Salvando o Coelho (CONTO). - ROBERTO CAMILOTTI... blog de literatura.

18 de setembro de 2017

Salvando o Coelho (CONTO).

coelhos brancos namorando

Olá, pessoal, mais um continho para vocês! Trago-lhes o conto Salvando o Coelho, que compõe, juntamente com outros quinze, o livro Quilômetro Cinza e Outros Contos de Cabeça. Os contos foram publicados na Amazon. Você pode comprar o eBook ($4,50), clicando AQUI, ou o livro impresso (USD15,50), que você compra acessando AQUI. 
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Salvando o Coelho


Mas, afinal, por que é que os dois paraquedistas soltaram o coelho de um avião para depois irem atrás dele? Se perguntasse o que ele os fizeram, a resposta é rigorosamente nada, o que só aumenta a estupidez da coisa. Era um jogo, um desafio irresponsável cujo vencedor seria aquele que salvasse o coelho.

Um dia antes, Cláudio convidou Celso para o desafio. Celso mostrou certo receio em relação ao plano horas antes do embarque. Temeu que, por algum motivo suficientemente plausível para qualquer um com o mínimo de discernimento, não conseguissem salvar o coelho.

“Mas se a gente não conseguir pegá-lo?”

“Por que a gente não conseguiria alcançá-lo? É um coelho que não pesa quase nada. Vai ser como pegar um ursinho de pelúcia no ar. Deixa de ser frouxo!” - Cláudio insistiu. - “Qual é, companheiro? Não acha que ele vai sair voando para longe da gente quando for solto do avião, acha?” - instigou o amigo.

“Não sei, não.”

“Sabe sim.”

Cláudio não precisou insistir muito para que Celso concordasse. “Pensando bem, você tem razão. Vai ser divertido até.” - aceitou.

Sobrevoaram uma fazenda de café, sugestão do piloto no momento que foi convidado pelos dois colegas a participar do desafio.

“É só por precaução.” - argumentou, receoso de serem flagrados.

O coelho pertencia a filha única de Celso, Maria Isabel. No que Celso saiu de casa para ir ao hangar se encontrar com Cláudio e com o piloto, duas horas antes do que geralmente saía de casa para o trabalho, entrou no quarto da filha sem fazer barulho e apanhou o coelho que dormia na cama, levando-o consigo. Começou a ficar preocupado de que não pudessem alcançar o coelho pela primeira e última vez, quando já sobrevoavam o cafezal e já era tarde para desistir. Assim fizeram: soltaram o coelho e foram atrás para resgatá-lo. Um minuto depois, Celso abriu o paraquedas enquanto que o coelho já não se contorcia mais, desesperado com o que lhe acontecia. A três mil pés de altura, Cláudio, como uma flecha que perfura o ar, conseguiu finalmente alcançá-lo e abriu o paraquedas.

Cláudio aterrizou momentos depois, seguido por um Celso eufórico com o feito.

“Foi mais emocionante do que esperávamos!” - Celso se aproximou. E perguntou. - “Quando vamos fazer o resgate de novo?”

Cláudio respondeu com um semblante de espanto visível no rosto:

“Não vai haver outro salto.” - mostrou-lhe o coelho imóvel em suas mãos.

“Mas como é que ele morreu?”

“Deve ter morrido de medo.”

“Medo?”

“De infarto.”

Celso pensou em Mabel no mesmo instante.

“Não é possível; deixe eu vê-lo!” - viu que o coelho não tinha sinais vitais, que ele havia realmente morrido.

“Que vai fazer?” - Cláudio perguntou.

Sentindo-se culpado pelo que havia acontecido, Celso fez um ensurdecedor silêncio antes de responder:

“Minha filha não precisa saber o que fizemos.” - apressou-se em explicar. - “Vou levá-lo para casa agora mesmo e, quando ela acordar e me disser que seu coelho está morto, eu a confortarei dizendo que compro outro igual. Nunca vai descobrir que fomos nós.”

Cláudio não viu defeito no plano do amigo. Olhou-o nos olhos firmemente, com a segurança de quem concorda.

O dia ameaçava amanhecer. Celso deixou o cafezal então e se apressou em voltar para casa, levando o coelho morto consigo. Ao chegar em casa, ainda com a vestimenta de paraquedista que usara para saltar, certificou-se de que a esposa ainda não havia acordado e entrou no quarto da filha para colocar o coelho morto dentro da sua casinha. No instante seguinte de tê-lo colocado, a pequena Mabel surpreendeu o pai, flagrando-o dentro do quarto.

