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domingo, 5 de março de 2017

Conto: Terra Iluminada.


A explosão da Supernova.

Trinta mil e cinco vezes maior do que o Sol, uma estrela de nêutrons, resultado da fusão de dois gigantescos buracos negros, depois de um longo tempo se expandindo e engolfando dezenas de outras estrelas, colapsou, explodindo então e cumprindo sua missão de estrela. Sua explosão gerou uma Supernova, um cataclismo luminoso, brutal e terrível, cujo poder condenaria à destruição tudo em seu caminho. Em uma constelação perigosamente próxima dos domínios da Terra, por consequência do Sistema Solar, no centro da Via Láctea, a explosão se dera em uma zona hostil e de forças devastadoras, embora nada que se comparasse a destruição gerada pela Supernova. Explosão tão descomunal que a constelação inteira foi extinta pela explosão.

E foi engolfando tudo, e destruindo tudo que encontrou. Em dois dias, chegaria aos domínios do Sol, pondo fim à Terra, aos planetas e tudo mais que o orbitasse. Antes da explosão, enquanto se expandia, quem olhasse para o céu negro de uma noite da Terra, veria que a estrela de nêutrons não passava de um pontinho pulsante no meio de inúmeros outros, no entanto, conforme o pontinho passou a se destacar das demais estrelas, chegou a ser quase cem vezes maior e mais brilhante, e chamou a atenção dos astrônomos e cientistas. Governos ao redor do mundo organizaram às pressas seminários, debates e discussões, a fim de que se revelasse o mistério do pontinho pulsante que não parava de aumentar, até que se deu a explosão, surpreendendo a todos, e uma circunferência luminosa apareceu no céu. - Testemunhamos o nascimento de uma Supernova muito próxima da Terra. - chegaram a conclusão. Com a conclusão, também foi dada a sentença, o alerta. - É o nosso fim, o fim da Terra, o Juízo Final. Vamos todos morrer.

Ninguém queria acreditar que tal catástrofe aconteceria de fato. A negação foi generalizada. - Mentirosos! Sensacionalistas! - a humanidade reagiu. Governos decretaram estado de exceção, punindo quem promovesse ou incitasse a desordem pública. Quem se somasse ao alerta dos astrônomos, seria condenado sumariamente à morte e executado na mesma hora da condenação, em países poucos menos alarmados só seriam jogados na prisão, o que também passava longe de ser bom. Porém, a negação não passou de um dia, de exatas vinte e quatro horas desde a explosão. A circunferência luminosa cresceu de repente e logo tomou o céu, deixando-o luminescente, mais claro do que a nuvem mais branca que já existiu. Já não se podia mais esconder o que estava por vir.

Passado a negação, instalou-se então um dia de caos e outro de resignação, de redenção dos povos e nações do mundo. Uma Ordem Global foi imediatamente imposta dividindo a humanidade em duas classes: a primeira, os importantes que eram os bons e que, portanto, seriam os merecidos de serem salvos e os miseráveis, os maus, aqueles que acertassem seus pecados com a Luz; esse segundo grupo, o povo em sua maioria. Teorias e explicações salvacionistas tomaram conta do mundo. A ponderação, a moderação e o meio termo se dissolveram. Era porque era e pronto!

Os presidentes, monarcas, intelectuais e magnatas foram levados para abrigos antinucleares, imaginando estarem a salvos. Perceberiam horas depois que ninguém estava. Como uma prévia do que viria, o clima na Terra subiu dez graus e as geleiras dos polos derreteu-se em minutos, inundando meio mundo, afundando ilhas e redesenhando quilômetros e quilômetros de litorais. Por pouquíssimo tempo, da Islândia até a Antártida, toda a Terra experimentou o calor extremo de um clima tropical.

E o cataclismo luminoso avançava ferozmente enquanto isso, engolfando boa parte da Via Láctea. A explosão havia se dado na constelação que concentrava o maior número de estrelas, algumas centenas de milhares de vezes mais brilhantes que o Sol, que, ao serem engolfadas pela Luz, pareciam alimentar a explosão.

