domingo, 27 de novembro de 2016

Manifestos da Infância: Magricela, Revanche e os Meninos da Rua.


Dava dó ver o modo como a coitadinha era tratada quando eles se ajuntavam. Uns verdadeiros malvados: é isso sim! Mas, antes que tenham pena de Magricela, é bom que se ressalte que não eram propriamente cruéis, pelo contrário, tinham bondade no coração e não a machucavam. Tratavam-na somente como distração, um passatempo.

A coisa toda começava assim que Magricela via os meninos brincando na rua de paralelepípedos. A vira-lata não perdia tempo e corria para junto deles. Latindo e abanando um fiapo de rabo pendurado no traseirinho ossuda, ela invadia a roda e corria atrás da bola de futebol que os meninos chutavam de um lado para o outro, achando graça na situação. A bola, além de gasta, estava sempre suja de terra.

-Pega a bola, Magricela! - exclamou, um deles, prometendo logo em seguida. - Se você pegar, eu te dou um naco de carne.

Lógico que de tão fraquinha a pobre cadelinha nunca conseguia alcançar a bola. Mesmo se esforçando até faltar o ar, Magricela, se já não bastasse o fracasso de sempre perder para os meninos, continuava com fome. Parece que se contentava apenas em participar das brincadeiras, o que não era verdade. Estimava também a companhia dos meninos e queria ficar o maior tempo possível junto deles.

-Está com fome, Magricela? - outro menino perguntou certa vez que a viu correr atrás da bola.
O sujeitinho desacorçoado fez essa pergunta já sabendo a resposta.

Depois de muito fazerem a pobrezinha de boba, os meninos enfim lhe davam, como recompensa, um pedacinho de carne congelada que mal enchia uma pata. Uma miséria! Magricela mordia o pedacinho com sua boquinha minúscula, levando-o para o meio do mato, e ainda tinha que esperar, paciente, a carne descongelar para comer.

Meu Deus, como ela sofria!

Magricela penava muito!


* * * * *

Certo dia os meninos tiveram uma lição. Ao ver Magricela correndo atrás da bola feito doida, uma gata persa branca, que não era de brincadeira, invadiu a roda e pôs fim na zoação.

-Isso não tem graça nenhuma. - miou para os meninos.

A gata se chamava Revanche. Revanche era uma gata valente. Junto com a coitadinha da Magricela, não saiu do meio da roda.

-Dá o fora daqui, sua abobada! - reclamou, um dos meninos, irritado com a ousadia da gata. - Você está atrapalhando a brincadeira! - exclamou.

Em voz alta, um segundo menino emendou:

-O que será que ela quer?

Os meninos da rua não compreenderam porquê Revanche estava agindo daquela maneira. Nunca havia feito isso antes. Ficaram encarando, sem qualquer reação, a gata branca que não se mexia do lugar.

Magricela, ainda mais surpresa, ora olhava para Revanche como quem tentava entender os motivos para ela interromper a brincadeira, ora para os meninos que a essa altura do impasse já haviam esquecido completamente a roda e a bola.

-Não vai sair? - um terceiro menino perguntou.

Revanche, em resposta, miou baixinho:

-Não... não vou.

Diante da teimosice, os meninos começavam a perder a paciência.

-Vamos chutar a bola nela. - sugeriu, um deles, que completou. - Assim ela deixa de ser intrometida e vai embora.

Os outros concordaram, porém a ameaça não produziu resultado. Revanche permaneceu parada no meio da roda. Foi então que o menino apanhou a bola e recuou uma certa distância para chutá-la.

-Vou contar até três para você deixar a gente em paz. - avisou-a, em tom de ameaça. - Se não sair da roda, vai tomar um bolaço.

-Não tenho medo. - Revanche miou, destemidamente. - Ninguém me arranca daqui.

A valente gata persa continuou onde estava e o menino, assim sendo, não perdeu tempo. Contou até três, porém, antes mesmo que pusesse o pé na bola, Revanche mostrou ser muito mais rápida, saltando encima dele.

-Sai de cima de mim! - gritou, pulando que nem maluco para se livrar da gata.

O menino chutou a bola para cima e rodopiou várias vezes antes de finalmente conseguir se livrar da gata, que saltou no chão e saiu correndo para perto de Magricela. Os outros meninos dispararam no encalço do amigo; não olharam para trás; só exclamaram:

-Essa gata deve estar com o capeta no couro!

Em seguida, sozinha com Magricela, Revanche encarou a pobrezinha com enorme incredulidade.

-Você não pode deixar aqueles meninos bobocas te tratarem assim. - miou, a gata, em tom penoso e de crítica. - Onde está seu orgulho? - perguntou.

Magricela, envergonhada, nada respondeu. Não tinha o que responder. Sentindo-se triste, qualquer coisa que dissesse só aumentaria sua tristeza. Ela abaixou a cabeça, deu-lhe as costas e foi embora.

