, para educar crianças, sonhava ser professora.

E Jack não parava de construir faróis ao mesmo tempo em que também recusava trabalho. A construtora de Jack não crescia muito, mantinha sempre os mesmos trinta funcionários, pois não queria que seu trabalho fosse engolido pelos negócios e virasse escravo do dinheiro. Sua turma construía os segundos melhores faróis do estado, nenhum exageradamente alto, os primeiros e os mais altos eram construídos pelo exército braçal de seu pai.

Foi então que Jack resolveu mudar certo dia depois de ir com a esposa visitar o pai que lhe contara de um novo projeto: ia levantar o maior farol já construído no país, um farol cujo interior era revestido de mármore, automatizado e com equipamentos de última geração. Quando entregue, seria capaz de orientar o barco mais longínquo do porto. Viu-se invejoso do projeto, um sentimento que, com muita dissimulação e destreza, não deixou transparecer ao pai. - Está na hora de construir o mais grandioso farol do estado, o maior que já construí. - atestou a si próprio ao dirigir de volta para casa.

Contou a novidade à esposa, que ficou assustada inicialmente mas depois deu um caloroso beijo no marido. E começou então a construir seu ambicioso farol. Seria um presente às três filhas e à esposa. Poderiam passar as férias de meio do ano lá. Contratou mais mão de obra e fez um empréstimo no banco. Demoraria dois anos para que ficasse pronto, desde que começasse imediatamente. Em um mês, já havia comprado o terreno, um casarão abandonado na divisa com uma praia mais isolada da cidade, e estava terminando de aplainar o solo e iniciando as fundações do farol.

Desde o começo da empreitada, Jack enfrentou sucessivos imprevistos e dificuldades, mas não desistiu afinal era o maior farol que construía, o mais ambicioso, um símbolo de que era tão competente e capaz quanto o pai. Ora o material faltava e ele tinha que pedir um novo empréstimo no banco para continuar a obra, ora os trabalhadores entravam em greve, reivindicando melhores salários, ora o clima não cooperava, chovendo torrencialmente por dias. Acabou que a obra se estendeu além do planejado, um ano a mais, até que, enfim, ficou majestosamente pronta. Era o mais belo monumento da praia e podia ser visto há quilômetros de distância. John teria bastante orgulho do filho quando visse o farol finalizado.

Se aproximou então o dia de uma inauguração que nunca aconteceu. Na noite anterior à cerimônia marcada na manhã do dia seguinte, cujo prefeito e autoridades do estado haviam sido convidados, o farol ruiu e desabou sobre as próprias fundações, de fora para dentro. Uma completa estupidez. Foi notícia, não apenas na cidade, em todo mundo. O projeto de Jack fracassara faraonicamente assim como a sua credibilidade de engenheiro e a sua fama de bom construtor haviam desabado junto com o farol. Cheio de dívidas, Jack empobreceu do dia para a noite e decretou falência. Por uma sorte que nunca reconhecera, nenhum de seus operários ou moradores da pequena praia morreram no desabamento.

Semanas depois, Jack voltara a trabalhar na construtora do pai.

Desde o início, fosse melhor assim: levantar faróis que não os seus.

FIM.

32 comentários:

  1. Gostei bastante da reflexão... Enquanto Jack mantinha-se modesto, seus negócios iam bem; quando tornou-se muito ambicioso - e o maior farol da cidade lembra bastante a história da Torre de Babel -, seu sucesso foi por água abaixo. Boa metáfora de como a ambição em demasia pode ser destrutiva, mas também temos que pensar que ambição de menos é igualmente perigosa, fica a dica para um próximo conto! ;)

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    1. Oi, Gabriele, obrigado. Anotado tua dica, haha.

      Abraço.

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  2. Não sei como você consegue ter tanta criatividade para escrever tantos contos na mesma semana, enquanto eu demoro séculos para escrever kkkk
    Muito bom o texto, se não me engano li um conto similar teu onde a menina trabalhava na empresa do pai rico, mas ela começa a trabalhar em outra empresa, mas acaba voltando para o pai! (Se não foi você que escreveu, me desculpe) kkk Outro conto que ficou na minha mente!
    www.dobbyapresenta.blogspot.com

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    1. Oi, Garoto, obrigado pelo comentário e por prestigiar meu conto. Não me recordo desse conto, acho que não foi eu quem escreveu, rs.

      Valeu?
      Volte sempre!

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  3. Olá, como vai?
    Eu gostei do conto, pena que de Jack se deu mau (rs)
    Quando fui lendo com relação as filhas ótimas e a felicidade dele, achei que alguma das filhas iria morrer, teria sido bem mais triste.
    Gostei muito da reflexão, a ruína do homem é a ambição.
    Beijo
    https://qadulta.blogspot.com.br/

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    1. Obrigado, Poliana, que bom que a surpreendi, haha!

      Concordo que a ambição em demasia é a ruína do homem. A história de Jack mostra isso.

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  4. Olá, Rob!
    Isso foi o preço que ele pagou pela ambição. Infelizmente a vida é assim. Por isso é bom que sejamos sempre humildes independente da situação.
    Amei e parabéns mais uma vez.
    Saiba que sou sua fã.
    Grande beijo

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    1. Obrigado, Cássia, você já é de casa, haha; volte sempre!

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  5. Gente, que texto maravilhoso, parabéns pela sua escrita e narrativa!
    A ambição leva o ser humano a fazer coisas inimagináveis, infelizmente foi o caso desse pobre moço. Bom para ele que o pai não guardava nenhum rancor ou mágoa dele!