Não houve tempo para que se instalasse o caos ou a guerra derradeira entre as nações. O caos se dissipou com a mesma rapidez em que a estrela de nêutrons havia explodido no céu e a resignação tomou conta do mundo. A essa altura, não havia uma pessoa na face da Terra que duvidasse de que não fosse realmente morrer. Operar os mercados, fazer negócios ou negociatas já não fazia mais o menor dos sentidos. Contrário do que aconteceu quando a circunferência luminosa havia sido avistada no céu, os suicídios desapareceram tal como o céu se tornara branco, mas desapareceu também toda a alegria. Os povos passaram a viver em uma forma redentora de fraternidade, amor e comunhão. Era como se todas as pessoas quisessem ser merecedoras do Reino dos Céus, dignas de estarem juntas de Deus. Até mesmo quem não acreditava na existência de uma entidade suprema, começou a acreditar na existência de forças maiores. - Fenômeno algum no Universo pode deter tamanha destruição de um raio gama, a não ser a força de um buraco negro. - decretaram, os astrônomos. - Mas não há nenhum imenso o suficiente pelo caminho que drenasse os raios gamas. Nada vai salvar a Terra, seus povos e culturas. Imaginássemos a misericórdia de Deus, nem isso será suficiente. - logo sepultaram qualquer chance de sobrevivência do planeta.

O Juízo Final chegou então para os domínios do Sistema Solar e, em pouco menos de um minuto, a Luz engolfou a tudo. No momento em que engolfou a Terra, uma família norte-americana estava em volta de uma mesa, como se jantassem normalmente. Encontraram essa forma de agradecer toda a prosperidade que haviam tido e que o bem-sucedido pai imaginava ainda ser pouco. Um grupo de mendigos de uma rua de São Paulo teve uma morte não menos poética: ao relento, iluminados. As tribos indígenas da Amazônia pareceram confraternizarem-se no exato instante do extermínio. Na Rússia, um jovem soldado escolheu morrer abraçado com sua bela esposa, uma bailarina da companhia municipal. Ambos liam Guerra e Paz, de Tolstói. Exércitos de homens e mulheres de boa vontade foram extintos assim como suas honras. Os mais ferozes dos animais, as florestas, as montanhas, os micróbios, as cobras peçonhentas e vales inteiros: tudo foi pulverizado pela Luz. As águas dos oceanos, dos rios, dos lagos e dos aquíferos no seio da Terra evaporaram na décima parte de uma fração de segundo. Os órfãos do mundo morreram perdoando-lhes as mães por tê-los abandonados. As mães, fazendo carinho em seus filhos, os pais, as acompanhando. A própria crença em Deus nunca existiu. O Papa Francisco II encontrou seu fim na Capela Sistina, orando em uma improvisada Última Missa na companhia dos fiéis. Presidentes. Criminosos. Hippies. Crianças. Idosos. Heróis. Vagabundos e africanos. Todos incinerados em paz pelos raios gama. No que cumpriu seu destino com a Terra, a destruição seguiu por mais sete galáxias, alimentando-se com mais estrelas, quando só parou de engolfar o que encontrou ao ser parado por mistérios ainda maiores, por forças impossíveis de serem sequer imaginadas.

Novos universos surgiam imediatamente depois.

FIM.

26 comentários:

  1. A qualidade estrutural do seus contos são realmente incríveis. Já participou de alguma antologia, talvez devesse considerar a hipotese.

    Beijos da Nanáh!

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    1. Oi, Nanáh, muito obrigado pelo comentário!

      Sobre a antologia, nunca participei de uma não. Quem sabe algum dia!

      Volte sempre!

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  2. Olá Rob, adorei o texto. O Universo e seus mistérios, quando mais nova sempre pensei que a terra seria a gema do ovo e a clara o universo e que teria alguém nos observando, kkkk ..
    Muito bom.
    Abraços,
    Uiara Melo.

