Cabeça de Cachorro (PARTE 02). - ROBERTO CAMILOTTI... blog de literatura.

7 de setembro de 2017

Cabeça de Cachorro (PARTE 02).

igreja católica de missa por dentro em conto

Segue a segunda parte do conto...

Vânia voltou a se dirigir a um Barilari que enfileirava uma porção de revistas dentro da banca.
“Então, senhor jornaleiro, tem o jornal antigo para me vender?”

“Infelizmente, não senhora Vânia, no entanto, já que a senhora precisa tanto de um, pode voltar amanhã que eu trago alguns que tenho guardado em casa, e sem falta. Pode ser?”


“Sim, obrigada, senhor jornaleiro.”

“De nada, senhora.”

A mulher se virava para ir embora com um certo ar de vitória no rosto quando Barilari, de um modo descontraído e urgente, chamou-lhe a atenção.


“Senhora!”

“Sim?”

“Me chamo Barilari caso esteja interessada em saber o meu nome.”

“Obrigada pela informação, senhor Barilari. Amanhã eu volto para comprar o jornal.”


“De nada.”

E a mulher se afastou, indo embora.

Barilari e Gustavinho atravessaram o dia fazendo companhia um ao outro. Ao chegar a noite, Barilari fechou a banca e pegou o ônibus que parava em um ponto na praça para voltar para casa, enquanto que Gustavinho adormeceu ali mesmo, na entrada da banca.

Vânia retornou cedo do dia seguinte conforme prometera. Chegou tão cedo que Barilari ainda não havia aberto a banca e o menino Gustavinho dormia na entrada.

Cumprimentou-o:

“Bom dia, Gustavinho.”

Sonolento, Gustavinho respondeu:

“Bom dia, dona.”


“Dona não, por favor. Esqueceu-se que meu nome é Vânia?”

“Acho que sim, me desculpe.”

Ainda sentado na entrada da banca, Gustavinho se espreguiçou, espantando o resto de sono que ainda sentia e, imediatamente depois, olhou para baixo, para os pés de Vânia, e viu dois detalhes que julgou inusitados: os sapatos e as meias estavam trocados, as cores e os modelos dos sapatos não combinavam.

“É a última moda em Paris.”

“Em Paris?”

“Sim.”

“Mas é estranho, dona.”

“Não se diz estranho, se diz diferente! E o meu nome é Vânia, já disse.”


“A senhora gosta de ser diferente?”


“Sim, todo mundo gosta.”


“Todo mundo?”

“Todo mundo.”


“Eu também?”


“Sim, só que não sabe.”

“Não sei?”

“Não sabe.”

No minuto seguinte, Barilari desceu de um ônibus e veio caminhando em direção aos dois. Não esperava rever Vânia tão cedo.


“Bom dia, senhora Vânia. Bom dia, Gustavinho.”

Foi cumprimentado de volta pelos dois.

“Veio buscar os jornais antigos?” - perguntou então para a mulher.

“Sim, por quê? Se esqueceu?”

“Não, eu trouxe. Estão aqui, dentro da pasta, pode ficar com todos. É cortesia da casa.”

“Disse que queria comprá-los, não disse?”


“Sim, mas...”

“Quanto custam?”

“Bem, consegui nove jornais publicados no ano passado.” - colocou uma pequena pilha de jornais velhos sobre o balcão. - “Custam cinquenta centavos. É promoção.”


“Tudo isso? Estão caros!”

“Reclamou quando disse que seriam de graça e agora reclama do preço! Quanto pagaria por eles então?”

“Quarenta e nove centavos.”

“São seus!”

“Certo, aqui está o dinheiro.” - entregou uma nota de um real ao jornaleiro que logo guardou embaixo de uma pilha de revistas. - “Vou deixá-los na banca e volto para pegá-los mais tarde.” - emendou.


“Certo.” - Barilari não fez objeção.


O menino Gustavinho, ao tempo em que Barilari não conseguia disfarçar a curiosidade em vê-la tão interessada naqueles jornais velhos, foi se afastando da banca ao ir atrás de um cachorro de rua, até que desapareceu. Havia se cansado da companhia daqueles dois.


“Preciso deles para analisar o futuro.” - disse, Vânia, para Barilari, referindo-se aos jornais.


