Uva Verde (conto). - ROBERTO CAMILOTTI... blog de literatura.

8 de setembro de 2017

Uva Verde (conto).

cachos de uva verde ainda no pé

Amigos, mais um conto meu para vocês! 
Uva Verde é o quarto conto da coletânea Quilômetro Cinza e Outros Contos de Cabeça, publicada na Amazon. Você pode comprar o eBook ($9,99), clicando AQUI.
Vamos ao conto! 

Uva Verde


Dois feiticeiros discípulos de Merlim iniciaram uma travessia pelo deserto em busca do fortalecimento de suas magias; uma travessia que exigisse, tanto de um como do outro, resistência física, uso consciente dos feitiços e força de vontade para não desistir. No meio do caminho, depararam-se com um andarilho sentado aos pés de uma árvore açoitada pelo clima árido. Quase aos pés da árvore havia um lago seco.

“A gente vai falar com ele?”

“Ele está sozinho, não há mau em nos apresentar.”

Os feiticeiros caminharam até o andarilho e viram que ele penava gravemente por causa do calor extremo. Parecia dar seus últimos suspiros.

“Não foi uma boa ideia um homem sem provisões ou recursos caminhar pelo deserto. Precisa da nossa ajuda?” - um deles se colocou na sua frente.

“Mas do que uma má ideia, caminhar desprecavido pelo deserto foi uma completa estupidez.” - o outro também se aproximou. - “Não tem água e está morrendo de sede, não tem pão e está com fome. Está fraco e agora vai morrer.”

O andarilho encarou os dois feiticeiros com orgulho de si próprio, altivo. Mesmo assim, os feiticeiros continuaram. Disseram:

“Estamos esperando você implorar por socorro.”

“Não vamos ajudá-lo sem que peça com fervor.”

Foi então que o andarilho, com a voz fraca, ensaiou a fala:

“Eu não quero a ajuda de vocês.”

Os feiticeiros se entreolharam, inabaláveis. Sabiam que isso não era verdade.

“Podem ir embora.” - o andarilho completou.

Os feiticeiros deram meia-volta, porém, no que começaram a se afastar da sombra da árvore, voltaram a se colocar diante do andarilho.

“Não podemos deixá-lo aqui.” - um dos feiticeiros disse. - “Seremos cúmplices de um assassinato se deixarmos você morrer. Seremos responsáveis pela sua morte, o que nosso mestre Merlim não aprovaria.”

O andarilho encontrou forças para contra-argumentar:

“Isso não é verdade.” - murmurou já quase sem voz. - “Sou um homem livre, sou responsável e dono do meu destino. Se for da vontade do deserto que eu morra, a responsabilidade terá sido minha ao ter permitido.” - voltou a encará-los com altivez. - “Ainda que feiticeiros, não são melhores do que eu. Me deixem em paz com meu azar.”

Ignorando por completo o que o homem havia dito, os feiticeiros fizeram materializar em suas mãos dois copos cheios de um líquido verde. Era suco de uva verde, o preferido do andarilho.

“Podemos lhe dar esses sucos, mas tem que pedir com fervor.”

“Sabemos que você quer.”

O andarilho não tirava os olhos dos copos que transpiravam com o calor. Pensou, repensou, chegou a uma decisão para depois recuar e voltar a se decidir pela segunda e última vez.

“Está bem, eu aceito.” - disse.

Os feiticeiros responderam:

“Tem que pedir com fervor.”

“Não estamos convencidos de que realmente quer.”

Foi então que, finalmente, o andarilho implorou:

“Por favor, eu quero muito! Eu preciso destes sucos! Não sei como adivinharam que a minha fruta preferida sempre foi uva verde! Por favor?”

Em uma reação inesperada e surpreendente para o andarilho, os dois feiticeiros viraram os copos para baixo, deixando os sucos derramarem no chão. Derrotado, o andarilho disse então:

“Havia dito que não queria a ajuda de vocês porque desconfiei que fizessem isso. Vocês são maus. Finalmente, os lobos se revelam frente a sua caça.”

Em silêncio, os dois feiticeiros sorriram fraternalmente em resposta. Não haviam derramado o suco no chão por maldade, pelo contrário, tiveram a nobre intenção de ajudar de verdade o andarilho. Reconheceram muita dignidade naquele homem que se encontrava com a morte. Os sucos derramados penetraram nas areias do deserto e fizeram com que o lago seco se enchesse de uma água limpa e cristalina, e a árvore açoitada pela aridez do deserto se revitalizasse, ganhando folhas e cachos de bolinhas verdes. Uma frondosa videira!

Pelos dias que se seguiram, o andarilho pôde matar a fome na caça dos bichos que se aproximaram do lago para se refrescarem e a sede, recuperando-se, e seguiu viagem então. Muito antes disso, os dois feiticeiros já haviam ido embora.

FIM

3 comentários:

  1. Olá Rob, tudo bem??
    Achei o seu conto muito interessante... O final foi surpreendente já que eu tbm já não esperava mais uma boa dos feiticeiros, já que eles estavam praticamente obrigando o andarilho a se humilhar para poderem ajudar. Que bom que deu tudo certo no final! :)

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  2. Parabéns pelo trabalho!

    www.estante450.blogspot.com.br

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  3. Muito bom esse conto, super interessante. Gostei muito da história contada. Parabéns!

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