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    1. Uiara, valeu pela visita!

      O Universo de fato tem muitos mistérios Não conhecemos nada, absolutamente nada dele. E quando achamos que conhecemos, pronto, regredimos tudo outra vez e quebramos a cara, kkk

      Abraço.

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  3. Olá, fico impressionada com a sua capacidade de escrever textos claros e incríveis, eu adorei e só tenho como elogiar, sou fã já, parabéns pelo conto e conte comigo para ler os próximos!

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    1. Obrigado, Camille, contarei!

      Seus comentários aos meus contos são sempre muito gentis, característica de sua personalidade.

      Volte sempre!

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  4. Roberto é o primeiro conto seu que leio e preciso dizer: sensacional! A leitura fluiu rapidamente e o texto é incrível! Já pensou em publicá-los ou algo assim? Eu compraria seu livro!

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    1. Oi, como vai? Antes, obrigado pelo comentário. São comentários como o seu que me motivam a continuar escrevendo minhas doidices, kkk.

      Sobre a publicação, a resposta. É um desejo que eu tenho.

      Volte sempre!

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  5. Ah, Rob, ficou fantástico (:
    Ainda bem que seguiu trabalhando antes de postar (:

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    1. Vitor, nossa, que bom que gosto, rs!

      Fico que feliz que tenha achado sensacional.

      Volte sempre, não precisa nem bater na porta. Já vai entrando, rs.

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  6. Maravilhoso, amei seu conto!

    Fiquei imaginando a família norte-americana e todos os outros povos, e também me imaginei, apavorada e gritando. Não estaria preparada para o Juízo Final.

    Gostei da sua escrita, é leve e bem construída.
    Beijos!

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    1. Gatinha, imagina eu, kkk Sairia que nem louco correndo pela rua acenando para alguma nave alienígena me levar, rs.

      Seria punk! kkk

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  7. Olá Rob, tudo bem?

    Eu consegui viajar no seu texto, fui literalmente transportada para outro universo e imaginei as cenas acontecendo constantemente no Universo. Consegui visualizar as explosões. Seu texto está simplesmente fabuloso, como sempre. Você é extremamente talentoso!

    Beijos!

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    1. Alice, muito obrigado pelos elogios e principalmente pelo "extremamente talentoso"! Você é que é extremamente carinhosa comigo. Obrigado de coração.

      Volte sempre!

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  8. Uma das minhas matérias preferidas na escola era ciência,sempre achei uma matéria misteriosa, pois sempre tem coisas novas a aprender e descobrir. Ótimo o seu conto!!

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    1. Obrigado, Dayane. Também sou fã do Universo, haha.

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  9. Digo e repito todas as vezes que venho ler um conto aqui: Seus textos são MARAVILHOSOS, Rob.
    A forma como você escreve nos conecta e nos prende à história de uma maneira fabulosa.
    Que você tenha mais e mais sucesso sempre e que continue produzindo contos cada vez melhores, para nossa alegria! :)

    Beijos.

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    1. Obrigado, Thayama, feliz que tenha gostado desse conto!

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  10. Olá! Gostei muito do conto e de como abordou a questão dos ciclos do universo, de destruição e renascimento. Parabéns pelo texto.

    Beijo!
    Amanda
    Metamorphya••• Particpe do Sorteio de 1 Ano do Blog!

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    1. Valeu, Amanda, volte sempre!

      Obrigado por tudo!

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  11. Bacana esse conto, você está se superando a cada dia que se passa, viajei nesse universo agora, confesso que deu medo em pensar na situação.

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    1. Obrigado, Luiza!

      Então somos dois, hehe: imaginar tal apocalipse luminoso foi um pouco tenso, hehe

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  12. Que lindo! Amei, é muito diferente o tema que você abordou, achei bem poético, tem uma liçao por trás sobre vida e real importância dela para nós! Parabéns!

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  13. Ficção poética! Adorei a mistura, Roberto! =)

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