sexta-feira, 28 de abril de 2017

Conto: Alegoria do Fogo.


“Até amanhã, Flor!”

“Até amanhã, senhor Casabela!”

Com o fim de mais um expediente na sede de um grande banco, Rui Casabela deixou sua sala, despediu-se de sua secretária particular para logo se dirigir até o estacionamento do prédio, onde apanharia o carro e voltaria para casa. Mas não sem antes de se despedir do irmão, que também trabalhava no banco.

Pegou o elevador e desceu até o andar do departamento de marketing. Logo na porta da sala porém foi avisado por um faxineiro que Reinaldo Casabela não se encontrava mais no prédio, que havia deixado a empresa logo após o horário do almoço.

“Não está aqui? Por que? Ele sempre avisa quando deixa a empresa. Sabe se aconteceu alguma coisa?” - Rui não escondeu a preocupação.

No que o faxineiro respondeu com confiável normalidade:

“Não me disse por que saiu, senhor Casabela, mas falava ao celular e estava apressado.”

Rui agradeceu o homem pela informação, deu meia-volta e entrou no elevador para se dirigir ao estacionamento. Quase não se via ninguém pelo caminho. O prédio estava vazio. Ainda no elevador, pegou o celular em um bolso da parte de dentro do terno para ligar para o irmão, no entanto, logo que encontrou o número na agenda, guardou o telefone. Lembrou que o sinal era muito ruim no elevador e que quase nunca vingava. Ao chegar no estacionamento, ligou então para o irmão mas ninguém atendeu. Ligou de novo sem sucesso. O número acusava estar fora da área de serviço.

Tudo em volta mal iluminado, podia sentir cada pancada de chuva no lado de fora do estacionamento. Sucedeu-se então o começo de um acontecimento assustadoramente improvável: Rui Casabela escorregou no piso molhado, bateu a nuca no chão e perdeu os sentidos. Morreu para o mundo vigente na Terra, nascendo para outro às portas de um mundo escuro e indesejável. Imaginou que houvesse caído dentro de alguma caverna. Se levantou e estendeu os braços para os lados, caminhando por um lugar que se assemelhava a um túnel abafado e cavernoso, enquanto tateava ao redor em busca de saída.

“Socorro! Alguém pode me ouvir?” - gritava por ajuda.

Algo mais improvável aconteceu logo em seguida: uma pisada em falso, Rui Casabela caiu pela segunda vez. Segunda queda, interminável, cuja escuridão ia sendo iluminada por uma paisagem predominada pelo fogo. Adentrava um mundo horrível até que parou de cair ao chocar-se contra um paredão de pedras. Não se machucou, morreu pela segunda vez, só que percebendo-se mais despertado do que nunca. Se levantou, olhou para os lados e não quis acreditar ser real o lugar aonde havia chegado. Em sua volta, uma paisagem agonizante com rios de fogo, precipícios sem fim, vales e montanhas que pareciam se derreter, tamanho era o calor.

“Isso não está acontecendo comigo! Não pode ser verdade!”

Não se enganou com a conclusão que teve em seguida. No que chegou, foi logo encontrado por almas caídas, a maioria há muito mais tempo que ele.

“Até que enfim chegou!” - uma figura masculina corpulenta se destacou das demais - “Está atrasado para a reunião. Ele está te esperando.”

Surpreendido, Rui Casabela viu-se sem resposta ou reação.

“Por que a demora? Vamos!” - o homem ordenou.

“Quem são vocês e onde eu estou?” - Rui Casabela perguntou quase que de uma só vez.

O homem se irritou.

“Que você acha que aconteceu com você e com todos aqui?” - se aproximou e fez com que Casabela começasse a andar. - “Está atrasado. Ele está te esperando.”

No meio do caminho, avistou três criaturas demoníacas dormindo pesadamente aos pés de um monte. Mais à frente, deparou-se com outras duas. Haviam centenas de outras e todas dormiam pesadamente. Foram dominadas e postas para dormir em sono eterno após as almas caídas se rebelarem e tomarem o poder naquele mundo horrível.

“Mas quem é que está me esperando?” - Casabela perguntou certa hora.

O homem nada respondeu. Orientou-o apenas:

“Você faz perguntas demais e isto pode lhe trazer problemas. Cala boca e continue andando!”