“Analisar o futuro?”


“Sim, este é o meu trabalho. Já consegui impedir a volta da Segunda Guerra Mundial por duas vezes.”


Barilari, no momento seguinte, notou a ausência de Gustavinho.


“Aonde ele foi?”


“Quem?”


“Ora quem, o menino que estava aqui!”


“Não. Não. Não sei, não.” - Vânia pensou um pouco. - “Juro que não sei. Será que ele não entrou na igreja?”


“Talvez.”

“Talvez sim ou talvez não?”


“É provável que sim.”

Vânia e Barilari, tão logo entraram na Igreja Matriz São Francisco de Sales, depararam-se com um outro menino sentado na última fileira de bancos, só que esse diferente de todos os outros que já haviam visto. O menino latia sem parar e tinha a cabeça de um cachorro. Não chorava ou falava, latia igual a um cãozinho perdido de seu dono. Longe de sentir medo ou receio, Vânia se sentou no banco da igreja e o menino com cabeça de cachorro aconchegou-se em seu colo. Já Barilari, encantado diante de tamanha docilidade, limitou-se a observá-lo. Ainda na igreja, deram ao menino o nome de Francisco em homenagem a São Francisco de Assis.


“Que você quer fazer agora, Francisco?” - Barilari o perguntou.


“Quer dar uma volta na praça?” - Vânia emendou.


O menino com cabeça de cachorro latiu, dando-lhes a entender que a resposta era sim. Seguraram então as mãozinhas miúdas de Francisco e os três deixaram a igreja. Levaram-no para passear. Francisco que, pelo que parecia, sempre fora metade menino e metade cachorro, ao atravessar a porta e pisar na praça, correu até uma árvore, onde só não fez xixi porque teve a atenção chamada por Vânia, que disse:

“Meninos educados vão ao banheiro e não fazem xixi na rua. Você é um menino educado, Francisco?”


“Francisco é educado, mas também é metade cachorro.” - Barilari respondeu por ele. - “Talvez muito mais cachorro porque tem cabeça de um.”

Vânia sorriu para o menino, concordando com Barilari.


Cheio de disposição, Francisco pôs-se a brincar de correr em volta dos dois que também entraram na brincadeira. Com algazarra, imitavam tudo que o menino com cabeça de cachorro fazia, correndo atrás dele.

Foi então que um prestativo bispo da cidade, o Dom Frutuoso, que visitava a igreja dia sim e dia não, atravessou a praça, se aproximou dos dois e, intrigado com o que viu, perguntou-lhes o que faziam. Havia visto que eles pulavam sozinhos e depois corriam de um lado para o outro sem razão aparente. Vânia e Barilari responderam que estavam brincando com Francisco, um menino que tinha cabeça de cachorro. O bispo perguntou onde estava o tal menino, pois não o enxergava. De pronto, Barilari pediu que olhasse para baixo para que o visse deitado no chão, perto dos seus sapatos velhos; contou-lhe que devia estar exausto de tanto correr e pular. O bispo atendeu o pedido. Olhou para baixo, mas não viu o menino mesmo assim. E nem o podia ver afinal já que Francisco não existia. Dom Frutuoso concluiu o que já se dava como óbvio desde os primeiros momentos: tratavam-se de dois doentes mentais. “Pobres coitados!” - exclamou.

Solidário, o bispo fingiu participar da brincadeira. Disse para Vânia e Barilari que um outro cachorrinho havia corrido para dentro da igreja sem que eles percebessem, e sugeriu que fossem todos atrás dele. Vânia e Barilari concordaram prontamente. Os três entraram na Igreja Matriz São Francisco de Sales, onde, com perspicácia, o bispo conquistou a confiança dos dois e, a partir de então, providenciou que fossem internados em uma clínica psiquiátrica, onde vieram a ser tratados com humanidade. Prometeu-os que lá encontrariam outros meninos com cabeça de cachorro.


“Receberei jornais antigos, padre?” - Vânia perguntou. - “Preciso muito deles.”


“Certamente que sim, minha filha.” - Dom Frutuoso prometeu.



FIM


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Um comentário:

  1. Muito engraçado seu conto, tem vezes que me identifico como a Vânia, todos em algum momento da vida querem ser diferentes.
    Parabéns pelo conto.

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