“Deu ração para o Peludinho?” - perguntou.

Celso olhou para a filha, nervoso. Não conseguiu responder nada.

“É cedo ainda. Peludinho não está com fome.” - Mabel não esperou resposta e se sentou na lateral da cama. - “Ele deve estar dormindo.” - disse.

Logo depois, para o pânico de Celso, Mabel se levantou e caminhou até a casinha do coelho para vê-lo de perto.

“Viu? Ele está dormindo mesmo.” - disse ao pai.

Mabel voltou a dormir enquanto que Celso foi para o banheiro trocar de roupa. Pôs a roupa de paraquedista para lavar e, sem fazer barulho, entrou no quarto onde a esposa dormia pesadamente.

“Vou preparar uma caneca de leite morno. Você quer?” - sentou-se na cama, acordando a esposa.

“Não, meu amor, obrigada.” - a esposa agradeceu. - “Mabel ainda está dormindo?” - quis saber.

“Sim, não se preocupe.”

Celso foi para a cozinha tomar o leite morno e se acalmar um pouco. Ainda estava muito nervoso, extremamente preocupado com a reação da filha quando descobrisse que o coelho que ganhara de presente de aniversário restava morto. Enquanto esteve na cozinha, ficou o tempo todo ensaiando uma forma de reagir à sua tristeza, até que, meia hora depois, Mabel apareceu com o coelho deitado nos braços.

“Que aconteceu, meu docinho?” - Celso colocou a caneca sobre o balcão e se preparou para confortar a filha.

“Nada, pai.” - Mabel respondeu. Acarinhava o coelho com o amor de sempre. - “Peludinho está dormindo.” - a menina disse baixinho para o pai ao ver que ele olhava fixamente para o seu colo.

“Não pode ser verdade.” - Celso soltou um riso inconformado.

Se aproximou da filha e, mesmo com alguma resistência por parte dela, pôs a mão sobre o coelho. Percebeu que ele, de fato, dormia e que, vez ou outra, até mexia as orelhonas brancas.

A menina, sem entender o que o pai queria dizer, indagou-o:

“Que é que não pode ser verdade?”

“Nada, docinho.”

E Celso foi correndo para o quarto se confessar com a esposa. Tudo aquilo não fazia sentido algum. Mabel seguiu-o. Ele adentrou o quarto e se aproximou da cama. A esposa dormia pesadamente, um dos braços estendido em direção ao chão.

“Meu bem, acorde!” - gritou.

Nada pôde ser feito.

“Cristeia!”

Deu-se por conta ali mesmo que uma coisa terrível havia se passado no quarto enquanto estivera na cozinha: a morte fulminante da esposa e do feto que ele só foi tomar conhecimento que ela carregava no ventre ao ser informado após a necrópsia.

“Volta para mim, meu amor! Não me deixa!” - implorou.

Abraçado com o corpo da esposa deitado na cama, Mabel e o coelho se aproximaram da lateral da cama.

“Que aconteceu com a mamãe?” - a filha perguntou.

“Mamãe está dormindo, docinho.” - respondeu.

“Que horas ela acorda?”

“Não, docinho, você não entendeu. Mamãe não vai acordar.”

“Por que, papai?”

“Porque Deus quis assim. Porque Ele quis.”

Dias depois, coisas tão ou mais piores continuaram acontecendo, definitivas ou não, provocadas ou não, mas nada com o coelho ou com a pequena Mabel. Cláudio e o piloto morreram em um desastre aéreo, uma praga abateu-se sobre o cafezal, que não deu mais nenhum pé saudável de café, e Celso ficou cego do nada.

“Deus não gosta da gente, papai?”

“Boa noite, docinho.”


FIM


4 comentários:

  1. Eu comprei o teu livro em ebook na Amazon, mas ainda não consegui ler, por conta de outras leituras de parceria. Pela prévia que tive com este conto, acho que vou gostar de ler o livro inteiro.

    Tatiana

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  2. Oie tudo bem?
    adorei ler esse conto, estou pensado em comprar pra ler pra minha afilhada. Sucesso

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  3. Nossa que triste, já quero ver a continuação. Parabéns vc escreve muito bem, prende agente na história.

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  4. Seus textos são maravilhosos, cativantes e ricos em detalhes, proporciona um tipo de leitura que nos prende até o final.
    Parabéns!

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