Era fácil para uma gata criada bem, de boa família, falar em orgulho. Revanche tinha ração fresca, banho morno toda a semana e uma casa quentinha para se proteger do frio. Não conhecia a dureza de viver nas ruas.


* * * * *

Os meninos voltaram a se reunir, mas jogar bola definitivamente parecia que não tinha a mesma graça. A rua andava bastante chata sem Magricela. Mal puseram a bola no chão para o começo da brincadeira e um dos meninos reclamou sua falta, perguntando aos amigos:

-Onde será que ela está?

Os meninos se entreolharam, deixando claro não entenderem sobre quem ele se referia.

Um deles perguntou:

-Quem?

-A Magricela. - o menino respondeu. - Até agora ela não apareceu para brincar com a gente; justo ela que sempre aparece e que vive atrás da gente.

-É verdade. - outro menino concordou. - Faz tempo que eu não a vejo. - afirmou. Depois reiterou a pergunta. - Onde será que ela está?

Convencidos de que Magricela não podia ficar fora da brincadeira os meninos então resolveram procurá-la. Havia um terreno abandonado no fim da rua. Foram direto para lá.

-A gente quer brincar com você! - gritou, um deles, assim que atravessou a cerca e entrou no terreno. - Magricela, aparece logo! - emendou.

-A gente te dá um pedaço bem grande de carne! - outro menino prometeu.

Olharam atentamente ao redor, porém nada encontraram naquele lugar, senão mato e umas árvores secas castigadas por uma cerca de arame farpado. A pobre Magricela sempre aparecia para jogar bola com eles que não entendiam porquê, naquele momento, estava sendo diferente.

-Será que ela está chateada com a gente? - perguntou, um menino que segurava a bola.

Ficou sem resposta.

Ansiosos por encontrá-la, continuaram a procura. Foram para o quarteirão do lado, onde havia um pequeno restaurante. Magricela muitas vezes, quando não brincava com os meninos, ficava deitada próximo da porta de entrada, esperando que os clientes lhe atirassem comida. Novamente não encontraram ao menos um sinal da presença dela.

Foi somente quando os meninos retornaram para a rua de paralelepípedos, cansados de tanta procura, é que avistaram a gata Revanche com um olhar triste, a cabeça abaixada e praticamente inerte na calçada.


* * * * *

Assim que se aproximaram da gata persa, um dos meninos perguntou:

-Por que você está triste?

Em resposta, Revanche miou baixinho, um miado incrivelmente triste que em nada lembrou a valentia de antes.

Lamentando-se, disse:

-É tudo minha culpa. Eu não deveria ter falado daquele jeito com ela. Não deveria tê-la tratado mal.

Com crescente estranheza e apreensão, os meninos prontamente a questionaram:

-Do que você está falando?

-O que foi que houve?

-Aconteceu alguma coisa?

-Fala logo o que você sabe!

Revanche levantou a cabeça, sem mostrar qualquer incômodo com o interrogatório, e olhou para os meninos.

-Não aconteceu nada comigo, eu estou bem. - tranquilizou-os. Tomando coragem, revelou. - Estou triste porquê ela foi atropelada.

Ao ouvir a revelação, um dos meninos imediatamente se apressou em perguntar:
-Quem é que foi atropelada?

-A pobre Magricela! - berrou, a gata, que, após um miado de agonia, explicou. - Eu mesma vi quando, ao atravessar a rua, uma bicicleta desalmada acertou a coitadinha em cheio.

A explicação fez-se tão enormemente sem sentido que os meninos da rua perguntaram quase ao mesmo tempo:

-A nossa Magricela foi atropelada?

-Sim, por uma bicicleta. - miou, Revanche, que voltou a lamentar. - Pobrezinha da Magricela, pobrezinha!

Para os meninos, ser atropelado por uma bicicleta não parecia ser algo tão grave assim. O acidente no máximo resultaria em alguns arranhões e esfoladuras, nada que não pudesse ser remediado. Não conseguiam ver sentido para a desmedida tristeza que a gata expressava.

-Onde ela está agora? - um deles perguntou.

Subitamente emudecida, Revanche os encarou com profunda consternação e logo em seguida voltou a abaixar a cabeça. Com isso, eles perceberam a gravidade do acidente e que Magricela havia ido para nunca mais voltar.

Um menino perguntou:

-Tem certeza que ela morreu?

Revanche limitou-se a acenar afirmativamente com a cabeça.

Os meninos da rua, que só viam graça em jogar bola na companhia da pobrezinha, abaixaram também a cabeça. Magricela era a única e melhor amiga que tinham. Com quem mais eles jogariam bola na rua?

-Ela era tão legal com a gente. - afirmou, um deles, aos amigos que no mesmo instante concordaram.


* * * * *

Mesmo entristecidos, a vontade de jogar bola foi tamanha que não demorou um dia sequer e os meninos já estavam reunidos na rua de novo. Ainda sentiam saudades de Magricela, mas também adoravam brincar de jogar bola.

