Roberto Camilotti, blog de literatura

10 de setembro de 2018

POESIA: A Tristeza é Momento.

poesias sobre a depressão, poesias sobre a tristeza profunda

Se a tristeza o abate,
recolha-se um pouco e se olha,
mas não se assole, chora;
é olhando para dentro,
vivendo inequivocamente o que se sente,
que se cresce, que se evolui;
que descobrimos onde se encontra nosso centro,
que a plenitude da alma se constrói.
Se fracassou aos combates,
se retira e se entenda,
mas não fuja da vida, retorne;
não importa quanto tempo depois,
deixa que o próprio tempo, os fracassos, apaguem;
todas suas más lembranças, seus tristes momentos,
um dia passarão como passa o passado;
seus maus sentimentos, pode acreditar,
não serão eternos, são apenas mágoas.

27 de agosto de 2018

POESIA: Pot-pourri em Versos (Homenagem a Drummond).

poesias Drummond de Andrade, poesias em homenagem a Drummond

Tinha uma pedra no meio do caminho.
Longamente caminhamos.
Uma flor na rua!
Longamente caminhamos.
Sua cor não se percebe.
E agora, José?
Devo seguir até o enjoo?
Mundo mundo vasto mundo,
botam a gente comovido com o diabo.
É feia. Mas é realmente uma flor.

Nunca me esquecerei desse acontecimento,
está sem discurso,
está sem carinho,
fundem-se no mesmo impasse.
Uma flor nasceu na rua!
Que pode uma criatura senão,
entre criaturas, amar?
Minha mão está suja.
Preciso cortá-la.
No meio do caminho tinha uma pedra.
Um homem vai devagar.
Um cachorro vai devagar.

(Amanhecerá.)

14 de agosto de 2018

POESIA: Vigília.

poesia sobre a vigília, poesia sobre os perigos da vida

Vigília.
Os perigos da vida
 ante a paz compartilha;
um viver à Essência sem armadilhas.

Vigília.
A alma ameniza.
Entre idas e vindas, ela própria se guia;
de tantas experiências, cada vida é uma ilha,
um pedaço de carne cercado de vida.

30 de julho de 2018

POESIA: Cego, Surdo, e Mudo.

poesias sobre a cegueira, poesias sobre a incompreensão do mundo

(Uma pequena homenagem a João Cabral de Melo Neto)

Cego, surdo e mudo:
ainda assim compreendo tudo.
Ligeiramente estúpido, contra todos,
perdoadamente errado, um antitudo;
e assim assimilando raízes parcas,
tateando intelectos cacundos.
E nos mesmos olhos de hoje, parcos,
raso pelo que tenho nas profundezas, sou a praia,
afundado em razões sem assunto, sinto-me profundo.

Cego, surdo e mudo:
insistindo com as insistências,
preterido de minhas próprias preferências;
o que tudo vê e o que nada enxerga.

Cego, surdo e mudo:
ora um Severino de João Cabral,
o daquele mesmo poeta;
ora um de Melo Neto,
um nordestino, o centrista,
o mocinho e o marginal,
o que briga e não faz por onde,
um assujeitado, um vagamundo.