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    1. Obrigado pelo elogio, Ana, é exatamente isso: a ambição em demasia desgraceia o homem, haha.

      Abraço. Siga acompanhando o blog!

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  6. Penso que você deveria publicar seus textos em um livro algum dia, são excelentes! O de hoje é uma ótima metáfora do nosso dia-a-dia, infelizmente. É um texto para se refletir! Parabéns!

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    1. Obrigado, amigo, valeu mesmo!

      Continue acompanhando o blog...

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  7. Oi Rob, tudo bem?

    Mais uma vez, seu texto está muito bem escrito. Confesso que fiquei triste com o desfecho do conto, mas ao mesmo tempo alerta. O que você descreveu é tão real e acontece tão constantemente que me pergunto se o ser humano já não é movido pela sua soberba e ambição. As pessoas sempre querem mais e muitas vezes irão pagar um preço muito alto por esse mais, as mesmas deveriam se contentar com o que possuem.
    Excelente texto, que nos permite boas reflexões!

    beijos!

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    1. Obrigado, Alice, muito generoso e perspicaz seu comentário! Concordo com tuas reflexões.

      Volt sempre!

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  8. Já falei que adoro seus contos e as reflexões que eles trazem... Melhor manter sempre o foco no horizontes... não precisamos enxergar mais longe de uma única vezes, podemos ir fazendo isso, cada dia um pouco...

    Bjos

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    1. Obrigado, Luísa, é exatamente isso, rs.

      Siga acompanhando o blog!

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  9. Que conto tão interessante! Certamente faz refletir sobre a ganância e ambição das pessoas. Certamente para refletir

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    1. Obrigado, Miguel, reflitamos então, haha...

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  10. Gostei da mensagem que esse conto passou. Ainda bem que outros não sofreram por causa de sua ambição, a não ser ele mesmo e sua família, que passou pelo momento de falência, infelizmente. Fiquei feliz que se recuperaram, e que ele aprendeu com a lição. Creio que o melhor que ele poderia ter feito, era ter ficado ao lado do pai, e ter observado o seu trabalho, antes de querer fazer tudo sozinho. Ele ainda não estava pronto. Tudo que é construído, com uma base fraca, que no caso é a inveja, uma hora, desmorona.
    Parabéns pelo conto! Escrita incrível!

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    1. Valeu, Suellen, incríveis são a tua generosidade com esse blog e teu carinho para comigo. Obrigado pela visita e comentário!

      Siga acompanhando o blog!

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  11. Oi Rob,

    Parabéns! Você sempre consegue passar uma mensagem positiva nos seus contos, mesmo que eles não tenham um final feliz. Me peguei refletindo sobre o real motivo da ruína de Jack (e do farol), muitas vezes em busca de um objetivo deixamos de racionalizar nossas próprias capacidades e ficamos refém dos nossos desejos!

    Parabéns pelo conto e por constantemente estar produzindo um conteúdo que dá gosto de ler!

    https://prologodaleitura.wordpress.com/

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    1. Obrigado, Maritza, quase cai para traz lendo teu comentário. Amei o que disse e super concordo! Sabias palavras...

      Siga acompanhando o blog

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  12. Oi!
    Adorei seu texto, é o primeiro que leio e com certeza voltarei aqui para ler mais.
    Adorei a mensagem passada nele, sobre a ganância, inveja e ambição e o preço que ela trás para nossas vidas.
    Sempre é preciso ser humilde e ter paciência em nossas vidas, caso contrário podemos nos dar muito mal

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    1. Sabrina, é isso mesmo, rs...

      Obrigado por teu comentário e siga acompanhando o blog!

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  13. Acho que o problema do Jack foi a sua ambição desmedida, além da inveja, que obviamente, nunca foi boa conselheira. Muito bom o seu conto, gostei muito. Parabéns!

    Tatiana

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    1. Também acho, amigo(a), obrigado por teu comment e elogio.

      Siga acompanhando o blog!

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  14. Oiee, mais uma vez belissimo texto que nos arremete a m momento de reflexão sobre nossas atitudes e ambições! não importa qual o nosso desejo desde que o busquemos sempre com humildade.

    Bjs Jany

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    1. Janiele é isso aí: ambição em demasia nos cega e nos torna irresponsáveis.

      brigado por teu comentário e visita!

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  15. É como diz o provérbio "Quem tudo quer, tudo perde"... Quando mais alto a voo, maior a queda, não é mesmo? Gostei bastante da reflexão e o quanto trabalhou o conto para chegar a isso. Ótimo, como sempre!!
    Beijos

    Pseudo Psicologia Barata

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    1. Sim, Bia, quem tudo quer, tudo perde, ou então, quem tudo quer, nada tem, rs.

      Obrigado pelo prestígio e pelo comentário; siga acompanhando o blog!

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  16. Oie, tudo bem? Como já disse algumas vezes você escreve muito bem. O conto é muito criativo, mas não concordei com o final (sorry). Acredito que mesmo fracassando devemos seguir em frente e construir nossos próprios faróis. Imprevistos acontecem no meio do caminho, mas devemos ser mais fortes que eles. As coisas não saíram como queremos, paciência. Ergue a cabeça e luta de novo (minha opinião). Parabéns novamente. Beijos, Érika ^.^

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    1. Tudo bem, Érika, gosto não se discute. E não é que concordo comm tua opinião a respeito de seguirmos em frente, haha?!

      Obrigado, pela visita e siga acompanhando o blog!

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