Fizeram a roda que sempre faziam e começaram a chutá-la de um lado para o outro. Chutaram uma vez, duas vezes, três vezes. No quarto chute tiveram uma agradável surpresa: uma cadelinha cor de chocolate, tão magra e frágil quanto foi Magricela, parada num canto da rua, hesitava se aproximar. Um dos meninos, assim que a avistou, chamou a atenção dos amigos, apontando na direção da cadelinha.

-Como a gente vai chamá-la? - perguntou.

-Angélica. - respondeu, o amigo.

-Não. - antes que chutasse a bola, um menino rapidamente discordou. E sugeriu. - O nome dela pode ser Belinha.

-Não vai ser Angélica, nem Belinha. - divergiu, outro menino. - Que tal Magricela? - propôs.

Os amigos o encararam com certo estranhamento. Haviam perdido a amiga Magricela no acidente com a bicicleta. Imaginaram que só podia ter ficado louco em sugerir o nome da finada cadelinha.

Na dúvida, um deles perguntou de volta, só para confirmar se ouvira corretamente:

-Você disse Magricela?

-Sim. - ele confirmou. Sem compreender o porquê do estranhamento com o nome sugerido, justificou-se. - Ela se parece com a outra Magricela e pode ser a nossa nova amiga tranquilamente. O nome é uma homenagem.

Os meninos da rua se entreolharam, pensativos, mas não demoraram em aprovar a ideia de homenagear a amiga atropelada e não mais se ouviu qualquer objeção ao nome.

-Eu concordo. - disse, um deles.

-Eu também. - emendou, o outro.

-Também concordo. - um terceiro complementou. E concluiu. - Magricela certamente é um bom nome.

De fato, ambas as cadelinhas guardavam curiosas semelhanças. Tinham a mesma magreza, embora a magreza da primeira Magricela fosse um pouco mais ossuda, e tinham até a mesma cor, embora a original fosse um pouco mais escurinha. Eram incrivelmente semelhantes no olhar abandonado e no jeito perdido com que caminhavam.

Imediatamente após a escolha do nome, os meninos da rua voltaram a brincar. Já não mais pareciam ser tão malvados na zoação. Eles chamaram Magricela que, jubilosa, entrou no meio da roda e começou a correr atrás da bola.

-Pega a bola, Magricela! - incentivavam, os meninos.

A rua de paralelepípedos foi se enchendo de alegria ao tempo em que as duas, bola e Magricela, corriam de um lado para o outro, e corriam sem descanso.

FIM

10 comentários:

  1. Nossa! Muito emocionante o conto. Leitura divertida e a gente só consegue parar de ler quando termina. Lembrei de quando eu, uma amiga e minha prima tínhamos um cachorrinho vira-lata que se chamava Bob. E o Bob era um cãozinho incrível e a gente fazia festa pra ele. Meninos brincam de bola, meninas brincam de festinha. kkkk Você é um escritor maravilhoso! Consegui imaginar cada detalhe como uma cena de filme. Mexe com nossas emoções.

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    1. Eliziane, percebeu que estamos nos tornando melhores amigos? kkk

      Seus comentários são um bálsamo p/ o meu dia. Volte sempre!

      Minhas emoções também são mexidas quando escrevo histórias como essa. Talves por isso é que são tão sensíveis?!

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  2. Poxa vida, que destino triste da pobre gatinha Magricela!
    Essa história já existe, ou você quem a criou??
    Muito bom! rs

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    1. Oi, Vanessa, foi eu quem criou a história sim. Tudo que post no blog é de minha autoria.

      UMA CORREÇÃO: Magricela não é uma gatinha, é uma cadelinha vira-lata.

      Abraço.

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  3. Não posso dizer que este seja o meu tipo de leitura preferido, sou dada a explosões literárias do tipo que possam tirar o fôlego, ou pelo menos deixar-nos boquiabertos, contudo, a história é bonita e foi muito bem escrita, posso te dar os parabéns sem qualquer hipocrisia.Então, parabéns!

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  4. Estava tudo bem até o trágico fim da Magricela, eu acabei me lembrando de uma cachorinha que eu tinha que se chamava Belinha, sim Belinha, a Belinha amava correr atrás da bolinha de silicone que ela tinha, até que no reveillon ela fugiu e no dia seguinte foi atropelada...
    Muito emocionante a sua história!!

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    1. Obrigado, Bruna.

      Quem não tem alguma história com algum animal de estimação, não é mesmo? rs

      Volte sempre!

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  5. Muito triste.. Não esperava que a cadelinha morresse :( É mesmo verdade?
    Não pode mexer com o coração de uma apaixonada por animais dessa maneira. Fiquei mesmo triste porque não é só uma história. Há tantos animaizinhos a sofrer por aí e tanta gente má que não é capaz de os respeitar.
    Apesar disso, mais uma vez, gostei muito do seu conto! Impossível não gostar, não é? :)

    Pseudo Psicologia Barata

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    1. Bia, também sou defensor dos direitos dos animais.

      Este conto é uma obra ficcional que aborda duas coisas reais, a fome e exclusão.

      Obrigado pela visita.

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