Crônica: O demônio dentro da gente.


Antes de tudo, vale a explicação de que tratarei o personagem desta crônica simplesmente por S. E faço isso não por desprezo ou desdém, mas por respeito a uma pessoa cuja minha relação nunca se aprofundou. Lamentavelmente por sinal.

S está morrendo. Percebo isso a olho nu porque, diagnosticado com câncer de esôfago, está cada vez mais magro, esquelético, o olhar opaco, como se, por dentro, não quisesse ou se resignasse em perder a vida. Será que é assim com todos que sabem que vão morrer? É assim com a maioria dos pacientes terminais?

S era daqueles fumantes que matavam um maço de cigarros todo dia, portanto, tem a sua parcela de responsabilidade com o que lhe acontece, o que não o transforma no vilão de si próprio, apenas um responsável por seu destino. S, nesse ponto, me incomoda profundamente pois me remete à minha mãe que também é fumante, e não menos assídua digamos assim. Fuma tanto quanto S fumava, e tão teimosa o quanto por não querer parar de fumar.

Acredito que todos temos um demônio dentro da gente. Entenda-se demônio como uma metáfora do mau. O demônio de S é seu câncer. O meu talvez ainda seja minha teimosia em achar que tudo tem jeito.

S está me ensinando com sua própria vida que não é bem assim. Não que seja importante para a plena compreensão dos fatos, mas S é casado com C, que está sofrendo muito com a possibilidade de perder o marido, e pai de dois filhos crescidos. Aliás, quem da sua família não estaria?

Meu pai Rubens, por exemplo, muio mais do que eu, está vivendo a jornada final de S bem de perto. Ontem, por duas vezes, levou-o ao hospital. S tem crises de dores pelo corpo. Ontem, as dores foram no braço. Dias atrás, vi S sentado no sofá da sua casa com o pescoço imobilizado; outro, reclamava de uma forte dor de cabeça.

Certamente, S merecerá uma ou mais crônicas neste blog até que o seu demônio o leve em definitivo. A morte de S, de certa forma, em algum grau além da minha compreensão, anuncia que também encontrarei com a minha.

Força, S!

Comentários

  1. Eu gostei, Rob, ficou bem escrita sim. Só não bancaria que é uma crônica.

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    1. Obrigado, Coletivo, bancando ou não é uma crônica.

      Volte sempre.

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  2. Oie

    Eu gostei, você leva muito jeito com a escrita.
    Concordo que cada um tem seus demônios, eu tenho os meus e tento conviver com eles da melhor forma possível.
    Força, S!

    Fernanda

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    1. Obrigado, Fernanda, assim é a vida, rs.

      Volte sempre!

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  3. Todos temos um mal dentro de nós, um vício, uma mania ou até mesmo um costume inocente. Um pensamento enraizado, uma necessidade. A maldade existe pois a bondade existe. Estamos sempre fadados ao equilíbrio. S encara seu demônio, enquanto nós nos negamos a ver os nossos até que sejamos forçados a isso.
    A escrita é direta, bem tranquila de ler, embora um pouco curta. Talvez pudesse ser publicada em um jornal? Me parece apropriada, ela faz um bem mandando a mensagem que conta em suas letras.

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    1. Valeu, Lunewalker, adorei teu comentário.

      Bastante relevante e construtivo com o que pretendi expressar com a crônica.

      Obrigado mesmo.

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  4. Eu gostei, mas não entendi o texto como uma crônica rs. Me parece que você tem um carinho muito grande por S. Me comoveu, como sempre muito bem escrito.

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    1. Frank, obrigado pela visita e pelo comentário.

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  5. Que belo texto. Realmente, todos nós temos nossos demônios e precisamos enfrenta-los. Gostei. Parabéns!

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    1. Obrigado, Ge, fico feliz que tenha gostado.

      Abraço.

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  6. Por uma péssima notícia que recebi hoje, este texto tocou-me mais do que seria normal.
    Gostei do tema, diferente do que costumo ver por aqui...
    Só abordaria de outra forma, com outras palavras, não sei bem. Talvez seja por estar, hoje, demasiado sensível.
    De qualquer forma, está bom, como sempre!

    Beijos

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    1. Obrigado, Bia, lamento pela tal notícia que recebeu.

      Força também.

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  7. Oi Rob, tudo bem?

    Quando li o título da sua crônica esperava algo diferente - talvez uma história a respeito do mal que há dentro de nós, a espreita... mas achei fascinante o rumo que tomou.
    É estranho encarar alguém que está passando por algo assim, porque parece que é como encarar seu próprio futuro - não que sua vida vá ser findada da mesma maneira - mas, isso freia todas aquelas nossas esperanças de que somos super heróis e que nada nos abala.

    Me fez refletir bastante logo cedinho aqui haha'
    Gostei da sua escrita ;)

    Beijos! ;*

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    1. Obrigado, Dayane, a morte é mesmo a única certeza da vida.

      Enfim, há de ser enfrentada, mesmo que, no final, sempre sejamos derrotados por ela.

      Obrigado mais uma vez. Até a próxima.

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  8. Ótimo texto. Inicialmente sua crônica nos faz acreditar que está tratando de um assunto, mas na verdade a mensagem final é um pouco mais profunda. Fiquei surpreendido com o desenvolvimento do texto.

    Parabéns!

    Att,

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    1. Obrigado, Gabriel, fico feliz por teu comentário e tua visita.

      Volte sempre, brother!

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