O TOMATEIRO (2° parte do capítulo).


“Mas quem será que fez isso?” - perguntou-se, a velha, que encarava a cerca. Sem dizer mais nada, ela tocou o arame com a ponta dos dedos e resmungou. - “A gente dá as costas por um mísero segundo e as pessoas já revelam o quanto são mesquinhas.”

Enquanto a avó olhava em volta, na expectativa de flagrar o autor de tamanho egoísmo, Klara se limitou a olhar para dentro da cerca. - “Devem ser muito gostosos.” - pensou, a menina faminta. Nunca havia visto tomates tão vermelhos e brilhantes.

Foi, então, que Yordanka concluiu, após muito pensar, o que parecia ser óbvio.

“Só pode ter sido ele.” - disse para si própria, categórica.

“Quem, vovó?” - perguntou, Klara, ao ouvi-la.

“Kristo.” - respondeu à menina.

“Quem é Kristo?”

“Kristo é um amigo da vovó.” - respondeu, Yordanka, que, ao voltar as atenções para a cerca, se esforçou para manter a inabalável paciência que lhe era tão peculiar. - “Foi ele quem cercou o tomateiro.” - acrescentou.

“Por que?” - a pequena búlgara quis saber.

“Não sei, querida.” - a velha respondeu, dizendo. - “Também estou muito curiosa para saber.”

No momento em que Yordanka, ao lado da neta, pensava em um modo de fazer um buraco na cerca, Kristo apareceu caminhando atrás delas.

“Não vai me apresentar?” - ele perguntou, com ar de cinismo, referindo-se à Klara.

Aparentava ter cerca de quarenta anos, era gordo e tinha os cabelos curtos e despenteados. Era, também, alguns palmos mais baixo do que Yordanka, que, por sua vez, não precisou olhar para trás para descobrir quem havia feito a pergunta. Sem esperar que Yordanka o respondesse, Kristo voltou as atenções para Klara.

“Qual é o seu nome, menina?” - perguntou educadamente.

A pequena, porém, desconfiada, não o respondeu. Limitou-se a encará-lo. Percebendo que a menina estava receosa com a presença do homem, Yordanka obrigou-se a abrir um sorriso.

“Bom dia, Kristo.” - cumprimentou-o e foi logo perguntando. - “Como está?”

“Bem.” - ele respondeu.

“Aproveitando que está aqui, gostaria de fazer uma pergunta.” - a velha estreitou os olhos para ele e perguntou, em tom pomposo. - “Por acaso, você sabe quem pôs a cerca?”

“Cerca?” - Kristo, em resposta, a provocou, fingindo não saber sobre o que ela falava. - “Sim, a cerca!” - exclamou, apontando para a plantação de tomates. - “Sim, eu estou reconhecendo. Ela é minha.” - confessou.

“A cerca é sua.” - Yordanka fingiu surpresa. Sua irritação só crescia. - “E os tomates, eles também são seus?” - provocou-o.

“Não.”

“Ora, diabos! Então, me explique por quê cercou o tomateiro!”

Na medida que os segundos passavam, a velha respirava mais profundamente, controlando-se para não atacá-lo.

“Bem, eles estão ficando muito famosos.” - respondeu, Kristo, sarcástico, sobre os tomates. - “Somente nessa semana, não mais do que isso, esteve aqui uma pequena multidão que colheu quase todos.” - concluiu, se justificando. - “Se não pusesse a cerca, os tomates acabariam rapidamente.”

“E quem disse que os tomates são seus?” - desafiou, Yordanka, inconformada com tamanho egoísmo.

“Não me lembro de dizer que eram meus.” - serenamente, Kristo se defendeu. - “São de todo o mundo.” - ressaltou. - “Por isso mesmo a cerca se fez necessária.”

Silenciosa, Klara assistia a discussão, estupefata, sem saber o que fazer.

“Tudo isso por causa de uma cerca?” - pensou. Ao virar-se e olhar para a plantação, perguntou. - “A gente não vai poder entrar, vovó?”

“Não diga tamanha bobagem, minha querida.” - Yordanka, em resposta, sorriu carinhosamente. Deu-se conta, então, que aquela discussão não iria levá-la a lugar algum. Encarou Kristo, respirou fundo e disse. - “Chega de falatório, está bem. A menina quer alguns tomates, pode ajudar?”

“Mas é claro!” - caloroso, Kristo respondeu, piscando para a menina, que, mesmo tímida, retribuiu com um discreto sorriso. - “Que grosseria a minha ainda não ter me apresentado.” - pôs a mão sobre os cabelos de Klara e se apresentou. - “Meu nome é Kristo, sou um velho amigo da sua vovó.”


CONTINUE ACOMPANHANDO A HISTÓRIA NAS PRÓXIMAS POSTAGENS.

Comentários

  1. Oh, isso foi muito pouco. Eheh. Vou andar por aí à procura do resto do conto!
    Tem o mesmo nome?? Gostei :)
    Beijos

    Pseudo Psicologia Barata

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  2. Bia, na verdade. não é um conto. São trechos de um livro publiquei há alguns anos atrás chamado A menina de Gabrovo.

    Obrigado pela visita e pelo comentário.

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