Crônica: Muito poder em um segundo.


Quando me presto a pensar, e comparar, a influência que meus aprendizados ainda exercem sobre minha vida percebo o valor que um segundo tem em relação ao todo. Quanto os desperdicei por teimosia, e ainda os vou! É em um segundo que a gente muda pelo cansaço do sofrimento, pouco pela dor, mudança cuja decisão de parar de sofrer acontece no segundo de uma revolução por dentro: o famoso “Basta, já chega!”

É no segundo que perpetua-se os velhos erros ou que uma boa ideia se revela. Você escolheu ler esse conto no segundo que leu o título, talvez pensando que nele estivessem dicas para uma vida feliz, - não que sua vida não seja agora, não é mesmo? - e nesse segundo, entre eu e você, criou-se uma conexão. Acredito que o tempo é energia, um cimento invisível no qual construímos castelos de sonhos, pontes que ligam concepções de vidas, povos e muros que os separam. Em um segundo cabe toda a expectativa que existe.

Menino pequeno, cerca de cinco anos para ser mais preciso, foi o tempo suficiente para que acontecesse um acidente que povoaria meu imaginário até hoje: enfiei as duas mãos em um suculento formigueiro (risos), em um barranco. Me lembro ainda hoje de ter voltado para a casa, desesperado, chorando com as mãos levantadas no ar, mas não me recordo do quanto elas doeram exatamente. Melhor assim. As dores que não lembramos talvez sejam aquelas que não suportemos. Até hoje, tenho a marca desse acidente nas duas: minhas mãos parecem com as de alguém muito mais experiente do que um rapaz na casa dos trinta anos. Tenho mãos enrugadas como as de um velho.

O segundo de Einstein não foi diferente do meu: o dele é relativo, o meu é invenção, inacabado. O segundo do homem mais rico do mundo pode ser infinitas vezes mais caro do que o do mais pobre, mas um depende do outro em algum nível. O meu instante depende do seu, o seu vive pelo meu.

Há muita vida em um segundo, há tanto nele quanto a medida poética do sonho e do que se entende por eternidade. É como se a Terra fosse uma imensa fábrica deles.

Comentários

  1. Ainda não tinha visto essa crónica por aqui, mas gostei bastante, principalmente porque me revi bastante na sua ideia e amei como a apresentou! :)

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  2. Obrigado, Bia, fico feliz que tenha gostado e obrigado também pelo comentário.

    Continue acompanhando o blog!

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