Passado algum tempo, Rui Casabela deu-se por conta de que haviam muito mais almas ali do que ele jamais imaginou encontrar. Uma verdadeira multidão judiada e maltrapilha se reunia ao redor de algo ou de alguém que não conseguia identificar.

“Você!” - uma voz potente se fez ser ouvida. - “Aproxime-se!”

“Aproximar-se aonde?” - Casabela continuava sem enxergá-lo.

Foi sendo empurrado pela multidão até o meio da reunião. Viu assim que não se tratava de nenhuma divindade ou criatura, mas, sim, de um homem aparentemente comum. Intuiu corretamente ser o líder da multidão.

“Por que demorou?” - o homem quis saber.

“O senhor me esperava?” - Casabela, sem entender nada, perguntou de volta.

Os que estavam ao redor de Casabela o encararam com nojo e reprovação neste momento.

“Tolo!”

“Conspirador!”

“Quer que prendamos ele, Mestre?”

“Como ousa falar assim com nosso Mestre Supremo?”

Antes que a multidão avançasse contra Rui Casabela, o homem misterioso interveio então, mostrando inesperada benevolência.

“Silêncio!”

A multidão obedeceu de pronto.

Em seguida, o líder das almas caídas refez a pergunta:

“Seus talentos com os números serão valiosos para a nossa revolução, senhor Casabela. Está atrasado. Por que demorou?”

Sem saber o que responder, Rui Casabela encheu-se de coragem para perguntar:

“O senhor pode me dizer por que me trouxeram para este lugar?”

Todos o encararam horrorizados e Casabela logo percebeu que não havia causado uma boa impressão e que não seria perdoado por isso.

“Levem esse homem e o coloquem nas jaulas do Grande Vulcão, junto com os outros traidores! Pelo jeito, me equivoquei ao pensar que nos seria útil. Lá, será o lugar dele agora!”

O líder da multidão ordenou aos que estavam ao redor de Casabela. Prontamente e com truculência, as almas o agarraram pelos braços e foi levado pela multidão furiosa até o Grande Vulcão. O inocente executivo do banco viu que o Grande Vulcão era, na verdade, um terrível lago de fogo. No alto, içadas por grossas correntes, haviam centenas de jaulas superlotadas.

“Mas o que é que eu fiz de errado?” - tentou argumentar antes de ser jogado na jaula. - “Por que estão me colocando aqui?” - ouviu, como resposta, escárnio e xingamentos vindos da multidão.

Foi após ser içado junto aos outros condenados daquele mundo horrível que Rui Casabela se lembrou então que procurava alguém. - “Esperem, procuro o meu irmão!” - gritou sendo escutado apenas pelos condenados. E no que se lembrou e gritou, foi como se seus olhos puxassem sua atenção para as outras jaulas. Em uma delas, reconheceu quase que imediatamente uma fisionomia esganiça parecida com a fisionomia doce e calma do irmão. - “Não pode ser verdade!” - não quis acreditar que o viu em semelhante desgraça.

Rui Casabela nunca soube como ou o porquê de haverem decaído tanto.

FIM

12 comentários:

  1. Poxa, que triste. Fiquei com muita dó do Sr. Rui.E estou curiosa para saber o porque o pegara. Terá mais? Quero saber o que ronda todo esse mistério.
    Beijo.

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    1. Oi, Cássia, obrigado pelo comentário. Não terá sequência não. É um conto, rs.

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  2. Olá Rob!
    Que texto surpreendente e instigante! Não esperava essa sucessão de acontecimentos. E como o comentário anterior, também fiquei curiosa e espero continuação.
    Abraços!

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    1. Oi, Esther, obrigado. É um conto, não terá continuação.

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  3. Nossa que fim...e não imaginava que ia termina assim rsrsrs

    Beijinhosss ;*
    Blog Resenhas da Pâm

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  4. Fiquei curiosa, nunca teria adivinhado para onde a história estava indo quando li os primeiros parágrafos. Depois quero ler a continuação (vai ter, né?).
    Beijos
    Mari
    www.pequenosretalhos.com

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    Respostas
    1. Oi, Mari, não terá não. É um conto, hehe.

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  5. Rob,
    Adoro seus contos. E com esse não poderia ter sido diferente.
    Sua narrativa é muito boa!

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  6. Oi Rob! Parabéns pelo texto, parece que você conseguiu instigar a curiosidade de todo mundo, rs. Gostei muito da história, não esperava mesmo pelo desfecho.

    Beijos.

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