Primeira Parte do Capítulo “Boris e a Menina de Razgrad” (A MENINA DE GABROVO).


Klara se levantou de um punhado de folhas, lugar onde se sentou após empanturrar-se de tomates, assim que percebeu a ausência da avó. Desatenta, a pequena não havia notado que, há um bom tempo, estava sozinha.

“Vovó, onde você está?” - perguntou, olhando em volta.

Sem qualquer resposta, pôs-se, então, a procurá-la.

Na medida que avançava pela plantação, mais se perdia no meio das folhas, angustiando-se. Pássaros coloridos pousavam ao seu redor, nos pés de tomate, e piavam, tentando tranquilizá- la. Piar, esse, que era a única coisa que a menina conseguia ouvir além da própria voz, do farfalhar das folhas no chão e de sua própria respiração.

“A vovó foi embora e me abandonou?” - temeu, sentindo uma tristeza que, novamente, só se fazia aumentar. - “Eu não quero mais ficar aqui, vovó!” - pediu, em voz alta, na expectativa de que Yordanka a ouvisse.

Deliberadamente perturbada com a possibilidade de ficar ali para sempre, Klara já se conformava em encontrar a saída daquele verdadeiro labirinto verde.

“Vovó!” - chamou, a menina.

Continuou caminhando até que os pés de tomates deram lugar a um alinhamento de árvores. Viu-se diante de uma mata, encheu-se de coragem e entrou.

“Vovó, onde você está?” - perguntou de novo, mas não ouviu nada que indicasse a presença de Yordanka, nem de Kristo. - “Eu não quero ficar aqui sozinha, quero voltar para a casa.” - emendou.

Ao contrário do que pensava, não estava sozinha. Logo em seguida, enquanto caminhava dentro da mata, ouviu o som constante de latidos vindos de uma certa distância de onde ela estava.

“Aqui!” - gritou.

Os mesmos latidos pareciam se multiplicar, ficando cada vez mais altos conforme Klara avançava na mata e um imponente pastor búlgaro surgiu na frente da menina. O cão tinha o corpo coberto por uma pelagem branca e volumosa, exceto no focinho e numa das patas traseiras, que eram cobertos por uma pelagem cor de avelã. Suas costas eram largas, angulosas e bem musculadas.

“Oi, meu nome é Klara.” - disse, a menina, que, imediatamente, se viu paralisada pelo medo.

Em resposta, o cão pastor começou a latir e rosnar, furioso.

Klara, que só queria reencontrar a avó, acabou por achar a hostilidade de uma fera.

“Por favor, vai embora!” - implorou, a pequena búlgara, que torceu o pescoço e olhou para trás. - “Vou virar e correr o mais rápido que puder.” - orientou-se, ensaiando mentalmente o que deveria fazer para fugir. Contudo, foi sensata e ficou parada, julgando ter tido uma péssima ideia ao pensar em fugir do cão. - “Não vou conseguir, ele é muito mais rápido do que eu.” - concluiu. - “Eu corro devagar. Se eu correr, ele, com certeza, vai conseguir me pegar.”

Num daqueles raros instintos de sobrevivência que se têm poucas vezes na vida, Klara fechou os olhos e esperou ser atacada. Imaginava que estaria a salvo se permanecesse com os olhos fechados. Com todas as suas forças, deveria se tranquilizar e controlar o medo. Que mais poderia fazer, além de respirar profundamente e ficar calma? Não havia ninguém por perto para ajudá-la. Se não teve coragem de se afastar do cão, só lhe restava conformar-se com o pior.

“Por favor, vai embora.” - mentalizava repetidamente. - “Não me machuque. Vai embora.”

Mas o cão pastor não parou de latir. Insensível diante da fragilidade da menina, rosnava ainda mais furioso, até que, instantes depois, seus latidos foram ficando cada vez mais baixos.

Quase não se ouvia os rosnados e o silêncio, então, imperou.

“Ele foi embora?” - perguntou-se, Klara, permanecendo com os olhos fechados.

Não havia porquê abri-los, afinal, sua estratégia estava funcionando. Milagrosamente, a fera, hostil e insensível, se transformou num cão absolutamente amigável e dócil. Não queria atacá-la. Pelo contrário, Klara sentiu-o se aproximar e a língua áspera do cão pastor lambeu-lhe o rosto.


CONTINUE ACOMPANHANDO A HISTÓRIA NAS PRÓXIMAS POSTAGENS.

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